Das falsas virtudes ou “eu quero sexo”

O mineirinho cantou a bola. Esse negócio de falar de intimidades é só para depois de morto. Deixou para publicar depois da vida o que de mais gostoso existe nela. Sua língua lambilonga, lambilenta, a percorrer licorina gruta cabeluda, atingindo o céu do céu entre gemidos; a doce surpresa da graça não pedida, quando a amante fica de joelhos, em posição devota, para que o pênis recolha a piedade osculante de sua boca; ou ainda a explícita decisão de não querer ser o último a comê-la; tudo isso, ele deixou para ser dito depois que estivesse a salvo do conservadorismo hipócrita, protegido por sete palmos de terra e paredes de mármore.

Adoramos corpos expostos, queremos possuí-los – no sentido de ter um e de ter os de outros ao dispor –, sonhamos com o(a) amante perfeito(a), nos enganamos acreditando que ninguém no mundo trepa melhor que nós, adoramos dar bandeira (real ou não) de que temos uma vida sexual maravilhosa, mas falar sobre sexo… NÃO! Falar, não pode.

Fato: se você se incomoda com a exposição de determinado tema comportamental é provável que isto não seja algo muito bem resolvido na sua vida. Ou seja, se ouvir falar sobre sexo incomoda é porque você não come direito nem está sendo bem comido(a).  Não perca tempo se emputecendo com isso. Só estou avisando. Não é culpa minha se você é assim. Vá trepar (mesmo mal), que a raivinha passa.

Erotismo não ganha resenha, não pode ser falado, tem que ser escondido e criticado. É coisa para gente bem resolvida, não para selvagens travestidos de civilizados. Às pessoas assim, adoro lembrar que estão aqui porque seus pais treparam. Sim, papai comeu mamãe, mamãe se abriu toda, suaram, gemeram, grunhiram e nove meses depois, também nu, nasceria um bebê fofinho que um dia se transformaria em um falso moralista, um hipócrita, uma pessoa com problemas sexuais e em aceitar a coisa mais antiga e gostosa do mundo. Se papai imaginasse que você seria assim, era bem capaz de ele ter gozado em outro lugar.

Em 1902, em Minas, um papai e uma mamãe fizeram tudo bem direitinho. Nasceu um menino que danaria a por em versos as perturbações de seu espírito, suas angústias e inadaptações ao mundo. Tudo escrito de uma forma genial, mas nada que entrasse para a história. Não que não merecesse, mas porque nasceu em um país de gente, em sua maioria, de educação falha, que não valoriza a própria cultura, que não lê, que mesmo antes dos editores eletrônicos já vivia a época do Ctrl+C/Ctrl+V, pensando com a cabeça do outros. E isso não é uma opinião minha. É um fato observado por ele mesmo: “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas.” Foi Drummond quem falou. E também foi ele com sua língua lambilonga, lambilenta que, muito sabiamente, fugiu de expor suas doces sacanagens enquanto vivo. Nei Leandro de Castro, que a maioria deve ter ouvido falar por aquele filminho (O homem que desafiou o diabo) que destruiu seu ótimo livro (As pelejas de Ojuara), é uma dos grandes nomes da literatura erótica brasileira.  Ou, em outras palavras, não é ninguém, mas só por conta deste “brasileira” ao final da referência. Escreve que é um demônio de bom, mas onde estão seus livros eróticos? Quem já ouviu falar deles? Quem já leu algum? Quem já leu uma resenha sobre algum deles? O Amor Natural, livro póstumo de Drummond, foi muito falado. “Porque era Drummond e porque já estava morto”, me disse, há anos, Nei Leandro que ouviu do poeta mineiro que seus versos eróticos só seriam publicados quando ele já não estivesse vivo.

Percebo, nos cinemas, os risos nervosos e os ajeitamentos nas poltronas durante uma cena de sexo. Vejo os olhares que fogem dos quadros de nus nos museus. No país da bunda de fora, dos implantes monstruosos para seios e bundas, onde é comum a própria xavasca querer ficar pelada e sem sua vestimenta natural, é proibido mostrar sexo na pintura, na literatura, na poesia, no cinema. As “vergonhas” precisam ser cobertas.

Em uma sociedade tão permissiva, vigilância por comportamento socialmente aceitável é, quase sempre, manifestação de fingidas virtudes. Já vergonha de hipocrisia, parece que ninguém tem.

Este texto nasceu da publicação do anterior, escrito há quase dez anos. Em pleno carnaval – época de muita sacanagem explícita –, resolvi postá-lo. Não tem absolutamente nada de chocante ou anormal. Pelo menos não para quem já fez bom sexo alguma vez na vida. E se você nunca teve uma paixão daquelas de deixar a pessoa, literalmente, de cama, de não pensar em outra coisa, de não se importar se os vizinhos vão ouvir os gritos, de deixar seus brinquedos em carne viva, só posso lamentar. Lamento profundamente por você não ter seguido as ordens da natureza, de não ter vivido sem constrangimentos o amor natural, aquele mesmo do qual Drummond fala em sua poesia.

