Que Appe é esse?

Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “Por que você não escreve a biografia do Appe?”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “É mesmo!”. Estava cansado da superficialidade do jornalismo, fazia o Memória Viva há nove anos, já estava mesmo na hora de publicar um livro… Por que não?

Deve ter sido um demônio que falou pela boca de João: “Vamos mostrar a esse cara que escrever uma biografia não é fácil como ele pensa.” Mas pode ter sido um anjo: “Appe merece ter seu trabalho mostrado às novas gerações. Corra para falar com ele!” Corri, mas não cheguei a tempo. Appe morreria pouco mais de dois meses depois daquele insight.

Se por um anjo ou por um demônio, não sei, mas graças a um texto contando esta história, a montanha veio a Maomé. A família de Appe me encontrou e se colocou à disposição para o que eu precisasse para desenvolver a pesquisa. Em abril de 2007, lá estava eu, pela primeira vez de já não sei quantas, em seu arquivo pessoal, sendo adotado por Neusa (sua viúva) e cevado por Doris (sua enteada).

Depois das duas primeiras rodadas de entrevistas com familiares e colegas de trabalho, vi que não seria difícil escrever sobre sua vida. Ele viveu bastante – 86 anos –, mas teve uma vida pessoal tranquila, caseira. À exceção do período de glória em O Cruzeiro, claro.  Jovem, bem empregado, frequentando altas rodas, manteve uma bonbonnière para deleite próprio e de seus amigos. Entendeu, não? Bonbonnière, aquele lugar cheio de docinhos gostosos para se comer…

Appe deixou uma dica de como queria ver sua vida contada: através de seus desenhos. O Appe que a maioria conhece é o caricaturista e chargista político da revista O Cruzeiro, mas ele é bem mais que isso. Muito mais mesmo! Deixei de contar o número de obras, fotos e documentos que digitalizei quando passou de dois mil. E nem mexi ainda em minha coleção de O Cruzeiro e quase nada também na de João Buhrer, o que certamente irá gerar mais de mil desenhos.

Quando me deparei com o Appe menos conhecido, vi que o trabalho não seria fácil. Usei a lógica que usamos para montar quebra-cabeças: comecei pelas bordas. Deixei a era de O Cruzeiro, o centro, por último. Da época anterior, me deparei com trabalhos em A Manhã e A Vanguarda. Na maioria, recortes sem data. Biógrafos, historiadores e acadêmicos já sabem do que estou falando. Não basta ter o desenho. É preciso entender todo o contexto em que foi criado e publicado. É ainda mais complicado quando se trata de charge política. Quem são aquelas pessoas na charge? Fácil quando se trata de alguma figura muito conhecida. Mas e aquelas que o tempo apagou, que foram eclipsadas por outras maiores? Quem eram? Por qual motivo apareciam naquela piada? E qual era a piada?! O que foi escrito no jornal daquele dia sobre os personagens da charge? Agora, imagine se deparar com, digamos, cem recortes, sem datas, sem ordem, sem contextualização e quase sem pistas de por onde começar a ordená-los e entendê-los. Um exemplo simples. Jornal A Manhã, 1954. Onde há uma coleção dessas? Terei acesso a ela? Pode ser manuseada? Está microfilmada? Quantas edições terei que folhear? Duzentas? Duzentas e cinquenta? E a leitura, para entender a época e o contexto, quanto tempo levará? Estou falando de um recorte bem limitado no tempo e, se comparado a todo o resto, nem tão importante, mas necessário que seja feito.

Esta é fácil! Adhemar de Barros, derrotado na disputa para o governo
de São Paulo, em 1954. No ano seguinte, tentaria a presidência.

