De como Sandrinho virou Lobão

Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de Appe, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém neste momento.  Evitava até comprar biografias e, quando o fiz, consegui não ler. Mas aí chega Dona Luciana Ubarana com Lobão – 50 Anos a Mil e imediatamente pensei: “Fudeu!

Ah! Para quem não me conhece de longas datas, prazer, eu sou Lobão. Explico. O ano é 1987 e estou no pré-vestibular do Salesiano, em Natal. Carlos “Cristão”, professor de Química, tinha a mania de soltar um “Voooooooooo…” olhando para um lado da turma e apontando para outra para finalizar “…CÊ!”. Virava, descobria para quem estava apontando e dizia o nome da vítima. Numa dessas vezes, eu fui a vítima. Usava um corte de cabelo batido na base e um franjão que cobria os olhos. Fazia de tudo para que ninguém me notasse (usando um corte desses na Natal de 87? Tá!). Havia chegado à cidade no ano anterior e como todo estranho, sofria bullying (só disse isso porque está super na moda ter sofrido bullying). Pois bem. Carlos mandou um “vooooooCÊ”, virou para mim, olhou para meu cabelo e completou: “Você, Lobão.” Pronto. O apelido pegou de imediato. Virei Lobão.

Voltemos ao outro Lobão. Chegou a Semana Santa, peguei o livro e não desgrudei antes de ler duzentas páginas. Estava lendo os bastidores de uma história que vi e que, em alguns momentos, cruzou com a minha. O corte de cabelo e o apelido Lobão, em 87, não vieram do nada. No verão 86-87, aos 14 anos de idade, eu havia feito minha primeira entrevista. Adivinhe com quem. Pois é. Eu, Fabinho, Marcelo Jucá e Gustavo Lamartine – “uma turminha da pesada que adorava aprontar mil aventuras” – resolvemos aproveitar a passagem de Lobão por Natal e ir até o hotel onde ele estava, na Via Costeira, tentar falar com ele. Eu, tendo um insight do que faria muitas e muitas vezes no futuro, desmontei as caixas do meu stereo portátil, descolei um microfone, uma fita TDK e fui pronto para registrar aquela parada. Levei também a Olympus Trip do meu pai.

Chegamos na cara dura e nos apresentamos. O recepcionista pediu que esperássemos. Voltou dizendo que Lobão estava na piscina e que podíamos ir até lá. Meio sem graça, chegamos até a área externa e ficamos procurando. De repente, de uma espreguiçadeira, Lobão se vira e acena. Fomos até lá e começamos a conversar. Eu, já todo jornalista, gravando tudo. O que ele estava achando de Natal, como era o novo show, se o rock errou mesmo e aquelas coisas de moleque se achando gente. Gustavo, o tempo de boca aberta, queixo apoiado na mão, sem falar nada. Quando resolvemos despertá-lo do transe, disse apenas o seguinte: “E o Herbert?” Pronto. Lobão danou a baixar o pau no Herbert Vianna e o resto do papo foi só aquilo. Uma hora de blá-blá-blá, acabou a fita, sessão de autógrafos e eu, sempre preparado e com tudo pensado, saquei a Playboy de setembro de 1986, edição em que Daniele Daumerie (que foi esposa de Lobão) aparecia. Levemente constrangido, ele autografou na página dupla que abria o ensaio. Muito simpático, foi nos deixar na entrada do hotel (talvez para ter certeza de que aquela molecada iria mesmo embora e deixá-lo em paz). Lembrei da Olympus. Fiz uma foto dos meninos com ele e pedi que fizessem uma dele comigo. Eu, na época um boy com um metro e sessenta e pouco, ao lado daquele gigante de quase dois metros. Saí com uma cara de “peraí!”, segurando o trambolho do gravador e a revista.

Daquele show do Lobão, lembro bem dele abraçado a uma garrafa de uísque que foi esvaziada durante a apresentação. Era a turnê de O Rock Errou. Estava em meu primeiro verão em Natal. Os verões dos anos 80 na cidade eram repletos de shows de BRock: Titãs, Ultraje, Paralamas, Kid Abelha, Biquiní Cavadão… Eu tinha ido ao primeiro show da minha vida alguns meses antes, no Palácio dos Esportes: Cazuza.

Acho que foi antes desse encontro que comprei Ronaldo foi pra Guerra, segundo LP de Lobão, assinado por Lobão e os Ronaldos. Comprei em uma loja no Hiper Bom Preço. Acho difícil explicar a quem chegou ao mundo na era pós-LP o significado da compra de um disco e o ritual que era ouvi-lo. Escolher o bolachão, apreciar a capa, olhar o encarte se o disco não fosse lacrado (os discos importados geralmente eram), comprar, desfilar com ele até em casa, se trancar no quarto, tirar do plástico pela primeira vez, limpar com a almofadinha, colocá-lo no 3 em 1, levar a agulha ao vinil, deitar e acompanhar as letras pelo encarte (quando tinha).  Você ouvia e apreciava uma obra completa, um determinado momento do artista. Era uma viagem. E eu viajei muito ouvindo Corações Psicodélicos, Não tô entendendo, Tô à toa Tókio, Abalado (a primeira balada lobônica que ouvi), Os tipos que eu não fui, Bambina… E aí acontecia uma mágica dos tempos do LP: virar o disco. A primeira música do lado B era Me chama. Para quem viveu aquela época, não é preciso dizer mais nada. Me chama é a música que mostrava que os brutos roqueiros também amam.

O Rock Errou, comprei depois. Ouvi muito durante o ano de 1987, o mesmo em que virei Lobão. Também foi naquele ano que deixei não só o franjão, mas todo o resto do cabelo crescer. Os padres do Salesiano não me viam com bons olhos. Na verdade, os alunos também não. O pessoal estava acostumado com forró e vaquejada e não aturava muito a atitude rock’n’roll do carioca alienígena. Tô falando: eu sofria bullying. Mas cagava e andava para isso. Pressionado, resolvi cortar o cabelo. Costumava ir ao salão do seu Guedes, o mais tradicional da cidade e até hoje o preferido pelos políticos, alpinistas da área e wannabes reaças em geral. Cheguei com minha vasta cabeleira – também mal vista pelos clientes – e pedi ao Beto, filho do seu Guedes , para cortar: “Raspa dos lados”. Olha… Para mim, moicano era um troço velho, de punk dos anos 70, mas, para Natal de 1987, era um negócio pesado e impensável. Enquanto o ministro Aluízio Alves aparava suas carapas brancas na cadeira ao lado, Beto ajudava a nascer o primeiro pós-punk de Natal. Não era um moicaninho de boutique desses de hoje, raspadinho do lado e “deixado em cima”; nem essas frescuras pintadas. Era uma senhora e mui respeitável crista que, armada, tinha lá seu palmo de altura (mantive o comprimento grande do resto do cabelo).  Papai ,mamãe, eu não pedi para vocês me tirarem do Rio em plena explosão do rock nacional. Sinto muito. A cidade ia ter que me engolir. Do Guedes, peguei o ônibus direto para o Salesiano. A coisa mais bonita que ouvi no caminho foi “se fosse meu filho, eu dava uma surra pra se ajeitar”. Uma senhora… uma velha chata pra caralho foi fazendo um discurso no ônibus sobre como a juventude estava perdida, que o mundo ia acabar e que gente assim (como eu) deveria apanhar até se emendar.  Quando o ônibus parou na Ribeira, virei para a velha, dei o maior berro que podia e desci do ônibus. Bob Cuspe iria se orgulhar. O Salesiano parou quando entrei. Os padres quiseram me expulsar. Deviam achar que eu estava com o diabo no corpo. E se estava, não saiu até hoje. O Lobão, o Sandro Lobão, se assumiu ali.

1988, faculdade de jornalismo. Foi nesse ano que Lobão voltou a Natal com a turnê do LP Vida Bandida. Ele já havia sido preso, estava estouradaço e era o capitão dos malucos de verdade. Na noite de 31 de julho, eu estava bem na frente do palco montado no gramado no Estádio Juvenal Lamartine. Como lembro a data? É porque guardo até o hoje o panfleto (este reproduzido aí ao lado). Estava lá, todo aplicadinho de cerveja.  O show tinha o apoio da rádio 96 FM. A propósito, durante anos, infernizei Ênio Sinedino e Germano (respectivamente, diretor geral e de programação da 96) para liberarem aquele Cena de Cinema, primeiro LP do Lobão, que eles tinham por lá e não servia para nada, afinal as músicas eram gravadas em cartucho e, depois, passaram a usar CD. Nunca me deram. O Cena, como Lobão conta no livro, vendeu pouco e foi logo tirado de circulação por conta de uma encrenca sua com a gravadora. Diz que foram vendidos cerca de 6 mil discos. Eu só teria um já nos anos 2000. Comprei na Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Novinho. Detalhe: também deve ter sido de alguma rádio, pois tem um carinho de “Invendável – Amostra grátis”. Para mim, não foi. Na mesma leva, ainda vieram para minha coleção O Império dos Sentidos (segundo de Fausto Fawcett, com Silvia Pfeifer na capa) e as trilhas de Amarcord, de Fellini, e Areias Escaldantes, de Francisco de Paula.

