Meu pequeno grande Mestre

Peça. Peça fervorosamente. Suas preces serão atendidas. E logo você lembrará: “Cuidado com o que deseja, você pode acabar conseguindo”. Consegue mesmo. Provavelmente não daquele jeitinho que pensou, mas, como costumo dizer, as coisas não são do jeito que queremos, são como devem ser e são sempre da melhor maneira.

Quando mais jovem, místico e ainda mais sonhador, deseja ardorosamente ter um Mestre que me guiasse com segurança pelos tortuosos caminhos da vida. Um desses indianos, de túnica, longa barba, provavelmente desencarnado, morador de outra dimensão no Himalaia, que se materializasse do nada, bem à minha frente, toda vez que eu, de maneira humilde e temerosa, sussurrasse seu nome secreto, nome que teria sido confiado somente a mim e deveria ser usado apenas em ocasiões especialíssimas.

Desejei tanto que me mandaram logo três. Nenhum ancião indiano de barba. Vieram todos em forma de criança. Umas coisas tão fofinhas, que só dá vontade de ficar cheirando, apertando e de jogar na parede para ver se quicam.  Com carinho, claro. Quer ter um excelente Mestre? Tenha um filho. Garantia absoluta e sem possibilidade de devolução.

Pedimos um Mestre, acreditando que somos merecedores dele. Quase nunca lembramos que um Mestre só aparece se o discípulo está preparado para recebê-lo. Ou, acho mais correto dizer, para percebê-lo.

Dois dos meus mestres ainda são crianças. Ananda, atualmente com 10 anos, é tranquila, doce, inspiradora. A personificação do mestre complacente, que tem profunda compaixão pelo pobre discípulo e suas muitas falhas. Nada exige. Não é à toa que ganhou esse nome. Ananda, em sânscrito, é Bem-aventurança, a Felicidade Suprema. Era também o nome do discípulo mais aplicado de Buda. Uma benção para qualquer um que esteja em sua presença. Mas eu, ainda muito bruto para me banhar e me beneficiar de sua nobre aura, precisava ser exigido, cobrado, dar respostas para me mostrar digno.

Então, chegou Pietro.

Seu nome também é revelador. Para uma criatura tosca como eu aprender algo, só mesmo na base da pedrada. Mestre Pietro já me ensinou tanta coisa, que eu poderia escrever centenas de páginas a respeito. Recentemente estivemos em um, digamos, “retiro” no qual passamos oito dias grudados, 24 horas por dia, só nós dois. Intensivão.

Deixar a criança-mestre por quatro ou cinco horas na escola, você passar outras oito no trabalho, ter alguém com quem dividir os cuidados dela, uma babá, uma avó, chegar à noite para dar uns beijinhos e botar para dormir, sonhar que no fim de semana vão brincar juntos… isso é mole! Mas se você que tem filhos já passou, por exemplo, por umas “férias” em que não pôde viajar e teve que ficar todo o tempo em casa com seus mestres, deve lembrar que os primeiros dias são lindos, mas logo você estará procurando uma colônia de férias ou mesmo um campo de concentração para onde despachá-los.  Diga que nunca perdeu a paciência numa situação dessas. Diga!

Paciência é a primeira lição que todo mundo deveria aprender. Com silêncio, isolamento, fazendo só o que lhe agrada, é muito fácil ser paciente. Vá para o meio da confusão, dos atritos, da gritaria e depois me diga se você é mesmo tão paciente. Vá e perceba o quanto ainda precisa aprender.

Primeiro passo do retiro com Mestre Pietro: disciplina em relação aos horários. Viver a noite é coisa de quem não tem responsabilidade alguma. Escureceu, está na hora de dormir. E é bom nem pensar em aproveitar esse momento para fazer outras coisas porque você vai precisar acordar cedo, na hora em que o sol, aquele preguiçoso, estiver apenas se insinuando.  Quatro e meia da manhã, Mestre Pietro pula da cama. Silenciosamente, sem mesmo um “bom dia”, caminha silencioso pela casa. Levanto também, afinal, preciso protegê-lo e servi-lo. Um abraço faz as vezes de benção matinal e logo estou na cozinha preparando seu desjejum. Já totalmente desperto, percebo que ele voltou para a cama e continuou a dormir. Óbvio. Quem tem que aprender a levantar cedo sou eu, não ele.