No caso de um artista gráfico, há também outro ponto importante em todo esse acompanhamento. É preciso conhecer, entender, mostrar e explicar a evolução e mudança de traço, as influências de cada época, quando e como se chegou a um estilo próprio, qual temática era mais abordada em determinado período… É algo sem fim! Começa-se em um desenho e, de repente, está estudando a vida e a obra de outra pessoa que você nem sabia que existia! E não vai tirar nem dez linhas de tudo isso. Vai “só” compreender melhor o trabalho de quem você está biografando. Não é à toa que digo: biografar é fazer uma graduação sobre a pessoa. E há vidas que precisam de graduação, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, só para você chegar ao final de 15 anos de pesquisa e descobrir que sabe mais que qualquer criatura sobre a Terra, mas que, ainda assim, não sabe muita coisa.

Quem é esse Appe que pretendo mostrar? Quem SÃO esses Appes além do chargista e do caricaturista? Pretendo que as respostas cheguem a todos ainda este ano. Por ora, melhor deixar que ele mesmo mostre.

Appe quadrinista

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Appe ilustrador


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Appe cartunista


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Appe do Blow-Appe


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Appe erótico


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Appe pintor


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Mais: Memória Viva de Appe

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5 respostas a Que Appe é esse?

  1. Sandro,

    Acho que existem pessoas que merecem ter sua biografia publicada e compartilhada. Pessoas que têm história para contar, pessoas que fizeram algo diferente, que foram corajosas que lutaram por um ideal. Pessoas com talento, que enfrentaram adversidades e vencendo ou não tentaram.
    O que sei do Appe é totalmente por sua culpa e causa e achei muito interessante. Acredito que virá aí uma grande biografia, tanto pelo biografado (será que é esse palavrão mesmo?) quanto pelo biográfo que é hiper rigoroso, talentoso, minucioso. Sucesso!

    SANDRO: Não sei se o biógrafo é essa Coca-Cola toda. O que sei dele é que é chato pra cacete! 😉

  2. joão antonio disse:

    Sandro
    Quando há cinco anos te questionei eu não imaginava a enrascada em que o estava colocando…risos. O que me passava pela cabeça é que você o sr. Memória Viva(que tinha muito interesse nas coisas de O Cruzeiro),poderia pegar um depoimento do Appe,que estava no final da vida.Alguém precisava gravar um depoimento dele.Mesmo que fosse só para o site.Ou então para transformar em livro ou uma biografia, sei lá. Acreditava que pudesse sair uma biografia, mas hoje vejo que não dá mesmo. O que dá é um belo livro de arte, reunindo todas as facetas dele, e não apenas o lado chargista , pelo qual ficou mais conhecido.Livro este que há tempos está faltando. De qualquer maneira creio que virá por aí um belo livro, tenho certeza. Aguardemos com ansiedade.
    joão antonio

    SANDRO: Que roubada, hein?! Que nada! Tem sido uma grande experiência. Em breve, baixo por aí de novo. Depois, ponto final e publicação. Com direito a dedicatória esculhambando o culpado de tudo isso. 😉

  3. wilson disse:

    Sandro: Além do APPE desenhista, caricaturista. chargista, pintor. O que mais me encataria ver nessa Biografia é o AppE como ele realmente é: Um homem sensível, apaixonado e ético. O personagem (AppE) que engoliu o homem tem muito a mostrar. Mas o homem que se tornou AppE tem muito mais.
    Abração,
    Wilson

  4. vitória lima disse:

    Êita!
    Com esse post sobre Appe viajei até à infância (que já está loooooooooonnnnnnnnnge)! Voltei à Campina Grande dos anos 50, meu pai assinante de O Cruzeiro e eu já curtindo humor: charge de Appe, Pif-Paf, As Garotas do Alceu, Vão Gogo, O amigo da Onça, dentre outros…
    Esta alimentou minha insônia com memórias arquivadas.
    Boa noite, com sono.

  5. Gustavo Rocha da Silva disse:

    Lembro com saudade das ilustrações que fez para “O Coronel e o Lobisomen”, de José Cândido de Carvalho. Elas excelentes e os pequenos textos que as acompanhavam, ainda melhores!

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