Para quem não sabe, Areias é um filme louquíssimo, non sense, feito em 1985. Francisco de Paula (que conheci em 2006 no Festival Internacional de Cinema de Brasília e vez ou outra dá o ar da graça aqui no blog) juntou Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Diogo Vilela e parte da nata do rock brasileiro – Titãs e Lobão, que participam do filme, mais Lulu Santos, Ira, Ultraje a Rigor, Gang 90 & Absurdettes na trilha sonora – para contar uma história louca (coisa de quem cheirava muito) com terroristas e uma polícia de elite na Província de Kali. Vivia passando no CineBrasil, mas eu tenho uma cópia em DVD que me foi dada por Francisco.



Em 2001, fiz aquela que por um bom tempo chamei de minha última entrevista. Sim, com Lobão. Achei que seria A entrevista e queria encerrar meus dias de jornalista com ela. Falei com esposa de Lobão por telefone e ela disse que ele responderia as perguntas por e-mail. Não gostei da ideia, mas encarei. Foi um desastre. Lobão sempre viu jornalistas como Dom Quixote via moinhos. Era botar o olho e partir para o ataque. Por e-mail, à mercê de interpretações erradas que não poderiam ser devidamente esclarecidas, acabou não rendendo, mas publiquei assim mesmo. Dez anos depois, vejo Lobão muito mais manso, mais acessível e até admitindo que estava sempre armado e pronto a desancar qualquer um. Inclusive eu, que estava super-bundão, em um momento único, mais fã que jornalista, levantando a bola para ele cortar. Cortou e veio bem na minha cara. Tudo bem.

Há poucos dias, Lobão esteve duas vezes em Natal. Na primeira, veio autografar o livro. Tive vontade de ir para que autografasse seus/meus LPs, mas abortei a ideia quando imaginei a garotada Restart cuzona que estaria por lá idolatrando um cara que sempre foi iconoclasta. Na mesma semana, voltou para fazer um show no “teatro do shopping da cidade”. Não consigo imaginar um show de Lobão com gente vestidinha, com cheirinho de perfume e sentada.  Eu ia querer quebrar aquela porra toda, então, resolvi ficar em casa. Era véspera do meu aniversário e eu não ia querer estragar as boas lembranças dos últimos 25 anos: a entrevista no hotel; os shows no Juvenal Lamartine; outro também em Natal, nos anos 90, com quase ninguém; um em Brasília, quando lançou seu disco independente. O velho Lobo, para mim, era o Lobão novo. Este novo Lobão, cinquentão e educadinho, estou curtindo muito nas páginas do livro que serei obrigado a terminar. Ali, ele continua rock’n’roll e me fazendo lembrar coisas da natureza dos lobos, como ir contra tudo e contra todos agarrado à ideia de que está fazendo a coisa certa (por mais que o mundo mostre o contrário), sendo fiel a si mesmo e feliz a todo custo. Só não digo que fazemos parte da mesma matilha porque tanto aquele quanto este lobo é do tipo solitário.

E chega. Vou ali matar o livro e continuar girando o mundo, sempre com a certeza de que “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”.

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Mais Lobão (o outro) no Tumblr: http://sandrofortunato.tumblr.com

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2 respostas a De como Sandrinho virou Lobão

  1. AV disse:

    Na falta de chocolate, a biografia de Lobão foi um presente maravilhosamente bem degustado nesses dias de feriado santo, hein? Coisas de Lu esse carinho explícito para com os seus. Coisas de Sandro essas expressões tão elaboradas que me fazem ser leitora ‘quase’ assídua do seu blog. Feliz Páscoa. =ô.ô=

  2. Luana disse:

    Faltou a foto sua em 87, né?


    Faltou. E não foi displicência minha. Prefiro dizer que “perdi em alguma mudança”, mas sei que tudo – a foto, a fita K7 e a revista – foi roubado. Sobraram apenas as lembranças. 🙁

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