Escrever bem para comer alguém (e elogiar para comer também)

É típico dos tímidos: fazer poesia ou usar um instrumento musical para demonstrar seus sentimentos. É típico dos jornalistas: não ter qualquer dom artístico e resolver escrever para demonstrar sua capacidade intelectual “superior”. É típico dos jornalistas tímidos: renegar a reportagem e aventurar-se pela crônica ou pelo “jornalismo literário”. Jamais tímido e há muito ex-jornalista, sinto-me à vontade para denunciar a fraude.  Muitas vezes, a pretensão de escrever bem é motivada somente pelo desejo de comer alguém.

Não estou em um momento Soninha Francine. Não vi os podres da curriola só depois de me afastar dela.  Sempre vi, nunca fiz, mas até hoje me choco com a prática. Apenas resolvi escrever a respeito. Talvez até escrever bem (vai que funciona!).

Entendo e mesmo acredito que o processo não comece com essa intenção. Mas quando o primeiro peixe aparece, o pretenso escritor entende que precisa cuidar de sua rede. Linha forte, trançado cuidadoso, melhor jeito de jogá-la ao mar e paciência para esperar e puxar no momento certo. Nessa puxada, geralmente vem o convite para “um café”. Talvez ele leve um Moleskine junto e uma canetinha mais descolada (Bic, jamais!). Vai fazer doce, olhar tímido fugindo para a mesa, depois outro buscando mais um elogio. “Mas como você escreve bem!” Pronto! Pegou. É para agora ou quer que embrulhe?

Escritor escreve porque não sabe fazer outra coisa. Bem ou mal. Dádiva ou maldição. Tem necessidade de expor as vísceras, de exorcizar demônios.  Quem se vende pelo que escreve deve ser visto e tratado da forma adequada, como mercadoria. Quem escreve para colher elogios e pescar gente desavisada deve ser visto como um produto em uma vitrine: bonitinho, bem arrumado, boas características exaltadas, más escondidas. Compre, se quiser. Não reclame depois. Pode ser, inclusive, produto perecível e com data de validade perto de vencer. Não é livro raro para ficar em lugar de destaque na sua estante. É jornal. Você pode até querer guardar, mas vai acabar achando que faz muito volume, junta traça e que o melhor a fazer com ele é forrar aquela parte da área de serviço que seu cachorro costuma usar quando você não o leva para passear.

O que era válvula de escape para a timidez se transforma em subliteratura fast food, artifício para conseguir um lanche rápido e barato.  McDonald’s tem em toda esquina; Fasano é outro nível. Onde você prefere comer? E se você responder “McDonald’s”, pergunto: até quando? Verdade seja dita: cada um tem o tipo de cliente que merece.

Eu, que já começo a falar em décadas (ainda que só duas) de experiência numa e noutra área, me aventuro a falar sobre os caminhos cruzados de ambas. Tive muita sorte, mas garanto: dificilmente a inteligente e a gostosa habitam o mesmo corpo. Inteligente, gostosa e que ainda trepe bem…  Olha, já tirei mais de uma vez nessa loteria, mas é coisa rara! Muito rara! Você, homem, escrevedor ou não, sabe disso. Você, mulher, vítima mais comum daquele tipo “que escreve tão bem”, deixe-me tentar explicar assim: com quantos “Gianecchini machos” você já esbarrou por aí? E você ainda quer um Gianecchini, macho, bom de cama e que escreva como Dostoiévski?!  Onde você pensa que vai achar isso? No jornal da sua cidade? Nos classificados? Em um blog que sua amiga retuitou porque gostou do título sacana que o despudorado deu ao texto? Ah, vá!

Escrever como ponte para a cama é típico de quem não se garante nem em uma área nem em outra. De minha parte, caras leitoras, alimentem seus cérebros com as linhas bem ou mal escritas por mim. Se a fome é outra, leiam meus olhos e minha boca que, dizem, impedida de falar, costuma ser muito agradável. Sexo verbal não faz meu estilo. Aliás, nessa matéria, dispenso até o escrito. Prefiro oral mesmo.

E se há quem pretenda escrever bem para comer alguém, há quem elogie para comer também. O vaidoso só existe por haver quem alimente sua vaidade. No fim das contas, um se fantasia de deus, encontra quem se ajoelhe e todos são infelizes para sempre. Amém.

Em geral, a pessoa busca aprovação através da opinião dos outros ou, pelo menos, reforçar a opinião que tem de si. Logo vai passar a confiar mais na opinião alheia e, cada vez mais, induzir o outro a avaliá-lo sempre da mesma forma ou ainda melhor, como algo superior.  É pura ficção. Escreve-se há séculos, trepa-se desde que o mundo é mundo e ainda não aprendemos a separar uma coisa da outra! Não sabemos separar fantasia de realidade.

Se você quer saber se alguém é bom de cama, não adianta ler e acreditar na bula que a pessoa apresentou. Você vai ter que tomar o remédio. Por sua conta e risco. Deixe a fé de lado e parta para tomar ciência da coisa. Os animais são felizes, amam-se livre e despudoradamente e são todos analfabetos. Literatura (boa ou má) é uma coisa; mundo real é outra.

A propósito, acabou o texto. Vá praticar um pouco. Desligue o cérebro e divirta-se.

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6 respostas a Escrever bem para comer alguém (e elogiar para comer também)

  1. Márcia disse:

    se eu não tivesse umas restrições ao kkkkk, sapecava um aqui.
    amei, Lobão.
    “escritor escreve porque não sabe fazer outra coisa. Bem ou mal. Dádiva ou maldição. Tem necessidade de expor as vísceras, de exorcizar demônios”.
    acho que é por aí, sim.

    xerunuôi,

    m.

    Algo me dizia que você seria a primeira a comentar. E paremos por aqui! 🙂 Beijo.

  2. Conheço TANTA gente assim…
    Infelizmente a vaidade é o que move o mundo. É uma das coisas mais fáceis de encontrarmos por aí.
    É fácil detectar um escritor vaidoso, um médico vaidoso ou qualquer vaidoso.
    Na verdade eles não fazem ou procuram fazer algo bem para “pegar” alguém, agem assim por não darem conta sozinhos. Narciso é o exemplo…
    Quem quiser ter uma carreira de sucesso,mas medíocre segue esse caminho.
    A vaidade e a inspiração não são amigas.
    Viver esperando aprovação alheia, aceitação do outro e ter sua vaidade alimentada é caminho par ao afogamento.

  3. wilson disse:

    Já se dizia nas primeiras décadas do século XX: “Todo o poeta é um fingidor”. E um grande comedor… De que, não explicaram à época. Parece-me que você explicou agora!
    Hahahahahahahahahaaaaaaa!!!

    Lendo o teu texto com muita atenção acabei concordando que certos Egos literários escrevem bem – ou mal – para bem comer, enquanto a “comida”, em orgasmos múltiplos se desfaz em loas, cultuando a “cabeça” e a “pena” do escritor, ou escrevinhador… Sabe-se lá!

    E falando em comida, concluí que realidade ou a ficção é como comida. E a “comida” que o diga.

    Realidade é como uma Feijoada Completa: Ataca-se heroicamente de frente, sem titubear.

    Já a ficção é como uma sopa de letrinhas: ataca-se pela frente, por trás – ao gosto e à vontade do freguês.

    E tanto o escritor comum, como o ególatra – e também a “comida” presentes e futuras – preferem a felicidade da ficção. Nela há possibilidades múltiplas de interpretação e certo relaxamento ao assumir variadas posições.

    Já a realidade feijoada completa, não nos dá alternativa: Simplesmente ataca-se de frente e não se pensa em atacar por trás. Pois se sabe que ataques pela retaguarda só poderá dar merda. E merda completa…. Realidade completa!

    Hahahahahahahaaaaaa!

    Abrabeijos ao amado amigo e amado escritor. Deste amigo que não pretende favorecê-lo com uma sopinha de letras e nem com uma feijoada completa… Hahahahaaaaaaaa!!!

    Wilson

  4. Sensacional, meu caro.

    Mas eu ampliaria a praga também para os que são músicos, pintam, atuam, ou fazem qualquer bagaça pretensamente artística. Expor os “sentimentos” e habilidades artísticas serve para compensar a falta de seios inflados ou um rosto do George Clooney.

    “We´re only on it for the money”.. ou por uma bimbadinha.

    Serve para todas as áreas. A abordagem específica é pelo fato de este ser o meu mundo. E também porque, neste caso, trata-se de algo extremamente fantasioso.

  5. Bem, “Escrever bem pra comer alguém” é um mal do qual eu sofro, ou quase sofro. Acho que troquei a caneta pelo teclado.

    Quanto à necessidade de buscar aprovação na opinião dos outros, às vezes isso pode ser fruto de uma baixa auto-estima. A pessoa não consegue dar valor ao próprio trabalho, então precisa de alguém que o faça. Assim, a intenção não é de aumentar o próprio ego. O pensamento é “se ninguém disser que isso está bom, então está uma merda”.

    Enfim, escrever é ficção, um atalho. Mas, entre os tantos atalhos e ficções que tem por aí, acho que escrever não é tão ruim.

  6. Carol Kyze disse:

    A nova moda hoje é ter um blog. E a mega ultra nova moda é ter um blog pra escrever sobre temas polêmicos,ora ora,escrever um texto mesmo que você não entenda putufas do que tá falando vai te dar um aspecto “fodão”. Depois de me divertir bastante resta minha total inapetência por essa categoria de ser humano. Não tenho um pingo de paciência pra futilidade,fato. E concordo que o tipo de comida depende exclusivamente da fome =)

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