Necrópole São Paulo

Confesso: sempre que me proponho a falar sobre cemitérios, penso em algo bem definido, mas começo a viajar nas fotos, percebo novos detalhes, descubro novas histórias e, de repente, há quase um livro em minha cabeça. Quando pensei em escrever sobre a Necrópole São Paulo, imaginei partir das obras de Alfredo Oliani, autor de O último adeus, sobre o qual falei no texto anterior (Sexo, amor e morte). Quando comecei a escolher as fotos dentre as mais de 500 que fiz em dois corridos dias de visita àquele cemitério, lembrei de tantas esculturas lindas e tantas histórias que passei um dia inteiro recordando tudo que vi por lá.

O Cemitério São Paulo (ou Necrópole São Paulo, como ostenta em sua fachada) me pegou de surpresa. Eu vinha de dois dias inteiros fotografando o da Consolação. Havia andado quilômetros e quilômetros sob sol forte, estava cansado, desidratado, com braços e mãos tremendos depois de quase 3 mil cliques e com um belo bronzeado de cemitério (só rosto e braços queimados). Imaginei que não veria tantas nem tão interessantes obras quanto nos cemitérios da Consolação e do Araçá,  mas estava completamente enganado.

O São Paulo começou a funcionar em 1926 por conta da superlotação dos cemitérios da Consolação (inaugurado em 1858) e do Araçá (1887). A essa altura, outros cemitérios públicos já haviam sido criados e as divisões de classes sociais também estavam estabelecidas na morte. Os ricos precisavam de mais espaço e assim surgiu o São Paulo. Valendo-se de quase 70 anos de experiência, a nova necrópole nasceu e cresceu mais organizada. As ruas por onde transitam os carros são mais largas, os espaços entre as quadras são desenhados em arcos, há muita luminosidade, é tudo muito aberto e a área está em um declive – quando você sobe em direção à colina central, vai vendo a cidade do lado de fora. É muito agradável.

Chegando lá, pela primeira vez, a apenas uma hora antes do encerramento do expediente e sem conhecer nada, tive que confiar plenamente nos conhecimentos de um dos funcionários, que me fez o favor de mostrar, tão rápido quanto possível, o que havia de melhor e mais representativo. Foi no túmulo de uma família italiana (Parello) que vi um conjunto escultórico diferente de tudo que conhecia. A obra mostra duas jovens, separadas por um muro ou uma parede, que parecem brincar de esconde-esconde. Elas estão se divertindo (o detalhe do sorriso na foto que abre este texto é daquela que parece estar se escondendo) e é impossível não notar, de imediato, que a cena mostra a morte de uma maneira muito diferente e mais leve do que se costuma vê-la. Em algum instante, o jogo de esconde vai terminar e as pessoas voltarão a se encontrar, a ficar juntas. No muro que as separa há ainda uma placa com um poema, em italiano, que reforça a ideia da transformação, da passagem do tempo e do pedido de paciência e percepção que se deve ter a respeito da morte. É a conversa de uma filha com a mãe, dizendo que retornará, levantando-se da terra como uma flor e, quando isso acontecer, elas se reconhecerão. A composição é um acróstico que forma a seguinte mensagem: Mariana Parello delicato fiore (delicada flor).

Outro conjunto que chama atenção, logo na entrada, próximo a O último adeus, é também um obra de Alfredo Oliani, de 1949. Ele mostra quatro personagens: dois homens carregando um terceiro, morto, enquanto uma mulher demonstra seu pesar. Se pudessem ficar em pé, cada criatura teria mais de dois metros de altura. É feito em bronze e, como em outros trabalhos de Oliani, os detalhes impressionam.

Logo de início, achei que o São Paulo concentrava um grande número de túmulos de famílias italianas, assim como trabalhos de escultores italianos ou descendentes. Além de Alfredo Oliani, há obras de Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Nicola Rollo e Antelo Del Debbio, para citar somente os mais conhecidos.

Os Anjos, de Brecheret, no túmulo da Família Scuracchio, está entre as obras mais representativas dos escultores ítalo-brasileiros no Cemitério São Paulo.  Também é interessante saber que Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras, da Graça (Galeria Prestes Maia), do Fauno (Parque Trianon) e de várias obras para túmulos de cemitérios paulistanos foi sepultado lá. Seu túmulo é extremamente simples. Só percebido e lembrado graças a uma pequena placa com sua efígie e datas de nascimento e morte. Muito diferente dos grandes monumentos mortuários que fez para a aristocracia paulistana.

Exemplos de ostentação e orgulho eterno não faltam. Alguns, mesmo católicos, pareciam não ligar para a soberba como um dos pecados capitais. O mausoléu do Comendador Joaquim Gil Pinheiro é desses que se veem de longe. Tem pelo menos 8 metros de altura, é cheio de placas e títulos, tem a entrada ladeada por duas esculturas de santos em tamanho natural, um busto do comendador do lado de fora, outro do lado de dentro, além de uma representação mortuária de corpo inteiro (comum entre nobres e clérigos na Europa, mas raro por aqui). Do lado de fora, o Comendador avisa: “Aqui jazem os meus ossos neste campo de egualdade pois que esperam pelos vosso quando Deus tiver vontade. – J. Gil Pinheiro”. No interior, acima do corpo de mármore, outra placa na qual se lê: “Aqui jazem os restos mortaes do Commendador Joaquim Gil Pinheiro nascido em Portugal no anno de 1855, que muito amou o Brasil, com especialidade São Paulo, onde viveu 48 annos até o dia de seu fallecimento a 28 de novembro de 1926. Orae por elle.

