Sou alcoólatra, anarquista e estuprador

Pode acreditar: tenho os piores atributos que alguém puder imaginar. Não que qualquer um deles corresponda à realidade, mas se querem pensar assim, o que posso fazer? Foi ali pelos meus 18 anos, numa noite em Brasília, quando uma inteligente mulher em seus 40 e poucos anos me alertou para nossa natureza míope: “Sou apenas uma, mas há quem me ame e há quem não me suporte.

Muitos fatores contribuem para essa diferença entre a visão de uma e outra pessoa. De início, aprendi o mais comum: as pessoas veem o mundo como um espelho.  O ladrão acha que todos roubam e não se deve confiar em ninguém; o mentiroso é incapaz de acreditar em quem quer que seja; o honesto acha que o mundo todo é assim; os que amam acham que todos são românticos.  Para reconhecerem a si mesmas, as pessoas precisam se ver nas outras.  Para o bem ou para o mal, não reconhecer determinada qualidade em alguém é um grande sinal de que você, talvez, não a possua.

Apegar-se a esta ou àquela característica, deixando de ver outras e o todo, e ainda considerá-la imutável é um grande erro que contribui para a tal miopia. A pessoa pode ser maravilhosa, mas alguma coisa “não bateu” e você “cismou”. Pronto. Mesmo que tenha sido uma falsa impressão, se você acreditar nela é possível que a considere como uma verdade absoluta, predominante e que jamais será modificada. Vira uma convicção. Nunca mais se estará aberto para enxergar algo diferente.

Por acreditar em minha evolução (assumidamente lenta), também acredito na dos outros. Quando reencontro alguém, principalmente quem não conheço bem e depois de um longo período, encaro a pessoa quase como uma completa estranha. Sei o nome, tenho algumas lembranças a seu respeito, mas acredito que ela possa ter mudado em quase tudo. De preferência, para melhor. Até por também ser humano, cometo o mesmo erro e acredito que ela também vá pensar assim. E só percebo que fiz essa bobagem quando me deparo com o terceiro – e mais desprezível – fator comum a essas situações de não enxergar o outro como ele é: a presunção.

Os dois primeiros, perdoo fácil, mas com a presunção é mais complicado. Ela já denota certa estreiteza, uma mentalidade apoucada com a qual é difícil lidar. Você percebe os limites da visão do outro e sabe que logo ele vai tentar lhe atropelar.  Por maior que seja a boa vontade, vê-se que, dificilmente, se conseguirá ir a algum lugar.

Confesso minha dificuldade em ter com esses tipos. Dificuldade que diminuiu consideravelmente quando passei a entender como a presunção se alimenta. Os presunçosos só andam com seus iguais, que nada valem, nada são, mas adoram parecer que são muita coisa. Quando encontram alguém diferente, têm a necessidade de pavonear-se: incham o peito, abrem as asas, arregalam os olhos e fazem barulho. Tudo para que não percebam seus pés horrorosos e sua completa inutilidade. A solução é ensinada pela Física: sem contato, sem atrito.

Mas o isolamento total quase nunca é possível. E nem desejável, pois não teríamos como aprender a sustentar o combate e valorizar nossa própria moral. Para os presunçosos, o remédio da sabedoria popular para todo e qualquer mal: cante e espante. Deixe que digam, que pensem, que falem, deixa isso prá lá, vem pra cá…

Tenha compaixão por eles. Entenda suas limitações e não se importe com as fantasias que criam. É desnecessário fazer parte delas. Eleve-se moral e intelectualmente. Ande com pessoas de méritos. Desaprenda a presunção e, ao se deparar com ela, não se incomode.

