Mais notas na sala de espera

► Para “atendimento por ordem de chegada”, minha tática é a seguinte: chego uma hora antes e quase sempre sou o primeiro. Hoje, me atrasei e acabei chegando 20 minutos depois do início do atendimento. Não contava que todas as pessoas pensam do mesmo jeito, sendo que, como “gente (mentalmente) diferenciada”, só fazem isso em cima da hora. Resultado: eu seria o 30º paciente a ser atendido. Não, não estou falando do SUS. Estou falando de uma clínica particular. A atendente foi boazinha em avisar que a previsão de atendimento seria para dali a duas horas e meia. Tranquilo. Saí, fui pegar uma revista ali perto, dei uma bela caminhada de quase dois quilômetros até o laboratório, que estava fechado… Parece incrível, mas ainda há coisas que “fecham para almoço” em Natal. Torço para que um dia a cidade chegue ao final do século XX. Ok. Sem problemas. Caminhei de volta. Não estava sol. Não estava calor. Tranquilo, tranquilo…

► Como de costume, aboletei-me no canto mais escondido da sala de espera. Se eu era o 30º paciente de um dos dois médicos e continuava chegando gente, imagine que o local era razoavelmente grande. A espera seria longa e eu sabia que as dores lombares logo apareceriam. Tranquilo – sempre muito, mais e demasiadamente –, montei acampamento. Percebi que espalho coisas ao redor para evitar que sentem próximo a mim. Juro que, até hoje, fazia isso inconscientemente. Mochila de um lado, papéis de outro e está pronta minha pequena barricada anti-humanos.

► O quadro é o de sempre: dantesco, com pessoas se desmontando nas cadeiras, hipnotizadas pela TV, filhotes selvagens correndo e gritando, adultos selvagens gritando e correndo atrás deles. Só os cheiros diferenciam uma sala de espera de uma feira. A balbúrdia é a mesma. Não adianta se há sistema de senhas e um telão de LCD mostrando seu número, as atendentes gritam o nome de alguém a todo instante. Tenho vontade de dizer que se quisesse meu nome sendo bradado no meio de uma multidão, eu teria sido miss. “E com vocês, na passarela, Sandro Fortunato…

► Duas regras básicas definem meu comportamento: não perder tempo e não fazer qualquer coisa que me estresse. Espera é algo que estressa e faz perder tempo. Basta olhar para as pessoas que são obrigadas a fazer isso. Levantam, perguntam quanto tempo falta, reclamam, começam a fazer ligações no celular, reclamam com a pessoa para quem ligaram, desligam e começam tudo de novo com a voz em volume mais alto. Comigo, não. Isso é o bom da “esquizofrenia exercitada”. Você tem um mundo só seu e se fecha ali, onde só acontece o que você deseja. Tenho sempre um livro e minha caderneta de anotações, que podem me entreter por horas. Old school total. Para a atual peregrinação, imaginei que fosse ler um livro por semana somente em salas de espera.  Quando a coisa começou, achei que pudesse chegar a dois por semana. Acha que é exagero? E se eu disser que li um quase inteiro SÓ HOJE. E não terminei porque parava para fazer anotações (sobre ele e as que me auxiliariam neste texto) e porque escrevi uma crônica inteira. Foram TRÊS HORAS E MEIA DE ESPERA. Nunca fui bom com números. Corrijam-me se necessário. Três horas e meia são 210 minutos, que, divididos por 30 pacientes (eu já incluso para arredondar e facilitar a conta), dá 7 minutos de consulta para cada um, certo? Errado. Eu fiquei metade disso. Esperei três horas e meia para passar três minutos e meio na frente do médico. Vá lá que eu não estava morrendo, era só para saber se estava tudo bem e marcar um pequeno procedimento cirúrgico, mas a relação espera-tempo de consulta é assustadora. Por esse tempo, eu poderia querer um transplante!

► Tenho que deixar claro uma última coisa: os médicos não estão preparados para os meus conhecimentos. Não, não estão. O que são os seis anos de graduação de qualquer um deles na frente dos meus sete anos de House? E sete anos fresquinhos, que fiz como intensivão, nos últimos cinco meses! Conheço todas as lises, oses e psias existentes ou inventadas. Tudo pode ser câncer, sarcoidose ou doença autoimune. Biopsia de cérebro é mais básico que exame de sangue. Se o House que é o House, que ganha 750 mil dólares por caso e é assessorado por 4 (às vezes, por 6) médicos, demora 45 minutos pra descobrir qual é o problema, como alguém pode ir me despachando assim em três minutos e meio? Isso é só o tempo da abertura do episódio, só para eu dizer o que me levou até ali. Não assina Universal Channel? Não tem DVD? Não tem banda larga para baixar os episódios? Se liga, doc!