E o que importa se era ficção ou não? Fala de algo extremamente comum – e delicioso! – que qualquer um deveria ter vivido. Não deveria ser ficção na vida de ninguém! Mas chegou a provocar revoltas ocultas e aconselhamentos a terceiros, a quem resolveu recomendá-lo ou comentá-lo. Se eu fosse do tipo egocêntrico, teria gostado da importância que me deram. Teria me sentido um Goya sendo obrigado a vestir sua maja. Mas, numa situação dessas, o Goya aqui chamaria sua maja para trepar em praça pública.  Afinal, como diria a música falando de sexo e censores, quem essas bestas pensam que são para decidir?

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Emocionalmente equilibrados e sexualmente felizes, sintam-se à vontade para comentar.

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6 respostas a Das falsas virtudes ou “eu quero sexo”

  1. Pois é…Muitas vezes penso que estou perdendo a fé na humanidade. Mas depois vejo que continuo a compartilhar, continuo a escrever, a investir energia em um propósito meu, mas que envolve a sociedade. E continuo a me expôr.
    Talvez lidar com a imbecilidade humana e a hipocrisia nos deixe meio anestesiados. Mas ainda me choco com cada reação cretina frente à determinados assuntos. Aliás, quase todos são assuntos proibidos. A menos que falemos o que o outro quer escutar.
    Eu não preciso por exemplo comentar no blog de alguém com quem eu falo sempre e que sabe tudo o que penso,mas o faço para compartilhar também com terceiros, para haver uma troca. Ainda acredito que compartilhando somamos, aprendemos e ajudamos.
    Concordo com Nietzsche quando escreveu que a moral é uma invenção dos fracos, que inverteram o sentido de bom e virtuoso para favorecer o ascético, o que nega o corpo em favor da alma, e que portanto nega a vida.
    Eu fui uma das pessoas que compartilhou o último post e que recebi críticas, cantadas absurdas ( por que? por ser mulher e falar de sexo?) Detalhe o texto não era meu,mas claro que já vivi a mesma experiência.
    Quem me criticou apaguei dos meus contatos. Uma das coisas que não aceito é lição de moral e de quem nem tem intimidade comigo para isso.
    Em geral, sou bem quista no meu meio e tudo que eu falo, escrevo, indico as pessoas costumar “curtir”, retwittar, falar sobre. Alguns dos que fazem isso merecem o meu respeito. É bom encontrarmos pessoas que querem dialogar sobre determinados assuntos, aprendo muito com isso. Mas mesmo esses não comentaram nada à respeito do “conto erótico”.Ninguém.
    Então, sexo, suicidio, religião,morte… o que mais? são assuntos proibidos na nossa sociedade democrática, intelectualizada, politizada e que adora compartilhar.
    Sandrovisky, desculpa a extensão do comentário.

  2. fernanda disse:

    qnd eu entrei na universidade, houve uma atividade de recepção dos calouros em q tínhamos de recitar um poema no auditório. entre palmeiras e sabiás, eu quis recitar “O chão é cama para o amor urgente,/ amor que não espera ir para a cama./ sobre tapete ou duro piso, a gente/ compõe de corpo e corpo a úmida trama.// E para repousar do amor, vamos à cama.”, do safadinho do Drummond. e fiquei tão perplexa com a perplexidade daquela gente como eles ficaram envergonhados pela minha ‘falta de vergonha’. e eu q pensei q a universidade fosse um espaço aberto e pensante, tive a minha primeira decepção universitária. mas se eu soubesse de tanta hipocrisia, teria recitado outro, “é tudo boca boca boca boca/ sessenta e nove vezes boquilíngua.”… sim, pois “TUDO É PROIBIDO, ENTÃO, FALAMOS”.

  3. Ana disse:

    Tô gostando de ver esse Sandro desavergonhado…

  4. Ana Laura disse:

    Ah, Sandro, Sandro…

    Sexo é natureza, faz parte da gente. Quem não faz é incompleto e está sofrendo, a não ser que a deficiência de hormônios o console.

  5. vitoria lima disse:

    O mineirinho era muito cauteloso mesmo.
    Já D. H. Lawrence, coitado, na fria/alva e puritana Albion, foi crucificado porque escreveu O Amante de Lady Chatterley no início do século 20. Aliás, lendo seu delicioso texto, lembrei muito dos textos de Lawrence, um dos meus preferidos, que requisitava ardorosamente a volta de Pan.

  6. Jackie disse:

    Adoro escrever alguma curiosidade ou algo que acho interessante sobre sexo, e pasmem ninguém tem coragem de responder ou perguntar alguma coisa !!
    Acho muito engraçado as pessoas ficarem quietas e caladas!!!
    Sexo é vida !!!!

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