Os Clowns

– Ma che cosa è?
– È il circo.

(Primeiro diálogo em I Clowns, de Fellini)

Os Clowns estão de volta. A principal novidade é que não há novidade. São os clowns, os palhaços, i buffoni, de volta às raízes do espetáculo circense. E são Os Clowns de Shakespeare de volta às próprias raízes e em grande forma.

Estão de volta à sua terra, Natal. Eu, também nela, tenho me recusado a sair de casa e poucos argumentos me convencem a fazer o contrário. Porém, os Clowns não são qualquer coisa e César Ferrario, um deles, me convidou a conferir o novo espetáculo – Sua Incelença, Ricardo III – de forma carinhosa, alegando que tenho um dos “poucos olhares que pode enxergar toda a nossa história através dos tempos, em tudo que isso tem de bom e de não bom”. Como se diz “não” a uma intimação dessas?

Foi em 1993 que lancei meu primeiro olhar sobre os Clowns, um bando de aproximadamente 30 jovens alunos secundaristas, quase todos desorientados, em cima de um palco. Eu, um jovem jornalista (hoje curado, apesar da sequelas) que se atreveu a escrever uma crítica ao espetáculo. Primeira e única que o grupo recebeu durante uma década. Não por falta de merecimento, mas de quem o fizesse.  Mesmo tendo me mudado para Brasília, os Clowns eram programa obrigatório durante minhas vindas a Natal, nos finais de ano. Em 2004, tendo restado apenas César, Renata Kaiser e Fernando Yamamoto do gigantesco bando inicial, assisti a Muito Barulho por Quase Nada, um sucesso que durou várias temporadas. Já eram, então, um grupo profissional, bem organizado, estudioso e que estava conquistando reconhecimento nos festivais de teatro do país e, bem mais difícil que isso, na normalmente ingrata cidade onde nasceu e da qual Cascudo diz que não consagra nem desconsagra ninguém.

Até o convite, o capítulo mais recente dessa história em comum havia acontecido em outubro de 2009, em São Paulo, quando assisti a O Capitão e a Sereia. Escrevi a respeito e usei os Clowns para criticar a inexistência de crítica em Natal. Fui suficientemente ácido para apontar a melhor peça deles como algo, digamos, “insuficiente” para quem os conhecia há década e meia. O Capitão… era, sem dúvida e de longe, o melhor espetáculo do grupo. Rendeu excelentes críticas de quem sabe e pode fazer crítica teatral no Brasil. Da província, sem ver, as focas batiam palmas. Se fossem sérias, se disporiam a ir a São Paulo, onde eles estrearam e fizeram temporada de dois meses, para conferir e escrever a respeito. Assim como, hoje, a imprensa de São Paulo vêm a Natal para conferir o trabalho deles. Os Clowns são profissionais de alto nível e merecem tratamento à altura. Um ano depois desse episódio e tendo corrido o risco de que um ou outro me odiasse eternamente, não criticaria mais a falta de crítica na pequena tribo. Tampouco diria que isso faz falta aos Clowns. Eles pertencem ao mundo. Não precisam de focas amestradas batendo palmas, nem de tapinhas nas costas, frases feitas e coisas assim. Não precisam nem de um ex-jornalista idiota como eu se metendo a Barbara Heliodora. Portanto, o que segue não é uma crítica, mas um breve relato sentimental de nosso mais recente encontro. E se eu usar as palavras “trupe” e “mambembe”, por favor, pare de ler. Ninguém merece isso.

Sexta, 26 de novembro de 2010. Chego ao “terrenão”, uma grande área aberta em frente ao Barracão dos Clowns onde estava sendo apresentada Sua Incelença, Ricardo III. Incelências são os cantos coletivos feitos em velórios. Também uma forma popular, anasalada, de se referir a alguma autoridade no interior do Nordeste. Todo dotô é uma incelença. Os Clowns são basicamente isso: Shakespeare com sotaque nordestino.

Fui como mero espectador. Sozinho, quase anônimo, praticamente escondido. Aboletado no alto de uma das arquibancadas, via as árvores, as gambiarras de lâmpadas movimentadas pelo vento, ouvia a música e tudo me lembrava Fellini. Aqui, aos que me conhecem, já entrego minhas expectativas, pois nunca uso o nome de deus em vão. Se algo me faz lembrar Fellini, só pode ser algo muito bom. Aquele ambiente aberto, de circo popular, da arte teatral em sua forma mais pura e simples foi me conquistando antes mesmo de os atores entrarem em cena.