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4 respostas a Mais notas na sala de espera

  1. Renata Silveira disse:

    Sandro, o que me deixa chocada é isto ser o sistema privado, onde cada brasileiro paga com o corpo (literalmente) por este tipo de serviço. Nós por cá em PT, que nem somos tão primeiro mundo assim como os portugueses pensam, temos um tempo de espera de mais ou menos meia hora numa consulta marcada no sistema público de saúde… Bom, levei a Zoé para uma consulta otorrino marcada para as 8h30, disseram-me, em aviso por carta, que vem para a minha casa me lembrando que tenho consulta, que deveriamos estar no hospital 20 minutos antes da hora prevista. Como cheguei mesmo às 8h30, ela só foi atendida às 8h50. Depois da consulta foi colocada na lista de espera para cirurgia das amidalas/adenoide, pré-agendada para 2 de setembro. Ah e ela, como todas as crianças até aos 12 anos, está isenta das “taxas de moderação”. É que o sistema é público mas não é gratuito! Uma consulta médica (adultos) custa 2,60€… E se eu te contar o preço dos exames por aqui é capaz de ficares ainda mais doente por causa dos absurdos na saúde do Brasil :/

  2. Renata Silveira disse:

    Baideuêi, a consulta da Zoé durou 15 minutos e só porque ela também é old school e anda com seu diário gráfico a desenhar enquanto os outros miúdos lutam nas suas psp, o Dr viu que ela desenhava bandeiras de países e ainda “arranjou tempo” de abrir o google no seu pc para mostrar bandeiras para ela…
    O SNS (sistema nacional de saúde) está informatizado e ao entrarmos para uma consulta o médico tem aceso imedato ao nosso histórial, desde entradas nas urgências até o resultado dos exames recentes que fizemos… Quase como em House 😉

  3. marina disse:

    Caro Sandrito, meu filho
    vc é um amador perto de mim. Tenho várias táticas que vêm lá dos primórdios, de qdo ia com barriga, depois c/outra barriga+um nenê, depois dois nenês+3 crianças,etc,etc… enfim, posso te dar umas palestras. Nenhum médico, NENHUM, sabe mais que eu a respeito de sua pp especialidade,mas não digo isso a eles p/não ser arrogante. Como diz meu marido, nem sabe pq eu vou p/ consultas, já q sou doutora em qq assunto. Me delicio c/ a pajelança e as adivinhações, na maioria das vezes,eles erram feio.
    Quer uma consulta?
    beeeijo
    marina

  4. wilson disse:

    SANDRO: Ir aos médicos – pagos ou não – é como tomar uma dose “cavalar” nada homeopática.
    Ir às consulta do plano pago, ou as do SUS(to)é como ir à guerra de Tróia. A gente entra de cabeça na “Ilíada”.Chegar a Tróia é difícil, conquistá-la, mais difícil ainda.Tróia é conquistada. Então, começa a “Odisséia”… Ir à Tróia é mais fácil do que sair dela.Anda-se sem rumo, volta-se ao mesmo lugar; espera-se que os ventos empurrem as velas; mais espera…
    Nessa “Ilíada/Odisséia” pela saúde, andamos em círculo, dentro de um círculo restrito.E horas de espera que terminam em minutos…
    Sáio da Grécia e entro no Fiction “B” movie:Médicos, à distância, me examinam com olhos de raio X e suas mente, tão poderosas, substituem os exames de toque e os laboratórios. Diagnosticam “desdiagnosticando” e abrem o catálogo médico de um laboratório, de quem ganham comissão e medicam.”Você tem reação alégica ao componente X”? “Y”?… Não impota. Eles nem perguntam.
    Tenham um efeito colateral e, volte sempre! As nossas salas de espera estão à disposição para que vocês tenham momentos de longas, longas esperas…
    E eu continuo achando que não é a saúde que vai mal. E sim os médicos e a gestão da Saúde.
    Abração,
    Wilson

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