As sereias na casa de Deus (II)

Venha! Venha! Chegue! Chegue! Olhe. Bonito, né? Fotografe. Venha, venha…” Era assim, tocado como um boi desgarrado da manada, que minha guia me fez percorrer, em 20 minutos, praticamente todas as partes da Igreja de São Francisco em João Pessoa (PB). Vinte minutos que para ela teriam sido cinco se eu não me fizesse de doido e mouco à sua toada sem freio. Ela foi cansando e logo já era um aboio, triste, ao longe, “tchau, moço” e me abandonou ali na porta da, segundo ela, “capela de São Francisco, porque a Igreja mesmo é de Santo Antônio”. Prestes a me ver livre, nem quis discutir. Fica para a próxima saber qual santo é dono de qual parte, quem fica com a nave principal, quem fica com a capela que tem uma vista linda e na qual se pode passar horas somente olhando para o teto.

Essa minha segunda ida à Igreja de São Francisco foi em busca de suas sereias. Nem sabia que havia tanta coisa linda, além delas, para se ver ali. E há! Na próxima, passarei horas. Esteja avisada, dona venha-venha-chegue-chegue!

Soube das sereias há alguns anos, folheando a edição de 5 de abril de 1952 de O Cruzeiro. Um artigo de Câmara Cascudo dava conta da excentricidade. Passei pela igreja no final de 2008, mas só conheci a parte externa. Dessa vez, entrei e fui buscar as mulheres com rabos de peixe no altar do Santíssimo.

Segundo Cascudo, elas estão lá desde 1779 e não são de ordem erótica, mas símbolos funerários. Ele vai a três séculos antes da igreja de Cristo para explicar a ligação da sereia com a morte, em um tempo e lugar onde elas eram seres alados. Sereia com rabo de peixe, parece, é coisa nossa. Ainda assim, faz sentido que essas também estejam relacionadas à morte. Afinal, o que faz uma sereia quando encanta um homem? Também parece estar relacionado aos desejos, a sedução, aos prazeres, à “perdição” que este caminho leva. Arriscaria dizer que pode haver um sincretismo entre arte, regionalismo e religião. Sabe Deus o que as diabinhas do mar estão fazendo lá!

Cascudo também diz que não conhece outro exemplo desse tipo no Brasil. Não dou certeza, mas se não me falha a memória (ela é muito boa, mas falha), também há sereias na entrada da Igreja de São Pedro, em Recife, Pernambuco. Nem preciso dizer que voltarei a ambas para tirar tudo a limpo, não? Por enquanto, fiquem com o artigo de O Cruzeiro, com as imagens da época e com as que fiz agora (as sereias tiveram pelo menos uma restauração desde então, pelo que sei, no final da década de 1970).

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4 respostas a As sereias na casa de Deus (II)

  1. wilson disse:

    Ainda bem que as “sirenas” continuam lá! E Cascudo tem razão (como sempre). É a única igreja do Brasil com esse trabalho de talha magnífico.Espero que essa velha senhora de 231 anos seja sempre bem cuidada e restaurada.
    Abração,
    Wilson

    Não arrisco dizer que seja o único de entalhamento em madeira porque não lembro o material utilizado nos portais da Igreja de São Pedro em Recife (PE). Há sereias e belos cachos de uvas nele. Do lado de fora da igreja. Foi uma amiga historiadora, Lúcia Falcão, que me levou lá com a intenção de mostrar isso. Foi há quase 20 anos. Fiz fotos à época (não digitais, claro!), mas não tenho aqui meus arquivos. Logo passarei por lá de novo.

  2. Lindo Texto e as fotos são maravilhosas!
    Fico pensando nas pessoas que passam todos os dias por ali e nem percebem a arte, a história…
    Causa um certo estranhamento um simbolo pagão na arte sacra. Na minha visão romanceada da vida provavelmente veria como um convite, um canto para adentrar às portas da igreja (rsrsrs)
    Se as sereias tivessem asas podiam ser associadas aos anjos,hein?! Foi na idade média que a sereia como mulher-peixe tomou o lugar da mulher-pássaro do mito grego, tinha que ser.
    Mais uma vez… nota 10!

    Cascudo ainda faz uma ligação das “nossas” sereias (com rabo de peixe) com a Iara. Baixou o artigo? Quanto ao convite para adentrar as igrejas… olha, preciso mesmo voltar ao Recife! As de lá são no pórtico, do lado de fora.

  3. Henrique disse:

    Muito bom e inspirador. Tenho uma vontade de escrever um texto sobre Natal que se chama “uma historia de sereias” sobre essa nossa cidade que encanta e lentamente nos leva para o fundo do mar. Bom saber que há um que de alado,mortal e sacro nas sereias. Muito bom amigo.
    Henrique

    Nem me fale dos cantos de sereias em Natal, que tanto já me levaram ao desespero e variadas mortes! Quem sabe não é dessa vez que escrevemos juntos? Confissão pública de dívida!

  4. ana cab disse:

    Pesquisava sobre Melusina(um híbrido de mulher, rabo de dragão/sereia e asas), que figura nas lendas medievais de origem celta. Melusina seria a deusa Danu/Danan do povo pré-celta Thuata de Dannan: que o catolicismo incorporou como Sant’Ana, padroeira da Bretanha. Igrejas da França ainda conservam entalhadas ou esculpidas imagens de sereias, inclusive no mobiliário – púlpito, cadeiras, escadas… Adorei o seu registro – possivelmente único na net. Um abraço! ana

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