Muitas personalidades conhecidas foram sepultadas no São Paulo e também possuem belas obras em seus túmulos como o empresário José Ermírio de Moraes e o desenhista Belmonte. Estas e outras, você confere no Flickr Arte Tumular.

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8 respostas a Necrópole São Paulo

  1. Encantada em conhecer um pouco mais dessa arte tumular.
    As fotos estão ótimas.
    Tenho a curiosidade em saber sobre as diferenças, as divisões de classes sociais nesse tipo de representação da morte. Imagino que só as pessoas bem abastadas tinham recursos para encomendar as esculturas.
    Como sempre, sou fã da série “Arte Tumular” e dos seus escritos.

  2. wilson Natal disse:

    Cristiane,
    No início os cemitérios públicos de São Paulo tinham uma pequena fração do terreno onde se comprava os jazigos perpétuos. No mais, era “Geral” – ou seja, os enterramentos eram pelo tempo da decomposição dos corpos que, depois eram retirados e levados ao ossário ou ossuário. A classe média podia comprar um ou mais ossuários. Os mais pobres, decorrido o tempo do enterramento,tinham o seu ente querido levado ao ossuário geral. A partir do início do século XX, começa a venda dos terrenos em várias metragens, favorecendo a compra dos jazigos à toda população.
    No tempo do Cemitério Publico (Consolação), os mais abastados compravam os jazigos. No mais, era a quadra geral que era dividida em Quadra dos adultos, Quadra dos anjos pequenos (dos natimortos até os 10 anos) e Quadra dos anjos grandes (maiores de 10 anos e adolescentes).
    Depois que começou a venda dos terrenos, usava-se a técnica do ajardinamento. Mais adiante aparecem as lápides de mármore e pequenas esculturas (anjos, santos, cruzes) em mármore.
    Hoje, o único cemitério geral de São Paulo é o da Vila Formosa. E, desde os anos 60, os cemitérios são grandes gramados onde e coloca uma pequena placa indicativa de um túmulo ou jazigo.
    Abração

  3. wilson Natal disse:

    Sandro,
    Nas alegorias monumentais registrando a vida no seu encontro com a morte e que, geralmente, tem a dor como tema principal está todo o atavismo da Europa. O LUTO grego e o luto judáico mesclado ao luto cristão. São os dias de NOJO que se perpetuam nesses monumentos.
    Mesmo os jazigos mais simples, com composições mais amenas, representam a dor e a saudade e, como pano de fundo, as lamentações de uma perda irreparável.
    Abraços,

  4. Wilson, MUITO obrigada pela sua explicação. Já acompanhava seus comentários há anos e claro, tinha vontade de te amolar…
    É bom que seja avisado que das próximas vezes em que acompanhar o Sandro por essas incursões pela arte tumular estarei junto, incomodando bastante com as minhas perguntas…brincadeirinha,mas na próxima estarei junto, que privilégio o meu!
    Abração

  5. wilson disse:

    Cristiane,
    Pode amolar quanto quiser, pois não será amolação nenhuma! E será um prazer estarmos todos juntos no cemitério -VIVOS, CLARO! – (risos).
    Abração,
    Wilson

  6. wilson disse:

    CURIOSIDADE: Hoje falamos dos grandes mestres escultores.De mitos da escultura. No entanto eles eram renomados artistas que, como qualquer mortal, sobreviviam como mestres ou operários das muitas “Fábricas” de túmulos e arte funerária que existiam. Muitas dessas “fábricas” aglomeravam-se na Rua da Consolação, ou imediações de outros cemitérios. Eles funcionavam como arquitetos de túmulos, fossem monumental ou apenas padronizado. Muitos túmulos, feito pelos aprendizes, trazem a marca do Mestre que o orientou. Daí, às vezes, a dificuldade de se autenticar uma obra funerária.
    E eram muitos os mestres de arte e ofícios que trabalhavam em arte funerária. Vitraleiros, serralheiros, etc. Além dos escultores.
    Abração,
    Wilson

  7. NATASHA PARELLO disse:

    Gostei muito do artigo.. cita o túmulo de minha família, que pude ver apenas uma vez quando era criança. Me lembrava que havia um poema.. é lindo e realmente acredito nisto; a vida continua. Me emocionei ao ver a foto, ler o comentário…obrigada.

  8. Ronaldo Silva disse:

    Sandro, sinto muito conhecer seu blog só agora, e por isso fazer um comentário com tanto atraso. Também sou formado em História, apesar de não exercer a profissão, e o assunto arte tumular também me fascina. Na mesma Necrópole São Paulo, há um trabalho muito conhecido do escultor italiano Galileo Emendabili, o túmulo da família Forte, mais conhecido como Túmulo do Pão. Você chegou a fotografar esta obra? Um abraço.

    Imagina, Ronaldo! O bom da internet é isso: fica tudo acessível sempre. Seja bem-vindo. Fotografei “O Pão”, sim. Tem duas fotos desse túmulo em meu Flickr sobre Arte Tumular: http://www.flickr.com/photos/artetumular

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