Deixo tudo pronto e aproveito para tentar fazer algo de meu interesse. Nesse exato instante, ele acorda de verdade e inicia o treinamento que exige de mim uma atenção contínua e absoluta durante 14 ou 15 horas. Folga, só de alguns poucos minutos para ir ao banheiro.  E nada daqueles banhos demorados que adoro. É preciso preservar as riquezas naturais. Água é vida. Não se pode desperdiçá-la.

Diferente do que muitos imaginam, não se deve fazer perguntas a um Mestre. Ele não pode ficar revelando tão facilmente seus conhecimentos. Você precisa buscar as respostas, entendê-las. É ele quem faz as perguntas. O dia é recheado com centenas de “Por que?”.  Depois do trigésimo “por que?” em cinco minutos, quando você saiu de um “por que ele faz isso?” e já está chegando a “por que o Universo existe?”, mesmo que seja ateu, você começa a chamar por Deus. Pior: você não tem coragem de perguntar a Ele: “POR QUE? Por que tanto ‘por que’?!” Em algum momento tento terminar com um “porque é” e rezo para ele não dizer que isso não é resposta. Ele me dá um olhar de “então, tá!” e me deixa por uns minutos para ver se aprendi a lição. Qual? A de ter paciência, de perceber que os porquês nem sempre são tão óbvios e que precisamos buscar sempre a melhor resposta, não nos contentando com a primeira que aparece. Invariavelmente, ele decide que ainda não aprendi nada disso e logo começa outra série: “Por que…?  Por que…?” E ele, na maior paciência do mundo, esperando que eu aprenda algo.

Mestre Pietro também gosta de empregar o exercício do “Quando?” aliado à técnica anterior. Se eu disser que vamos fazer algo, vou ouvir “quando?” até o momento chegar. E quanto mais para o futuro o tal acontecimento, mais ouvirei a pergunta. Quais as lições deste exercício? Controlar a ansiedade, deixar de ficar pensando no futuro e viver o presente (que interessa o que está para acontecer? Pense e viva o agora.) e, claro, sempre ela, a paciência. Quando aprenderei tudo isso? De preferência agora, que é para não ouvir mais a pergunta. Oooooooooooooom… (respira)

Meu Mestre também usa técnicas de outras tradições para me ensinar. Ele me pede para fazer bonecos com massinha de modelar. Extremamente limitado, me esforço para fazer algo parecido com alguma coisa que exista neste mundo. Faço, apresento (já vou logo dizendo o que é para a pequena obra ser bem interpretada) e aguardo o veredito. Ele olha e a destrói imediatamente, sem piedade, fazendo tudo voltar ao grande bolo de massa. As lições? O desapego às formas, ao belo que dá prazer aos sentidos, e, sobretudo, a impermanência das coisas. Tudo muda, tudo tem um fim.

Admito, Pietro é um grande Mestre. Quando percebe que está apertando muito minha corda, que começo a ficar tenso e posso estourar, ele solta um “pai”, a palavra mais doce que um homem pode ouvir e que me amolece no mesmo instante. Ao perceber minha reação (como me domina fácil!), me lança um olhar que é um sorriso e parece dizer: “Tô só lhe testando, seu besta!” E deve ser isso mesmo.

Agradeço pelos ensinamentos, me dobro e me esforço em ser digno de tanta atenção. Todo tempo, ele me faz entender que o caminho para a Felicidade se aprende com a Doutrina do Coração.

Namastê, Mestre Pietro. O que há de melhor e mais puro em mim cumprimenta e se curva ao que há de divino em você.

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3 respostas a Meu pequeno grande Mestre

  1. Que texto mais lindo!
    É tão bom poder observar o poder das coisas simples… Recebemos nossos mestres e nem sempre os reconhecemos.
    E mesmo quando não se tem filhos, os mestres dividem sua sapiência com todos, são generosos.
    Outro dia estava observando que as crianças são tão especiais que são capazes de construir pontes onde há abismos.São capazes de preencher qualquer lacuna, qualquer vazio, com som, luz e alegria. E isso não é sabedoria?
    Namastê!
    Chris

    PS- O Pietro está lindo!

  2. Laura Corrêa disse:

    Belíssimo texto! Me faz reforçar a idéia de que tudo na vida depende do ponto de vista da pessoa. Fiquei admirada com o seu, lindo.

    Beijos

    Laura

  3. Lana Mayla disse:

    Parabéns pelo texto!!!! Suas palavras foram acertadas e bem colocadas! Fantástico! Pode ter certeza de que estarei sempre aqui lendo seus escritos!
    Abraço.
    Lana.

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