A Cidade do Sol roubado

Em Natal, o sol já não nasce para todos. O astro-rei vem sendo privatizado pelos moradores dos arranha-céus de Petrópolis e Areia Preta. De sua posição privilegiada, bem ao lado do trepódromo, o Hospital Universitário Onofre Lopes ainda pode vê-lo. As pessoas que passaram a noite do lado de fora, na fila, também, mas já não têm forças para apreciar o espetáculo. Cansadas, com as almas anestesiadas, só pensam em pegar uma ficha de atendimento e sobreviver.

Os bebês da Maternidade Januário Cicco perderam o direito aos primeiros raios. Da sacada, agora fria, uma jovem mãe vê prédios. Mais adiante, o Conservatório de Música Frederico Chopin conserva ainda a placa com a grafia aportuguesada do polaco. Não se pode dizer o mesmo de suas paredes, que vão desabando. Na Praça Cívica, a centenária e andante estátua de Pedro Velho gelaria até os ossos – se os tivesse! – por boa parte da manhã.

No antigo Papa Jerimum, nas paredes que ainda insistem em ficar de pé, tristes figuras choram por uma réstia de sol que só chega no meio da manhã. As árvores da Rua Mossoró parecem querer correr até a Prudente e buscar lugar mais propício ao viver. Não seria ali na avenida. Nos canteiros, algumas flores só encontram o sol em seu pior horário. São tão descoloridas quanto as paredes e as chorosas meninas grafitadas. Sem sol, as casas… não, as coisas, todas elas, ficam tristes, vão morrendo.

Seis da manhã. Volto pelas calçadas sombrias. Sei que o sol saiu porque vi, porque fui acolá dos prédios, de além, quase outro mundo. Volto triste, pensando que um dia terei que adentrar o mar e gritar por ele – Vem, Sol. Acorda! –, que terá desistido de competir com esse desespero humano de estar sempre acima de tudo, sempre tomando o que é de todos.

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3 respostas a A Cidade do Sol roubado

  1. Tereza Ratts de Ratis disse:

    E o Farol de Mãe Luisa, hein? Ele ainda esta fechado ao publico? Nunca consegui subir nele. Lembro que iam construir um condominio de casas ao redor… Tsc!
    Lamentavel!!! 🙁

    O Farol de Mãe Luiza, hoje, é um anãozinho perdido entre prédios e dunas.

  2. Leandro disse:

    Excelente crônica! De uma percepção muito sensível, em cada detalhe. Parabéns!

  3. Visitante disse:

    A cidade do Natal era vestida da roupa mais nobre que havia, roupa que não se sujava, roupa que não se rasgava, roupa que não envelhecia – o sol. Hoje, como o artigo mostra, esta roupa foi sequestrada, em seu lugar, no chão, vemos apenas os rastros da outra que lhe impuseram, os grandes retângulos e triângulos. Aquela renda de sol partiu para não mais voltar ……

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