Da urgência dos que conhecem a morte

Não há regras para lições. Para cada aprendiz, um método, uma forma, um momento. Já vi a morte, em seu papel de mestra, tentando ensinar muita gente. Doenças pesadas, acidentes sérios, meses ou anos numa cama, partes do corpo retiradas. Mas não era a hora de ir. Apenas uma oportunidade de aprender.

Em muitas das vezes que a observei visitando outros, o efeito foi o seguinte: escapando, a pessoa via que poderia morrer a qualquer momento, passava a viver com uma pressa que não tinha antes e sem se importar com nada. Ataque cardíaco? Fumava ainda mais. Cirrose? Dá-lhe álcool. Overdose? Mais pó. Câncer? Mais comida, mais bebida, sexo desesperado com qualquer um… Afinal, a vida é curta, a morte já bateu à porta, sabe-se lá quando virá de novo.

Agem assim como se isso representasse amor à vida. Não entenderam que suas ações anteriores os aproximaram da morte e que as novas só demonstram paixão ainda maior por ela. Como todo mestre, a morte tem paciência com seus alunos com menos capacidade de cognição. Faz outra visita, senta-se mais tempo ao lado da cama, olha fixamente perguntando: “Entendeu agora?” Alguns entendem; outros nunca aprenderão.

Para mim, a visita e a lição vieram de outra forma. A morte me tirou quem eu amava. E fez isso quando este Amor estava gerando outra vida. A morte não teve a mínima piedade, não deu chance, mostrou todo seu poder de uma só vez. E nem perguntou se eu havia entendido.

Isso foi há quase vinte anos. Comecei a repetir que deveria viver todos os dias como se fosse o último. E caí no mesmo erro que apontei antes, buscando os prazeres que só se pode conhecer nesta vida. Agindo assim, logo chegaria mesmo àquele que seria meu último dia. Ou talvez a mestra fizesse outra visita, repetisse a lição. Da mesma maneira. Foi quando reconheci a vida como aliada. Mas só poderia tê-la a meu lado se produzisse e desse a ela o que a morte me tirou: Amor.

Amar foi minha arma contra a morte. Foi meu troco. A cada Amor, me sinto mais vivo. Não há mentira, não há superficialidade, não há mistificação. Sempre me jogo de cabeça nesse abismo e a vida sempre está lá embaixo para me segurar no colo. Foi dela que virei amante. A vida não me trai nunca.

Há Amor nas palavras, nos atos, nos sonhos. Há Amor de sobra, sem medida, sem fim, para viver muitas vidas em uma. Morre só a ilusão. Eu, nunca. E nunca os amores em mim.

O Amor vence a morte a todo instante. “Por mais que o matem (e matam)”, ele ressurge mais forte, sempre lembrando que é preciso amar como se não houvesse amanhã. Todos sabemos que não há. Não se pode perder tempo. É sempre para agora e com toda força. Era esta a lição da morte: Amar intensamente nesta Vida.

Esta entrada foi publicada em Arte tumular, Comportamento, Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

5 respostas a Da urgência dos que conhecem a morte

  1. Rita Falcão disse:

    Muito bom, Sandro! ;d

  2. Muitos passam pela vida sem a viverem de fato.
    Esse não é o meu, nem o seu perfil e nem o muitos, ainda bem.Em tudo há aprendizado.
    Apesar da sensação de perda, de vazio que por um longo momento a morte nos deixa,vejo também a lição de que a vida é feita de ciclos e que por algum motivo alguns deles têm começo, meio e fim. Parece injusto,muitas vezes,mas sei que um dia todos nós enxergaremos um todo e veremos o sentido disso.
    Da mesma forma em que a vida nos traz pessoas, momentos e circunstâncias. A morte nos dá a sensação de tirar as mesmas coisas. Mas realmente é uma leitura superficial,pois o que é tocado pelo amor se torna eterno.
    Perdi algumas pessoas pela morte e perdi MUITA gente durante a vida, por inúmeras mudanças e motivos. No inicio a sensação é bem diferente parece menos sofrida,mas depois de um tempo começa a pesar e constatamos que são também perdas definitivas.
    Meu remédio para essa dor, assim como para tudo é o amor.Sendo assim, carrego todos aqueles que já amei comigo, de uma forma leve, como um feixe de luz, assim, pela vida inteira.

  3. wilson disse:

    Nascer é começar a morrer. E a vida tem o brilho e a duração de um fátuo.
    Quando se entende o sentido dessas duas frases ama-se incondicionalmente. Ama-se apenas,além da vida e além da morte.
    A dor é um atributo dos que amam.Sem ela o amor não seria verdade.
    A vida se faz em chegar,permanecer e partir.
    Aos que ficam´só resta transformar a dor em ternura e saudade.
    Abração,
    Wilson

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *