Sexo, amor e morte

Quem me conhece ou acompanha o blog há mais tempo não se assombra com meus textos e fotos sobre cemitérios. Sempre gosto de lembrar: cemitérios são museus. Em relação ao Brasil, falo dos modelos surgidos em meados do século XIX e que foram registrando a História, com mais intensidade, até os anos 1960.

Conheço muita gente que estranha minha familiaridade com as necrópoles e diz que só vai pisar em um cemitério quando estiver morta. Devo avisar: morto, ninguém pisa em lugar algum. Tampouco poderá apreciar toda a riqueza artística e histórica que há em alguns como os da Consolação, Araçá e São Paulo (os três na capital paulistana e sobre os quais falarei nos próximos textos) ou São João Batista e do Caju, no Rio. Portanto, um conselho: aproveite para ir a cemitérios enquanto está vivo.

Resolvi começar esta nova série mostrando um bom motivo para ninguém ter medo dessas visitas, falando de coisas que todos querem em vida: amor e sexo. Sim, eles estão lá, representados de várias formas. Sexo?! Sim. Ou, caso prefira, o amor sensual, o erotismo. Os três mais belos exemplos que conheço estão em São Paulo. Dois deles, desde os anos 1920.

Solitudo, o primeiro nu feminino do Cemitério da Consolação, é de 1922 e foi esculpida por Francisco Leopoldo e Silva. Trata-se da figura de uma mulher em aparente êxtase sensual. Esculpida em granito, tem detalhes que só podem ser devidamente apreciados in loco. O que na foto parecem ranhuras são detalhes de um véu translúcido.  Segundo informações de José de Souza Martins, que constam no folder História e Arte no Cemitério da Consolação,

“(…) foi esculpido para a sepultura do advogado Teodureto de Carvalho e sua esposa, família antiga de São Paulo e Minas. O pai de Teodureto, Teodoro, foi chefe de polícia, secretário da Agricultura e senador estadual. Francisco Leopoldo e Silva era de Taubaté, como seu irmão mais velho, Duarte, futuro arcebispo de São Paulo. (…) Foi professor primário e estudou arte, tendo recebido bolsa para estudar escultura em Paris, retornou ao Brasil durante a Primeira Guerra, e com família já constituída, foi para Roma, após o conflito, para se aperfeiçoar. Já estudara aqui com Amadeu Zani, autor de várias obras expostas em lugares públicos de São Paulo e também no Cemitério da Consolação. Sofreu influência de Rodin. Teve estúdio no Palácio Episcopal, no início dos anos vinte, quando era arcebispo seu irmão, dom Duarte, na rua São Luís, onde é hoje a Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Aparentemente, ali esculpiu Solitudo (…)”.

A Interrogação está no túmulo de Moacyr Piza, jovem advogado e escritor que viveu um intenso e trágico romance com Nenê Romano, uma linda cortesã de luxo. A escultura, em granito, também é de Francisco Leopoldo e Silva. Segundo contam, foi colocada no túmulo de Piza aproximadamente um ano após sua morte, ocorrida em 1923. O advogado de 32 anos matou-se com um tiro, dentro de um táxi, após matar a amante.

“Nenê Romano era o nome pelo qual se conhecia Lina Machiaverni, imigrante italiana cuja família chegara ao Brasil quando tinha dois anos de idade. Fora costureira no Brás. Moça lindíssima, acabou se tornando conhecida cortesã, companhia de homens famosos e poderosos. Era odiada pelas mulheres da elite. Num corso de carnaval, na avenida Paulista, jovem mancebo de família rica jogou-lhe um bilhete, o que foi percebido pela namorada, de uma das mais ricas famílias de fazendeiros de café. A moça ajustou dois jagunços da fazenda da família, em Ribeirão Preto, para que dessem um corretivo à cortesã. Nenê Romano levou uma navalhada no rosto num atentado de 1918, que a desfiguraria. Apresentou queixa e iniciou processo contra a mandante do crime. Mas o processo foi ficando pelas gavetas, pois era ação de prostituta contra gente poderosa.

“Nenê, então, contratou Moacir Piza, advogado já famoso, para que desemperrasse o processo. Moacir Piza se apaixonou por ela. Estiveram juntos por dois anos na boemia, namorando em hotéis e táxis. Mas Nenê começou a sair novamente com outros homens, desinteressou-se por ele, que se tornara homem relapso em relação ao trabalho como jornalista e advogado. O namoro acabou. Moacir Piza foi procurá-la na noite de 25 de outubro de 1923, na tentativa de reatar o relacionamento. Ela estava de saída. Ele insistiu para que ela entrasse no táxi, para conversar. Na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe matou-a com quatro tiros e matou-se em seguida, caindo sobre ela. A vingança da namorada do almofadinha que cortejara Nenê Romano já era indicação de que, entre as mulheres, culpada era a mulher, em casos assim. A escultura de Francisco Leopoldo e Silva, em forma de interrogação, também expressa a mentalidade da época em relação a mulheres como Nenê Romano: por quê? Que sentido tinha o suicídio de um moço de família antiga, parente de políticos, advogado estabelecido, boêmio conhecido, de vida alegre e de bem com a vida, que se apaixonara por uma pobre proletária do Brás, garota de programa de ricos e poderosos?”

A história virou filme. Desatino, curta de Dimas Oliveira Junior, lançado em 2008.

O último adeus, de Alfredo Oliani, está no túmulo da Família Cantarella, no Cemitério São Paulo.  A foto logo acima, a que abre este texto e também a que ilustra o texto anterior (Da urgência dos que conhecem a morte) mostram a obra. Diferente das visitas aos cemitérios da Consolação e do Araçá, nas quais tive, respectivamente, as companhias de Popó e Fininho (falarei de ambos nos próximos textos), no São Paulo, não pude contar com alguém que me tirasse determinadas dúvidas. E, você sabe, quanta maior a curiosidade, mais perguntas aparecem.

Ao nos depararmos com o enorme casal de bronze representado em O último adeus, a primeira ideia que vem à mente é de um homem que perdeu a mulher amada. É isso que vemos. Um homem jovem, vigoroso, nu (os detalhes perfeitos da musculatura impressionam) beijando uma mulher, também jovem, de olhos fechados, já morta. Mas, na realidade, aconteceu o contrário. A obra foi encomendada por Maria Cantarella, viúva de Antonino Cantarella, falecido em 1942. Os papéis são invertidos. Parece-me que ela quis representar não só a imortalidade do amor e da paixão do casal, mas apresentar, principalmente, a quem vê o monumento, o homem de sua vida em todo seu vigor, pleno, vivo. E ela, morta. Talvez seja uma representação mais perfeita da saudade. Quem fica é condenado a uma morte em vida. “Ao Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto”, são os dizeres na lápide ao lado. Maria, dez anos mais jovem, só se juntaria ao amado quatro décadas depois.

Além das interpretações que a história – contrária ao que se vê – pode gerar, surgem outras dúvidas. Infelizmente, a ação de vândalos contribui em muito para apagar os registros históricos mais visíveis. Muitas vezes, o visitante comum sequer saberá quando o homenageado nasceu ou faleceu, já que os números ou placas com datas são arrancados. No caso de O último adeus, isso me chamou bastante atenção. Na sepultura, a data de morte de Nino aparecia da seguinte maneira: 23-*2-1*4* (onde os asteriscos representam os números arrancados). Tudo que se poderia dizer é que havia morrido na antevéspera do Natal de algum ano na década de 1940. Mas há uma informação que confunde ainda mais. Na base do monumento, lê-se: A. OLIANI – S. PAULO 30-06-928. Como a estátua teria sido feita em 1928 (não há o “1” no entalhe) se foi encomendada após a morte de Nino, em 1942? Um pouco mais de conhecimento histórico-biográfico e a confusão aumenta. Em 1928, Alfredo Oliani tinha apenas 22 anos de idade e estava iniciando seus estudos. Obra criada em 1928, mas só executada em 1942 após a encomenda? Entalhe feito posteriormente com data errada?

A atenção a esses detalhes levam a novas visitas, às buscas nos arquivos dos cemitérios, ao estudo da vida e da obra dos artistas, à familiarização com seu estilo, ao reconhecimento de outras obras sem que se precise conferir a assinatura… Histórias pessoais e História da Arte é o que encontramos em cemitérios. São cheios de vida e de vidas.

No próximo texto, um passeio pelo Cemitério São Paulo, mais obras de Oliani e de outros escultores que deixaram sua marca não só nas necrópoles, mas também do lado de fora delas.

* * * * * *

Confira todos os textos sobre passeios em cemitérios e arte tumular.
Dezenas de fotos dos cemitérios que visitei no Flickr Arte Tumular.

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7 respostas a Sexo, amor e morte

  1. Sandro,
    Adorei! como é lindo e mágico descobrirmos as histórias por trás das esculturas. Confesso que até então, só as esculturas me fascinavam…E para quem não sabe até Brecheret pode ser encontrado no cemitério da Consolação.
    Realmente é uma arte que conta história.Pelo lado da arte, é uma pena que os cemitérios-jardins estejam em constante crescimento.
    Enfim,arte e vida se misturam e se eternizam na morte.

  2. Quero deixar registrado um elogio especial para as imagens. As fotos estão espetaculares!

    Se eu não achasse que seria chato para a maioria, faria um post somente sobre a dificuldade de fotografar em cemitérios. A luz varia muito em poucos segundos, às vezes há informação demais ao fundo, informações conflitantes, as esculturas metálicas e o mármore refletem muito, árvores fazem sombras não uniformes… É complicado. Estas fotos estão boas e fazem parte da série mais recente que fiz em São Paulo. Foram cerca de 3 mil imagens. Destas, há um material realmente muito bom (você sabe que para eu reconhecer algo bom feito por mim é porque deve estar muito bom MESMO!). Vou subir alguma coisa para o Flickr Arte Tumular – http://www.flickr.com/photos/artetumular.

  3. Renata disse:

    Sandro,
    Irias gostar de conhecer algumas particularidades anropológicas dos cemitérios em Portugal… Fiz um ensaio fotográfico há uns anos no cemitério de Bragança e pouco depois outro no cemitério da Boavista (Porto). Foi quando descobri que algumas famílias mais abastadas não enterram (ou não enterravam, pois confesso que não fui lá ver as datas nas urnas desenterradas) as urnas funerárias, que ficam expostas em capelas familiares, numa espécie de prateleira/beliche fúnebre. Algumas capelinhas chegama ter quatro urnas. A lógica: Estes mortos estão literalmente acima dos outros míseros mortais, pois não é a Terra que há de comê-los um dia…
    Vem bem à propósito do “dia dos fiéis*”, que aqui “comemora-se” junto com Todos os Santos, nesta segunda-feira próxima.
    *finados no Brasil
    Beijo e um te adoro, enquanto ainda estamos vivos 😉


    “Iria”, não. IREI. É questão de tempo. Os cemitérios de Portugal, França e Itália que me aguardem. VIVO!

    Os primeiros cemitérios brasileiros, de meados do século XIX, importaram os modelos dos europeus. Neles, temos os mausoléus que são essas tais “capelinhas”. Alguns, em São Paulo, não poderiam ser chamados de “capelinhas”. São pequenos “prédios”. O da família Matarazzo, na Consolação, é imenso. Lá, também há o da família Sinisclachi, que é uma réplica miniaturizada de uma catedral gótica. Tem 12,5 metros de altura. Ninguém enterrado. Todos “dormindo” confortavelmente acima da terra. Rico é rico em qualquer parte do planeta. Veja fotos de ambos aqui: http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/04/05/passeios-por-cemiterios-iii-consolacao

    Ainda aproveitando (VEJAM, TODOS, como é importante comentar para levantar outros assuntos)… os cemitérios surgiram, aqui, principalmente porque não havia mais espaço nas igrejas (onde eram enterrados os fiéis), que começavam a cheirar mal e a se transformar em locais com várias doenças. Os cemitérios públicos, construídos em locais mais afastados e feitos especialmente para isso, pareciam ter resolvido o problema. Hoje, um século e meio depois, estamos às voltas com outros problemas como, por exemplo, a contaminação do lençol freático. Isso mesmo que você pensou! Em algumas áreas, as pessoas podem estar se banhando e até bebendo “água de defunto”. Daí novos modelos de cemitérios verticais, comuns, há anos, nos Estados Unidos e em outros países. A cremação também é cada vez mais adotada. Somos 7 bilhões, hoje. Em outro século e meio, todos nós e muitos que ainda estão por nascer estaremos mortos. Imagine tudo isso na terra! Nem vou falar sobre isso agora, mas no Tibet os cadáveres são esquartejados e dados às aves de rapina. Bom… não polui a terra e ainda “se vai para o céu”.

  4. wilson Natal disse:

    De todas as obras que estão na Consolação, a que mais me fascina e intriga é SOLITUDO (O vazio da mais completa solidão.). É o hiato, a síncope que se faz quando a vida se depara com a morte. É o corpo reclamando o corpo que lhe foi tirado. É a alma reclamando a alma que lhe foi levada. É a metade reclamando o inteiro que nela já não existe… Um corpo reclamando carícias cuja alma perde-se no vazio onde já não importam os por quê. Um corpo moldado na pedra, como um corpo real, na sua dor. Dor que petrifica, emudece e fossiliza-se olhando paisagens com olhos de cego. Metade em solitudo, estática, esperando que pela metade que não mais virá.
    “E o Corvo em meus umbrais a dizer: “Nunca mais!…
    Abração,
    (Eita que dessa vez eu fui fundo!)

  5. Tânia Souza disse:

    Estou encantada com o site, fotos incríveis, curiosidades, informações históricas e tudo muito bom de ler. Parabéns pelo trabalho, virei fã.

    Terminar com citação de Poe é fechar com chave de ouro ^^

  6. “Talvez seja uma representação mais perfeita da saudade. Quem fica é condenado a uma morte em vida.”
    Nunca pensei por esse ponto de vista. Ou melhor, pensei e, mesmo assim, não saberia expressar melhor.

  7. Néia Macedo disse:

    Parabéns pelo texto e pela aula de História, Sandro! Sou um tanto supersticiosa quanto a cemitérios (confesso), mas igualmente curiosa e, durante o tempo que fiz graduação em São Paulo, também visitei os cemitérios da Consolação e de São Paulo. Vi esta escultura “O último adeus”, de Oliani, e parei diante dela alguns minutos! É sublime! O bom é que você postou fotos, então poderei mostrar a meu irmão, que é artista plástico, e que se interessou muito por esta obra quando lhe contei.
    Abraços!

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