Eu, que não sei desamar

Pois nací nunca vi Amor,
e ouço del sempre falar.
Pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor
     que me mostr’aquel matador,
     ou que m’ampare del melhor.

(Nuno Fernández Torneol)

É. Não veio na minha configuração original nem em qualquer das atualizações. Definitivamente, não sei desamar. Uma vez instalado o Amor, não há o que o faça sair.

Também me falta – e agradeço por isso – aquela capacidade de inventar uma desculpa ou me apegar a pequenas coisas para conseguir isso. Se amei, é porque vi as coisas lindas de alguém. Vi também os defeitos, que não me interessam. E não vou alimentar a crença nestes últimos. Prefiro sempre alimentar o Amor.

E amar sem ser amado não causa dor? Acredito que não exista maior presunção que esta: querer ser amado. Quem pensa assim, talvez não tenha entendido, ou melhor, sentido o Amor verdadeiro. Diz Rochefoucauld: Si on croit aimer sa maîtresse pour l’amour d’elle, on est bien trompe (Se cremos amar nossa amante por amor a ela, estamos bem iludidos). Talvez esteja aí o “amor comum”, aquele em que se ama para se sentir amado. Mas Amor de verdade só serve para amar. Não espera nada em troca.

A dor da não correspondência só existe quando se segue a máxima de Rochefoucauld. O Amor verdadeiro, ao não ser correspondido, toma outro rumo, se transforma. É como na Química: o corpo em estado físico passo direto para o gasoso, um estado etéreo, um nível com o qual não estamos acostumados a lidar, que não é visto e, na maior parte das vezes, não é compreendido. Sublimação. Ainda é Amor. É igual, mas é diferente.

Amor, meu grande Amor, só dure o tempo que mereça”. Mas se é e verdadeiro, acredito que mereça viver para sempre.  Não consigo ser econômico no Amor. Amar verdadeiramente, só sem medida, sem prazo de validade. “Estamos medindo forças desiguais/ qualquer um pode ver:/ só terminou pra você.

Percebi que meu coração é um forrobodó, uma festa de dança rasgada, que, hoje, começa a ter cuidado ao deixar alguém entrar. “Mas quem tá dentro, não sai”.

Com a licença de meus queridos poetas, finalizo dizendo que meu coração suporta todos os meus amores e eles não pesam mais que um beijo apaixonado. E ao Amor que pretenda chegar, não precisa vir se não for para ficar para sempre.

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6 respostas a Eu, que não sei desamar

  1. simona disse:

    Que coisa linda! sou igual. obrigada. 😀

  2. wilson disse:

    De um Lundú do séc XIX:
    Os amores que tive partiram um dia,
    Mas o amor que dei e recebi desses amores ficaram como agregados no meu coração.
    A verdade é que, mesmo sem ser amado, o homem que não ama morre.
    Desgostar é possível, desamar, impossível!
    Abração,
    Wilson

  3. Eu acredito que quem ama realmente não consiga desamar. O amor muda de forma, mas a essência é amor. É igual, mas é diferente…
    Ainda hoje falei sobre esse assunto com um escritor amigo meu. Amar é para sempre! E ao Amor que pretenda chegar, quando chegar será sempre para ficar.

  4. Márcia disse:

    “E quando me quiser
    Que seja de qualquer maneira
    Enquanto me tiver
    Que eu seja a última e a primeira
    E quando eu te encontrar, meu grande amor, me reconheça”

    Sinto o tempo meio de plástico, de beira, de superfície, veloz, de máscaras. Como, nesse tempo, reconhecer-ser reconhecido(a)?

    Sei não, acho que parei nos 80tinha…

    Adorei o texto.

    márcia

  5. Sandro,
    Também não aprendi a desamar. O problema é que nem todo mundo funciona assim assim. Daí, dói mais.
    Adoro o que você escreve. Sempre…
    Beijos,
    Zi

  6. Tereza Ratts de Ratis disse:

    Eu também quero o amor para sempre dentro de mim.

    A gente ouve muito as pessoas falando em desamor… Mas não é desamor. Foi precipitação por chamar de amor o que sentia.

    Gostei da frase de Wilson: “Desgostar é possível, desamar, impossível”!

    Meu coração é minha caixa-forte.
    Adorei o texto. Me fez pensar em tanta coisa…

    Beijos.

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