Entraram. Nunca vi os Clowns tão clowns. Seria extenso e mesmo chato falar de cada detalhe perfeito da peça. Diria apenas que todo expectador poderia vê-la pelo menos meia dúzia de vezes. Uma para ver o todo, uma segunda para olhar somente os detalhes do figurino, outra para prestar atenção às vozes dos personagens, uma quarta apenas para admirar o trabalho corporal, mais uma só para se deliciar com as expressões… Pensando bem, seis vezes ainda é pouco. Fui duas vezes. Uma, só para fotografar.

Ricardo III traz oito atores. Quatro deles, conheço de longa data; Renata Kaiser, Marco França, César Ferrario e Titina Medeiros. Da outra metade, conhecia apenas Camille Carvalho de O Capitão e a Sereia. Dudu Galvão, Joel Monteiro e Paula Queiroz eram novos para mim.

Sabe quando você vê um jovem ator/uma jovem atriz pela primeira vez e se pergunta: Onde ele estava que eu nunca tinha visto?! É um de seus primeiros trabalhos e ele é já bom assim mesmo? Isso tudo é talento? Já havia sentido isso por Camille em O Capitão…, sua estreia nos Clowns.  Joel é ótimo. Paula e Dudu são surpreendentes. Incomodam de tão bons que são.

Paula e Dudu fazem vários personagens. Mesmo com figurinos e até uso de máscaras diferentes, isso pode confundir o espectador menos atento. Mas o trabalho de voz dos dois é tão perfeito que basta ouvi-los para saber que o personagem que acaba de entrar não é o mesmo que saiu há pouco. Eles sabem dar o tom certo, uma personalidade a cada um, pontuar cada sentimento. O deboche, a ironia, o sarcasmo e o desdém – muitas vezes entendidos como uma coisa só – são utilizados, cada um, no tom adequado. Dudu, quando faz o narrador, ainda está livre para exercitar a improvisação e inserir cacos tão perfeitos que parecem ter sido ensaiados.  Muita disciplina e raciocínio rápido ajudam muito um ator a brilhar. Além das vozes, Paula e Dudu ainda subvertem o poder da máscara, da maquiagem. Quando um palhaço entra em cena, de imediato você sabe mais ou menos o que esperar dele pela sua maquiagem. Ele pode parecer triste, louco, pateta, bobo, cínico… A maquiagem tem a função óbvia de reforçar a caracterização, de ajudar a compor a personalidade a ser apresentada. Quando um ator, debaixo de uma única maquiagem de clown, se transforma em vários personagens e ainda imprime a cada um deles variados sentimentos é algo que realmente impressiona. Não é qualquer um que tem essa capacidade de expressão facial e, mais ainda, técnica e conhecimento para aplicar e fazer valer esse poder. Dudu ainda é responsável por um dos momentos mais risíveis da peça, quando a plateia se rende a sua interpretação e sua voz ao cantar.

Confessei a César que acho necessário tomar alguma distância temporal em relação a ele, Marco e Renata. Cada vez que pisam em cena, já vejo todos os personagens que os vi interpretar. É um problema meu, não deles. De imediato, não dou chances que me apresentem às novas personas. Minha exigência para com eles é sempre bem maior. Penso: “Surpreendam-me. Mostrem-me se merecem mesmo meus aplausos.” Eles mostraram. Quem melhor fez isso foi Renata, que passa a maior parte do tempo como a amarga rainha Margaret. Diferente dos outros, que se revezam em momentos de drama e comédia, ela é sempre grave, trágica. Gostei de vê-la assim.

A respeito de Marco, aproveito para fazer uma confissão. Na primeira vez em que o vi em cena junto aos Clowns, pensei: “O que aquele antipático que toca teclado está fazendo ali?” Assim mesmo, de forma convicta e preconceituosa, já disposto a odiar qualquer coisa que ele fizesse. Isso foi em 2004, como Muito Barulho por Quase Nada e… adorei seu trabalho como ator. Talvez por ele ter papéis de grande destaque em todas as peças, talvez por me restar ainda alguma estúpida antipatia totalmente sem sentido, talvez por achar que ele exerça muita influência e até coloque música demais em algumas peças, talvez por tudo isso junto, é em relação a ele que tenho mais dificuldade em ter o necessário distanciamento para ver somente o personagem que está em cena. Assim que ele aparece, fico esperando que surjam também Benedito e o galado do Corniso, de Muito Barulho…; o garçom de Roda Chico; o falastrão de O Capitão e a Sereia. Porém, em Ricardo III, quem aparece é só Ricardo III mesmo. Se Marco conseguiu me fazer rir de quem eu não queria e agora, me fez enxergar somente Ricardo, certamente está fazendo um trabalho bem feito. Assumo a culpa por qualquer disposição em contrário.

Finalmente, César, o grande culpado por me fazer sair do claustro e escrever este texto imenso.  Ele faz três papéis importantes: Clarence, a Duquesa e Tyrrel Jararaca. Este último é o que mais rápido cativa a plateia, até por ser um cangaceiro e, portanto, o mais próximo de nossa realidade, de nossa cultura. Mas é com a Duquesa que ele vive o momento de apoteose da peça. Ninguém consegue ficar sem rir e aplaudir. Contar estragaria a surpresa. Só posso dizer que quem viu vai passar muito tempo com Bohemian Rhapsody na cabeça.

Falei de todos? Não. Faltou Titina, de quem sempre me recuso a falar por me sentir afetado por todo carinho que tenho por ela. Quando a conheci, era ainda uma menina e, creio, ela nem imaginava que viria a ser atriz. Penso que por ser uma figura mais popular, que aparece na tevê, o público, em geral, já se sente à vontade para gostar mais dela. Gostaria de vê-la atuando fora de Natal. Nesta peça, sua rainha Elizabeth tem falas que fazem o público gargalhar a toda hora. Do interior do Rio Grande do Norte, Titina conhece bem o jeito e as expressões populares que são imediatamente reconhecidas e agradam. É a pessoa perfeita para virar para o rei e dizer: “Ricardo, não confunda cu com bunda.” Isso em um tempo certo de piada e fazendo todo mundo acreditar que a rainha não passa de uma alpinista social daquelas bem ralé.

Ricardo III é uma tragédia, uma comédia, um musical, um espetáculo de clowns. Dizer que é completo, seria como utilizar aquelas palavras que disse, lá no início, que não usaria. Se achei O Capitão e a Sereia a melhor peça do grupo, Sua Incelença, Ricardo III é o melhor clowns e o melhor Shakespeare dos Clowns de Shakespeare. Em 2011, vai rodar pelo país. Fique de olho para quando passar aí por perto.

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Textos relacionados
Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica
Velhos palhaços na estrada

Fotos:
Sua Incelença, Ricardo III (por Sandro Fortunato)
O Capitão e a Sereia (por Sandro Fortunato)
O Casamento (por José Luiz Coe)
Roda Chico (por José Luiz Coe)
Muito Barulho por Quase Nada (por José Luiz Coe)

Mais Clowns:
Site oficial dos Clowns de Shakespeare
O Diário do Capitão

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2 respostas a Os Clowns

  1. Sandro,

    Difícil ficar sem comentar algo que desperta a minha paixão, o teatro.
    Amo teatro em todas as suas formas.Acredito na função do teatro de provocar a plateia, leva-los à reflexão, risos,provocar mudanças, lágrimas,enfim, à emoção.
    Em tempos em que a arte é tão formatada, tão fabricada e comercial, termos a oportunidade de assistir espetáculos como esse é uma forma de alimentar a alma e de perceber que a verdadeira arte não exclui, ela aproxima. Não é para a elite,ela é na sua essência, popular.
    Ser clown deve exigir uma formação incrível, deve exigir muito do ator. Estive mais próxima aos clows que atuam com crianças hospitalizadas e vejo o efeito quase mágico que eles provocam por onde passam.
    Me dão a ideia que são despidos de vaidade, essa vaidade de algumas estrelas “globais” que viajam com suas grandes ( ou nem tanto) produções pelo país.
    Me passam a sensação de que amam a arte acima de qualquer coisa. É um compromisso pessoal acima de tudo.Todos fazem de tudo. Representam, participam da montagem, do roteiro,cenografia,maquiagem…
    A cada dia o espetáculo é único. Nunca assisti uma peça de grupos teatrais, em especial de clowns, que fossem iguais. Cada dia parece ser diferente, a emoção é diferente,a energia é diferente.
    Como você bem disse e acho que é privilégio dos bons atores,eles sabem dar o tom certo, moldam-se na personagem de tal forma que não enxergamos nenhuma familiaridade com outra personagem ou com o ator.
    Na minha visão de telespectadora,leiga,mas apaixonada, vejo cada clown é ser único, como se para fazer parte da trupe o ator tivesse que descobrir sua essência clown e como trabalhar com ela, é como mágica, uma alquimia da arte.
    Bom, acabei escrevendo demais motivada pelo texto e pelas fotos.As fotos merecem um comentário à parte,mas que resumo aqui como: não é qualquer um que capta pelas lentes expressões e emoções, capisci?
    Espero um dia assistir os Os Clowns de Shakespeare, quem venham novamente e brevemente para Sampa!

  2. Titina disse:

    Sandro que texto lindo!! Estamos muito felizes com o texto, obrigada, tudo de maravilhoso pra vc.
    Beijo
    Ti

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