A vida interna

Mais uma vez, tudo mudou. A primeira estrofe de Drês, de Nando Reis, tem fechado todos os episódios da temporada 2010 da minha vida: Três dias atrás/ Tudo era diferente/ Três dias pra frente/ Nada vai ficar igual/ E eu tenho medo.

Acreditem, já fui jovem o suficiente para acreditar que não tinha medo. É bom ter medo. Sabendo usá-lo a seu favor, você acaba por evitar situações perigosas à sua integridade. Também é bom expor seu medo. Assim, ele – o medo – sabe que você está alerta, acaba ficando com medo de você e tende a se afastar.

É mesmo necessário admitir essa condição animal para que se possa superá-la, para que possamos, adiante, assumir uma condição humana mais digna. E haja exaltação de amor-próprio para conseguir isso! Diante de qualquer coisa inesperada, nosso instinto animal se prepara para a luta, para o precipício, para a morte. Desejamos a segurança do esperado. Depor armas, nos abrirmos ao sentimento puro e verdadeiro – em qualquer relação com outra pessoa –, repousar na cama e no abraço que existe no olhar do outro. Sem medos.

Em meu mais recente sobressalto animal, me joguei em um abismo escuro como são todos eles. Não enxergava nada. E tive muito medo. Depois da queda, quando senti o impacto, quando finalmente cheguei ao fundo, o quadro era outro. Havia muita luz. Por isso continuei não enxergando e tive ainda mais medo. Com o tempo, percebi que havia caído em um lugar totalmente desconhecido, onde nunca havia estado. Havia caído em mim.

Com a queda, meus óculos de lentes cor-de-rosa quebraram. “Ele vai se fechar. Vai criar muros. Vai ficar frio.”, vocês podem pensar agora. Não. Só estou quieto e me acostumando com um mundo cheio de outras cores que não percebia antes. Algumas são assustadoras. Outras parecem belíssimas, mas ainda não consigo me aproximar delas. Sei apenas que não vejo mais o mundo como um lindo romance que precisa ter um final feliz. Começo a não pensar que existam páginas finais, conclusivas.

É uma viagem à vida interna, mas, agora, desci do trem. Na maior parte do tempo, assistia minha vida passar, me enxergava como um personagem e também como o autor da história, o que me dava a falsa impressão de que ela se desenvolveria como eu desejava. Nada mais falso. Os outros personagens também escrevem todo o tempo. Desci do trem, sentei, estou buscando entender todo o cenário ao redor e não só apenas aquele pequeno pedaço que via enquadrado pela janela.

Venho buscando, literalmente, uma imunização racional. Não como a entendia antes. Não é o racional tentando dominar o emocional. A coisa não acontece de cima para baixo. Em minha despretensiosa e assumida condição animal, percebo que preciso dar atenção aos graus menores, vivenciá-los, entendê-los, para ir me graduando e atingir os que estão mais acima. Eu, que sempre quis ser só cérebro, descobri que sou muito mais coração. E os dois precisam entrar em harmonia.

Experimentando essa vida interna, começo, finalmente, a me preparar para a vida externa, que muitas vezes me pareceu tão agressiva, incompreensível, tão alheia às minhas vontades.

E os medos já parecem tão fantasiosos quanto as coisas bonitas que também criei.

* * * * *

Textos relacionados e que você também pode gostar de ler:
A história sem fim
Tirocínio
Dias de Jó
Minhas exéquias

Esta entrada foi publicada em Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

5 respostas a A vida interna

  1. Querendo conversar, já sabe: eu dou um jeito de escutar com um ouvido, porque com os dois é lhe dar muito cabimento.

  2. Este post me “caiu como uma luva”…
    Agradeço por partilhar sua leitura do mundo e das suas experiências.
    Ontem mesmo recebi um recado de uma amiga que partilhei numa das redes sociais : “Quem tem medo de sofrer não merece ser feliz”. Não concordo que não mereça,mas concordo que o medo nos afasta da felicidade, pois nos paralisa.
    Decepções e sofrimentos fazem parte da nossa jornada, da nossa viagem pela vida e saber superá-los nos prepara para viver coisas ainda melhores, mais intensas e mais próximas do que realmente buscamos. Eu acredito nisso.

  3. Carol Kyze disse:

    Sempre lendo e sempre concordando com seus textos. A ideia do seu texto me assalta constantemente!

  4. Renata disse:

    Oh, Sandro, esta é a “sina” de nós arianos… Sempre querendo racionar, sempre tentando impor controle (e auto-controle)… E sempre levados pela paixão que queima como o fogo dentro de nós. Este fogo que impulsiona infinitamente pela busca do novo, do desconhecido, do incontrolável… Porque que a gente é assim? 😉
    Beijo

  5. wilson disse:

    É assim mesmo, Sandro.
    Primeiro a gente sonha a vida.Ai ela vira realidade e, timidamente vamos entrado nela.Mas a vida ainda não é real. Ela é, mitificada, o sonho se transmutado em realidade.
    De repente,notamos que a vida não é o nosso mundo interior. Não é nosso quarto ou nossa casa e, nem mesmo a nossa rua.É o mundo.
    E a Vida não está para que a vejamos passar. Está ai, demitificada, para ser vivida!
    Então descobrimos que ela é a Esfinge a nos torturar com perguntas e a nos devorar.Percebemos que ela é como um animal selvagem que, apenas se doma, mas nunca se domestica. Mas éla é como a Fênix também. Junto com ela nascemos e morremos repetidamente. Renascemos das cinzas antigas para viver novos começos.
    E o que seria de nós se a Vida não fosse tão incerta? Seríamos um todo unirversal perdidos na mesmice do nada.
    E a vida é boa porque nos ensina. E nós somos melhores porque aprendemos com ela.
    Abração,
    Wilson

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *