Sonho e realidade

Esta é uma conversa somente para quem já sentiu algum tipo de dor, teve alguma preocupação ou sentiu alguma frustração. Se você nasceu milionário, sempre teve suas expectativas correspondidas, não conhece contrariedade, nunca se sentiu abandonado ou traído, pare por aqui e continue vivendo seu doce sonho.

Aos que ficaram, pergunto: quantas vezes você passou dias, semanas, meses ou até mais remoendo um pensamento a respeito de algo que o fez sofrer? Tempos e tempos tentando entender, tentando desfazer, buscando uma solução, experimentando um sofrimento que parecia nunca ter fim. E quantas vezes você pensou na necessidade de passar por isso e em todo benefício que uma situação dessas pode trazer?

Não estou sugerindo a ninguém que busque mais sofrimento. Eles virão de qualquer jeito. Minha sugestão é que você os transforme em algo benéfico para sua vida e aprenda a passar menos tempo nos processos mentais negativos que o torturam quando isso acontece.

Imagine a serenidade de um monge budista em contemplação, de um fiel católico durante a prece ou de um estudante aplicado que não percebe nada ao redor quando está debruçado sobre seus livros. O que essas imagens têm de semelhante a seu sofrimento, sua tortura, sua ruminação a respeito de alguma coisa? Parece que nada, mas há pelo menos uma semelhança: a capacidade de se concentrar em algo.

A prática contemplativa e o isolamento parecerem uma solução para se manter afastado de sofrimentos, mas mesmo seus praticantes admitem que um templo não é o melhor lugar para isso. O melhor lugar para praticar é no meio da confusão.

Praticar em um ambiente propício é o desejo de qualquer um, mas vejam os corredores africanos: eles comem mal, vivem em péssimas condições, não têm calçados apropriados para treinar, nem pistas, correm em uma temperatura escaldante e são os melhores. O cenário que parece desfavorável exige uma maior necessidade de superação.

Estabilizar a visão praticando durante as dificuldades, com os problemas que se apresentam em nossas vidas, certamente é mais difícil, mas, se conseguirmos fazê-lo, os resultados serão surpreendentes. Na próxima vez, estaremos mais fortes e preparados.

A primeira chave para conseguir isso é a percepção do que é real para você. Quando se acredita em algo, tudo fica mais fácil. Vamos admitir: em uma situação de desequilíbrio emocional, uma pessoa que tem algum tipo de fé consegue se estabilizar com mais facilidade. Quem não tem, como eu, costuma ter mais dificuldade. “Acreditar” se transforma em um atalho; “entender” é um caminho mais longo e repleto de obstáculos.

Mas o que é real e o que é imaginário? No momento, tenho enorme dificuldade em responder a esta pergunta. Tudo que me parecia correto e real durante toda a vida começou a me parecer ilusório; tudo que me parecia errado e ilusório começou a parecer, no mínimo, a realidade em que a maioria das pessoas vive.

Talvez você já tenha ouvido isso: “Como você tem certeza que me ama?” Ora, porque SINTO isso. Não é algo que se precise entender, não é algo que precise de uma resposta dada pelo cérebro. É minha alma, é aquilo que me anima quem está dizendo isso. É um sonho. Basta vivê-lo. Se a outra pessoa embarca no mesmo sonho, as duas passam a viver a mesma realidade.  Daí para a felicidade, é um passo.

Apaixonar-se é uma ótima forma de perceber a manifestação do sentido onírico da realidade. Dia desses, assisti um pequeno trecho de uma preleção do Lama Padma Samten, que me ajudou a entender melhor isso. Reproduzo aqui alguns instantes despidos das partes religiosas e focando apenas na parte prática da lição. Ele fala sobre esse aspecto de sonho que projetamos na realidade quando nos apaixonamos. Em algum momento, nos perguntamos: “Como é que não vi isso chegar e agora estou assim?” Geralmente essa percepção só acontece quando o sonho acaba, quando você é obrigado a enxergar a realidade. De forma divertida, Lama Padma Samten sugere como experimentar essa busca por equilíbrio, harmonia e entendimento: “Para os corajosos, namoro com confusão. Para os mais corajosos, namoro com confusão e dor.”

A dor tem mesmo uma habilidade especial. Ela paralisa tudo. “Quando você está com uma dor, todo mundo entende. Durante muito tempo, a pessoa não tem outro assunto para pensar. Ela só pensa naquilo.” Como aquilo é construído? Como entender o aspecto de sonho que há naquilo que se entende como realidade?  Só buscamos essa compreensão quando estamos no meio da confusão e “a melhor confusão é aquela que a gente não consegue engolir nem cuspir”. É aquela em que você sente um bolo que não sai da garganta.

Quem já viu um inseto ou um pássaro batendo várias vezes no vidro de uma janela? É desesperador ver a agonia de uma criatura tão frágil, não? Quando vemos isso, tentamos ajudar e ficamos sem entender o motivo de ela continuar se jogando contra o vidro. Ela sente o vidro, se machuca, mas insiste em passar por ele. Nós sabemos que isso não é possível. Mas no mundo dela, não existe esse entendimento. No mundo de sonho dela, em sua realidade, não existe vidro. A pequena criatura acredita que pode ultrapassar e fica batendo, desesperada, sentindo dor, correndo risco de morrer. É o mesmo que fazemos quando insistimos em bater em algo que não estamos vendo, que não faz parte de nossos sonhos, de nossa realidade e que só faz nos causar dor.  Cada um de nós tem um mundo de sensações próprio, com imagens construídas e nas quais acredita.

Já fui inseto e pássaro muitas vezes. Hoje, me vejo mais como um touro: bruto, forte, sereno em boa parte do tempo, que fica ruminando algumas coisas, olhando para o céu lindo e não entendo muito bem como aquele aramezinho entre duas estacas me impede de avançar.  E se eu, com todo meu peso e minha marra, investir contra ele? Algo me diz que posso ficar enganchado nele e me machucar ainda mais. Não vou sair dali. A dor vai ser ainda mais intensa. Então, resolvo me concentrar, usar o tempo a meu favor, e continuar pastando, calmamente, apreciando o verde, sentindo o sol, caminhando sem qualquer ansiedade, até encontrar a porteira. Um dia, ela vai estar aberta. O que me resta é ter paciência para esperar e estar preparado para aproveitar esse momento, para perceber que naquele pedaço, naquele instante, não existe mais o arame farpado que me causa impedimentos e dor. Nessa hora, ganharei a liberdade.

Não há mágica que provoque um entendimento imediato. O processo de aprendizagem é mesmo muito demorado. Se alguém de fora estiver enxergando outra realidade, permita que ele abra a janela para você. E procure fazer o mesmo quando se deparar com a dor de outra pessoa.

Esta entrada foi publicada em Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

8 respostas a Sonho e realidade

  1. Tereza Ratts de Ratis disse:

    Muitos, muitos sentimentos em comum…

    Pensando muito em você ultimamente.

    Amor e carinho meu.

    Tê.

  2. Neide Pessoa disse:

    Sandro,
    acompanhando você,aqui no seu sitio,
    e compreendendo tudo.
    Sei como é.
    Meu abraço.
    Neide.

  3. Perfeito!
    Esse texto e tudo mais me fizeram lembrar de Drummond: “A cada dia que vivo,
    mais me convenço de que o
    desperdício da vida
    está no amor que não damos,
    nas forças que não usamos,
    na prudência egoísta que nada arrisca,
    e que, esquivando-se do sofrimento,
    perdemos também a felicidade.

    A dor é inevitável.
    O sofrimento é opcional.”

  4. Fausto José disse:

    Meu amigo como é verdadeiro tudo oque você colocou atraves de seu texto. No momento estou tentando melhorar minha perfomarnce no trabalho que nunca realizei dentro de um ambiente nada comprensivel. Faço mapas pór computador no IBGE. Fiquei desempregado tão longo tempo que aceito de bom grado tudo o que passo nestas nove horas diarias.

  5. ginetta disse:

    Poxa, li seu texto agora e achei tão perfeito sabe, tipo algo sincero e lindo demais. E me vejo como esse inseto muitas vezes na vida e mesmo tendo ciência para compreender que não posso atravessar esse vidro, continuo batendo de frente com ele até minhas forças se esgotarem, pq não quero um dia me arrepender de ter tentado ir até o fim!
    Abraços, vou recomendar esse post a uma amiga que está muitoo triste depois do término do relacionamento.

  6. muito boas as analogias com o inseto e o touro. parabéns.

  7. Renata disse:

    Sandro, duas coisas: A dor “da alma” deve ser entendida exatamente como a dor fisiológica: uma resposta do organismo, uma necessidade, um alerta de que algo não vai bem e precisa ser sanado.
    outra: Por causa deste post, lembrei-me da metafísica da merda e fui reler Kundera a pensar em ti… (A Insustentável Leveza do Ser)
    Adoro-te!

  8. wilson disse:

    Só faltou você dizer que a dor nos faz crescer. Passa-se de inseto a touro, você disse. Eu digo que as dores da alma, de meninos, nos transforma em homens.
    Texto muito bom!
    Abração,

    Wilson

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *