Se existe alguma esperança…

Eu já perdi um filho. Um filho que nem conheci. Ele morreu antes mesmo de nascer, junto com a mãe, que tinha apenas 19 anos.

Eu tenho três filhos e sou um incompetente como pai. Se faço algum lamento e se existe alguma ponta de uma maldita autocomiseração, é quando penso que gostaria de ter nascido milionário para ser dono de casa e viver para eles. Brincar, ensinar, não ter qualquer outra preocupação, ocupação, necessidade ou outro sonho pessoal. Trocaria qualquer coisa, qualquer vida, para, sendo homem, ser uma perfeita mãe de família dos anos 1950. E viveria com aquele sorriso de dona de casa de filme americano antigo.

Toda vez que tenho notícia da dor de uma criança, eu sinto a dor. Toda vez que tenho notícia da morte de uma criança, morro também. Não morro um pouco. Eu morro DE NOVO.

Hoje, a primeira coisa que vi ao conectar foi: Casal de Minas Gerais luta há um ano na Justiça por remédio para doença rara das filhas. Isso é coisa de país subdesenvolvido, de gente subdesenvolvida e, obviamente, governado por gente subdesenvolvida. Eu havia tirado o domingo para exercitar minha mediocridade de remediado, aproveitar o clima chuvoso e ver filmes com Ananda, minha filha de 11 anos. Preferi “não pensar nessas coisas”. No fim da tarde, conecto de novo e fico sabendo que um anjinho, Taíssa, sobrinha do meu querido Silvio Lach, nos deixou. Ela morreu com dengue hemorrágica. Uma epidemia que existe por ser transmitida pela picada de um mosquito é coisa de quinto mundo, de país sem qualquer preocupação com saúde. Não interessa se você ou alguém da sua família já teve dengue ou outra doença epidêmica. É um problema de todo mundo. Esperar ação de governante é atitude de gente idiota. Eleger e cobrar, independente de quem foi eleito, é a única atitude que provoca alguma mudança. Se não fazemos nada, se não nos movimentamos, se não cobramos, se torcemos contra e boicotamos (quando nosso candidato não foi eleito), nós SOMOS PESSOAS DE QUINTO MUNDO, por isso temos doenças de quinto mundo e merecemos o descaso de quem nos governa.

PERGUNTO: Você faz alguma coisa ou fica só reclamando da incompetência de quem nos representa?

PERGUNTO: Você vai ficar esperando isso acontecer COM O SEU FILHO para finalmente sentir a dor e tentar fazer alguma coisa?

Silvio resumiu de forma verdadeiramente brilhante ao tuitar: A dengue dá em águas paradas, prefeituras paradas, políticos parados, governos parados e, principalmente, pessoas paradas.

TODOS NÓS somos responsáveis pela mudança. Se tem alguém aí perto que você possa ajudar, ajude. FAÇA A SUA PARTE não é uma frase de propaganda; É UMA LEI DE SOBREVIVÊNCIA DA ESPÉCIE.

Em tempo: Meu bebê mais novo, Dom Pietro Fortunato Barbosa de Castro Alves sem Orleans e Bragança, completa seis anos nesta segunda. Pietro e Ananda são regentes do meu coração e os responsáveis mais diretos por eu não ser o mais radical dos niilistas. Não tenho grandes esperanças na humanidade e minha descrença só não é absoluta porque os dois existem. Se eu for um pouco menos incompetente, talvez consiga ajudá-los a serem pessoas melhores que eu. Se existe alguma esperança, ela mora nas crianças. Nas minhas, nas dos meus amigos, nas que não conheço.

Descanse em paz, Taissa. Perdão por não termos conseguido fazer deste mundo um lugar legal para se viver. Ainda estamos só tentando acordar.

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Uma resposta a Se existe alguma esperança…

  1. Bacana seu desabafo. Que é bem de acordo com uma parte da população mundial e que bom saber que existimos e resistimos.

    Eu tenho esperança. Não só pelos meus filhos, que espero conseguir contribuir para que sejam pessoas de verdade, dessas que são minoria no mundo.Só que às vezes até nisso falhamos. Com eles aprendo ( principalmente) e ensino. Sem preferências, exclusões e com muita paciência.
    Mas tenho esperança pelas crianças de um modo geral e por todas as pessoas que assim como eu querem e lutam para evoluir e mudar alguma coisa ao redor.
    A minha esperança não reside em esperar do outro,mas no desejo e na certeza que todos têm um despertar. Enquanto isso,tento o meu e tento ajudar os que estão ao meu redor.

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