Dor é a fraqueza saindo do corpo

Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran.

A primeira dor física da qual lembro me pegou ali pelos 10 anos de idade. “Cólicas de fígado”, diziam. Sim, eram físicas, eu me contorcia e corria para o banheiro, mas talvez as causas fossem emocionais, pois sempre aconteciam às vésperas de grandes eventos como as provas finais ou viagens de avião. Elas me ensinaram a não ligar para as coisas e não morrer de véspera. Ensinaram a não me preocupar, mas só me ocupar das coisas quando elas acontecem.

Dor mesmo, eu conheceria aos 20 anos. Lembro de deitar no chão da sala, suando, arfando, sem conseguir pensar direito. Lembro também da sensação começar a diminuir quando eu já estava deitado na cama da emergência de um hospital, tomando buscopan na veia.  O que aconteceu entre um momento e outro, a dor não me permitiu registrar. Quem já teve cálculo renal não precisou chegar a esta frase para saber o que foi aquilo. Pergunte a uma mulher que já teve parto normal e cálculo renal qual experiência ela prefere repetir. As que conheço, que passaram pelas duas, foram unânimes: preferem outro parto. A tal cólica renal é uma dor dos infernos! Literalmente, derruba a pessoa. Ela não “vai aparecendo” e lhe dá chances de procurar um médico, fazer exames, tomar remédio para que não piore. Ela funciona como um tiro: quando você percebe é porque já foi atingido. Três dias depois, pouco mais de uma hora após ter deixado o hospital, coloquei a danada da pedra para fora. Um trocinho parecido com um grão de areia. Como aquilo pode causar tanta dor?! Não sei, mas anos depois eu sabia como o drama começava e passei por tudo de novo. A diferença é que não quis ficar internado. Fiquei apenas uma noite no hospital. A noite seguinte, passei no bar. Eu e a cerveja já éramos grandes amigos e eu sabia que poderia contar com ela para botar aquela segunda pedra para fora. Deu certo, mas o fígado jamais me perdoará por aquele episódio.

Nas duas vezes seguintes, nem fui ao hospital. No primeiro sinal, uma lapada de buscopan, cama e paciência. Lembro da palestra de um médico amigo, na qual ele citou um trecho do Sermão da Montanha – “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” – e trazia para a realidade física, completando: “Quem chora, sabe onde dói, mostra onde é e tem possibilidade de ser curado.” Possibilidade. Quando a dor bate, eu queria que a ciência tivesse a firmeza e a certeza daqueles que têm fé – pobre de mim, criatura sem fé e sem conhecimento! – e dissesse logo o que fazer para acabar com ela. Não sou chegado a remédios, mas começo a entender quem se entope com eles para não tem dor.

Ando cheio de dor. E do pior tipo: a crônica. Deus não deve ter entendido minhas preces diárias pedindo “uma boa crônica”. Relevo. Ele deve ser super-ocupado e ninguém pode mesmo trabalhar direito nessas condições. Enfim… estabeleceu-se uma maldita dor crônica, poderosa e cheia de vontades, que me quer totalmente deitado ou andando. Não posso mais ficar sentado. E foi assim que passei mais tempo durante a última década, sempre pesquisando e escrevendo. Só não mais porque prefiro ler deitado.

Paro o texto por um instante e dou uma olhada no Twitter bem na hora em que Gloria Perez informa sobre uma matéria com ela, publicada hoje, na qual diz: “Escrevo sempre em pé, olhando o mar. Se escrevo sentada, vou ficando torta e acabo tendo dores de coluna. Em pé, não sinto dor.” O repórter se admira tanto que trata a informação como “revelação inusitada”. Inusitada para quem não escreve ou não faz isso há muito tempo. Sua hora há de chegar, meu caro! Ou aceite o conselho e procure evitá-la. Nietzsche já ensinava: “Senta o menos possível. Não acredite em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação – quando também os músculos estiverem participando da festa.” Quando em Ecce Homo ele fala de sua doença, diz que, ao final das contas, é isso que leva alguém a ser saudável, que a doença pode “até ser uma estimulação enérgica à vida, a viver mais”. É bem o que penso. Saudável, relaxo. Doente, fico alerta e parto para a guerra.

Há pessoas que falam em “respeitar a doença”, “não brincar com doença”, não dizem os nomes de algumas, como se isso pudesse atraí-las. Pois se alguma quiser acabar comigo, vai ter que aturar zombaria até o meu último suspiro. Quer me matar e ainda quer respeito?! Ma va! E olha que dor, principalmente uma que não passa, é algo que tira o bom humor de qualquer um. Essa atitude também tem seu preço: ninguém acredita que eu tenha algo grave. O pensamento geral é que se tivesse estaria numa cama, reclamando o tempo todo, indisposto a tudo. Nem os médicos acreditam em um enfermo que sorri e faz piadas. Nem os exames parecem acreditar também, já que até agora nenhum acusou grande coisa. Dor crônica é como uma virose: se você tem, console-se. Parece que não há muito que fazer.

Depois que ganhei esse presente, comecei a reparar que muitos vivem com dor, isto é, convivem com ela. Durante anos! Durante uma vida inteira! As pessoas “se acostumam”. Mudam o humor, mudam o comportamento, mudam alguns hábitos, tomam remédios e vão levando. Isso não é nada bom. Prefiro ir para a guerra sob a frase de recrutamento da marinha americana: DOR É A FRAQUEZA SAINDO DO CORPO. E  se está aqui, eu ponho para fora.

E se você tem dor crônica – ou qualquer doença crônica –, venha cá, me dê a mão, vamos sair dessa. Porque a vida é para ser vivida plenamente. SAÚDE!

Esta entrada foi publicada em Comportamento, Crônica, Saúde. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 respostas a Dor é a fraqueza saindo do corpo

  1. Jackie disse:

    Ai, ai, ai…
    Meu grau para dor e altíssimo, só reclamo quando estou morrendo !!
    Já tive pedra nos rins, quase morri, fiz Litotripsia e a dor sumiu.
    Depois de alguns meses, dor novamente, achei que era pedra nos rins, me alto mediquei,e ai me ferrei, estava com uma Infecção que avançou para uma Pielonefrite seguida de Septicemia !!
    Sofri muuuuuuuito !!!
    Não me pergunte como estou viva, acho que foi Nossa Senhora Aparecida e as duas Equipes Médicas que cuidaram de mim.
    E hoje, talvez uma sequela da Septicemia, tenho Fibromialgia, tomo remédio todos os dias.

    Acho que chega né !!!

    Se cuida !!!

  2. Sandro Fortunato disse:

    Parece que a Livraria da Folha combinou comigo…
    Método sugere como conviver bem com a dor e a doença –> http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/913229-metodo-sugere-como-conviver-bem-com-a-dor-e-a-doenca.shtml

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *