Folhas secas

Olhei para trás e só vi folhas secas. Bem ao fundo, um sonho-bolhinha-de-sabão… ploc! E outro… outro… mais um. Ploc! Ploc! Ploc!

Este foi um ano estranho. Passaram-se dez anos em 2010. Um ano-década muito intenso. Mas não é exatamente sobre isso que desejo falar agora. Pelo menos, não dele como um todo ou de seus efeitos. Quero falar apenas de parte das folhas secas. A parte referente a este blogfúndio e a outros escrevinhamentos.

Vivi muito e escrevi pouco em 2010. Percebi mudanças quanto a isso. Aqui no Sempre Algo a Dizer, já no dia 2 de janeiro, iniciei uma série semanal baseada em agendas e diários de 1989/1990. Era um exercício pessoal de memória e de aproximação com os leitores de minha geração. Aparentemente despretensioso, era, na verdade, uma novela que terminaria agora, em dezembro, no dia 10. Foi nesse dia, há 20 anos, que Fabíola, meu primeiro Amor, morreu.

Vinte anos. Mais tempo se passou depois de sua morte do que ela viveu. Para quem não sabe a história, resumo: Fabíola e eu os conhecemos no curso de Jornalismo, em 1989. Nós nos apaixonamos e namoramos por pouco mais de um ano. No segundo semestre de 1990, descobrimos que ela estava grávida. As famílias não se conheciam tão bem, mas eram amigas nesta vida. As crianças, eu com 18 e ela com 19 anos, ficaram felizes e resolveram casar mesmo, “de verdade”, papel passado, cartório, essas coisas todas. De verdade, de verdade, acabou não sendo porque Fabíola foi internada pouco depois da cerimônia no cartório e só sairia do hospital, duas semanas depois, já sem vida. Nossas noites como marido e mulher foram todos em um quarto de hospital.

A novela “Há 20 anos…” se desenvolveria aqui no blog até chegar a esse ponto, mas a vida – sempre irônica e dinâmica – resolveu me dizer que não era bem essa a forma de fazer um balanço sobre esse período, avaliar as lições aprendidas com isso e como funcionam duas décadas depois. Veio então um 2010 com paixões e amores italianos, devastadores, rascantes, desses que podem pular da tragédia para a comédia sem que se perceba. Foi um ano em que fui obrigado não a pensar no Amor, mas a vivê-lo. Afinal, Amor é para isso. Pensar sobre ele é coisa para quem não o tem.

Percebi que não sei desamar.  E que talvez esteja aprendendo a Amar de verdade, sem esperar nada da outra pessoa, aceitando-a do jeito que é e não tentando fazê-la se encaixar em meus sonhos, em meus modelos ideais.

Percebi também que os Amores que passaram por minha vida nem sempre andaram de mãos dadas com meu eterno amor por escrever. Poucos me inspiraram a isso. Talvez apenas dois, que vieram carregados de paixão. Talvez minha escrita seja movida mais por paixão que por Amor.  Talvez por isso ainda não seja tão calma e constante quanto eu gostaria.

Eu quero a sorte de uma escrita tranquila, sem esperar que caiba em meus sonhos. Parece ser por aí o caminho para se escrever de maneira firme. Também para um Amor verdadeiro. Não devem ser esperados, mas construídos.

Pensei em encerrar o ano, aqui no blog, com textos em homenagem às mulheres que realmente amei.  Talvez ainda o faça, mas não agora. Devem ficar para uma próxima lição que ainda não sei qual é. Talvez dois deles – para aqueles dois amores carregados de paixão – apareçam antes. Talvez, talvez…

Vai terminando 2010. Olho para trás e vejo folhas secas. Penso em varrer tudo, em limpar, deixar o caminho limpo para melhor trilhá-lo, mas sei que essas folhas alimentam o chão que piso, enriquecem o solo de minha história, deixam tudo mais macio e bonito. Quanto vejo/piso em folhas secas, penso na escola da vida e na poesia dos Amores que passaram por ela. E sinto vontade de me jogar naquele tapete, rico em cores e cheiros, para apreciar outros sonhos se formando…

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3 respostas a Folhas secas

  1. Meire disse:

    Não sei o que você quer… Mas tudo que desejo pra você é um amor calmo, que entre devagar na sua vida, sem arroubos, sem escândalos, sem cobranças. Uma mulher alegre, cheia de vida e que aceite você do jeito que você é, com todos os seus defeitos, e que tenha a grandeza daquelas que alcançam e admiram as qualidades de quem ama. Se Fabíola seria ou não essa mulher, nunca vamos saber, mas o que sei é que ela desejaria o mesmo que desejo para você se não tivesse sido privada tão cedo deste milagre que é viver.

  2. wilson disse:

    “Folhas secas que as levem os ventos.”
    Sandro:
    É bom revisitar o passado, reviver passo a passo tudo o que se viveu. Só assim deixa-se o nosso passado em paz. E fica-se em paz.
    “Como as folhas, não se varre o passado, não se mistura sentimentos… Deixa que os levem os ventos”.
    Que os 365 anos do Ano Novo sejam felizes, prósperos.
    Muita Paz.
    Abração, beijos!

    Wilson

  3. Sandrovisky,

    É meio clichê,mas tudo o que vivemos nos fazem ser quem somos hoje.
    Para uma vida tão rica em acontecimentos, emoções, experiências o mais maravilhoso é saber que os ensinamentos foram absorvidos, foram assimilados. Nada foi em vão.
    Reviver as perdas,as lições é importante quando sentimos a necessidade. É um meio de absorvermos algo que não foi aprendido e poder virar a página já escrita do livro da vida.
    Então,desejo a você que o que está por vir seja digno da sabedoria aprendida.

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