Notas na sala de espera

► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários.

► Tevês. Sempre há pelo menos uma vomitando gritos, violências, desgraças. “O senhor está tomando alguma medicação?”, pergunta a atendente. O homem responde: “9112…” Tão absorto na pancadaria do futebol que responde informando o número do celular. Convenhamos que, para muitos, o aparelho funciona mesmo como um tipo de droga, viciando e ajudando a fugir da realidade.  Assim como a tevê.

► Às vezes é impossível ler durante a espera por conta do barulho do televisor. Fico impressionando com as pessoas vidradas no monitor, desligadas do mundo. Quem pode gostar de assistir a um telejornal mundo cão – e, hoje, não existe um que não seja – e já acabar com a possibilidade de um dia feliz logo pela manhã? Gente depressiva, gente sem filtro, gente não gente. Direito ao silêncio. Nem em ambientes médicos existe mais. Até o quadro da enfermeira pedindo silêncio sumiu.

► Pernas balançando. O que é esse nervosismo quase endêmico? Algum tipo de energia acumulada? Eu, que vejo humanos como animais menos peludos, que usam roupas e que insistem em se fazer de bípedes, tenho uma explicação simples: na falta de uma cauda, se balança a perna.

► Estranho os hábitos alheios e é provável que as pessoas estranhem os meus. Ou não. Discreto, silencioso. Sempre lendo ou escrevendo. Mas penso em carregar meus tampões auriculares. Aqueles pedaços de silicone colorido enfiados nos ouvidos causariam alguma perturbação.

► Devo ter uma “aparência genérica” ou um rosto de quem sabe tudo. Onde quer que eu esteja, as pessoas me pedem informações. Um senhor se aproxima e me pergunta onde fica o mictório. Talvez tenha imaginado que eu trabalhasse lá por conta da gentileza de ter aberto e segurado a porta para que ele entrasse. Ou talvez porque eu fosse a única pessoa sentada em uma das cadeiras abaixo da escada e que estava concentrada escrevendo. Aquilo não é lugar para paciente aguardar e como estava fazendo algo diferente de ver tevê ou brincar com o celular, aquilo só poderia ser por obrigação.

► Aguardei por 22 minutos até ser chamado para um pré-exame, um eletrocardiograma. Uma ruivinha de cabelos longos me atendeu. Não lembro quando foi a última vez que uma garota tão bonita me pediu para tirar a camisa assim que ficamos a sós no mesmo cômodo. Obedeci imediatamente, antes que ela mudasse de ideia. Conferiu meu peso, altura e me mandou deitar. Eu estava gostando daquilo. E se você pensa que parou por aí é porque ainda não contei que ela começou a subir minhas calças! Achei que a coisa fosse esquentar bastante quando ela pegou nos meus tornozelos, mas… espere! Ela subiu minhas calças. Ela queria meus tornozelos livres para pinçá-los e conferir meus batimentos. Duvido que aquele exame tenha dado normal. Nota mental: sugerir ao cardiologista que contrate auxiliares feias. As muito bonitas que me perdoem, mas resultado confiável é fundamental.

► Saio frustrado e volto à cela sob as escadas. Tinha um encontro com uma lenda: o médico com hora marcada. Há quem diga que ele já existiu de verdade. Para mim, o último bastião da pontualidade no Brasil era o horário das sessões de cinema. Depois que elas passaram a atrasar, não acredito em mais nada. A consulta era às 10h. Uma hora, três minutos e cinquenta páginas depois, sou chamado. Ausculta daqui, ausculta de lá… tudo normal. “Tinha dado pressão alta?!” Tinha, mas a médica era bonita. Ele concordou que tal fator deve ser levado em conta. Fui dispensado com aquele desinteresse médico típico dos que atendem alguém que está só resfriado. Eu, admiradíssimo por ele ter achado um coração. E ainda batendo. Deve ter como função marcar meus compassos de espera…

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