* * * * * * * *

Textos relacionados
As pessoas mudam e esquecem de avisar aos outros
De que forma você vê o mundo?
Sympátheia

Esta entrada foi publicada em Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

6 respostas a Sou alcoólatra, anarquista e estuprador

  1. Sandro,

    Cada vez melhor a sua percepção da vida, dos fatos, das pessoas…
    Não sei, mas acredito que o que buscamos nos outros como reflexo são coisas que precisamos compreender e aprender em nós mesmos. Claro que isso não quer dizer que façamos sempre, mas faz parte de todo o nosso processo de evolução.
    Creio que devamos ter não só compaixão pelo próximo,mas a humildade de saber que também somos aprendizes e que nesse processo de aprendizado e evolução,todos estamos, de certa forma ligados,e nos proporcionando experiências para avançarmos ou estagnarmos.
    Como sempre, ADOREI o texto.

  2. Edmar disse:

    Rapaz,

    que título é esse! Nele muito de nós pode até se identificar.

    Se entregou nessa, hein?! 🙂

  3. Renata disse:

    Ahhh, Sandro… Subscrevo tudo! E esta é uma “experiência” ou visão comum apenas para aqueles que arriscam (se) mudar… Quando intronizamos e vivenciamos a ideia real de que nada é eterno.

    Se se mudam os espaços e as paisagens, que diremos das pessoas em seus universos únicos pessoais e intransmissíveis?!

    Quem permanece sempre no mesmo (e ensimesmado) não pode vê tais mudanças, da mesma forma que só nos percebemos “mais velhos” ao compararmos fotografias antigas com a nossa cara no espelho pela manhã…

    Lembrei-me do nosso encontro no beco da lama, numa vez que as nossas viagens e andanças permitiu que nos encontrássemos novamente.

    Lembro-me de cada palavra tua nas análises da realidade daquela cidade, daquelas pessoas e daquela tarde 🙂

  4. wilson disse:

    È isso,Sandro:
    A vida e o tempo vão nos despindo da fantasia de donos da verdade. A gente vai aprendendo que não se pode viver com certas pessoas, mas pode-se conviver com elas. Sem a fantasia ficamos mais analíticos e não críticos. Importa-nos compreender, entender. E nessa atitude, se não pudermos melhorar o nosso semelhante, melhoramos a nós mesmos. O terceiro adjetivo passa a ser um dos muitos casos de patologia clínica – até isso passamos a entender. E a vida está cheia de “foi e não é mais”. Isso é bom, pois vamos descobrindo se melhoramos ou pioramos.
    E o importante nessa vida é SER. Existir qualquer um pode.
    Abraços,
    Wilson

  5. Tereza Ratts de Ratis disse:

    Comecei muitas amizades nesta vida a partir de comentarios que ouvia, de boca em boca. Nunca nenhum correspondeu 100% à realidade. Nem para o mal, nem para o bem. Mas sempre fui conferir, ver de perto, trocar idéias, conviver e dar tempo e oportunidade ao destino de me dizer ou ensinar coisas sobre mim, as pessoas e os lugares (meios). Separadamente e com a influência de um elemento sobre o outro (e suas diferentes variações).
    Aprender a conhecer e entender as pessoas nos ajuda a realizar o mesmo processo em nos mesmos. A cada coisa nova que eu reconheça no outro, tento elaborar o que aquilo desperta de bom ou de ruim em mim, depois faço uma “auto-busca”. Dependendo do caso sera a hora de mudanças. Se procuro algo no outro, procuro em mim. Se acho que o outro deve mudar, me interrogo o que eu também posso mudar. Tem sido assim ha muito tempo, desde quando pequena fui pré-julgada a 1a vez e que sofri com a opinião errada que fizeram de mim e com tudo de desagradavel que isso pôde gerar.
    Interessante: me identifiquei com o texto e com cada ponto de vista dos comentarios.
    Gabriel, o Pensador disse: “seja sempre você mesmo mas não seja mais o mesmo”. Disse tudo!

    Beijos e muito carinho.

  6. Meire disse:

    Sandro queridísimo,
    Faço coro com a Christiane Angelotti e todos outros. A maturidade está te fazendo muito bem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *