Rascunho

De um caderno até então perdido.
Escrito em 11.08.2008

Para Orwell e M.

Toda arte foi proibida hoje. Estamos no último dia em que é possível ir ao teatro, ao cinema, admirar um quadro, ler um livro, escutar música. Muitas outras tentativas de proibir as emoções foram feitas. Esta prometeu bani-las. Receberemos, todos, máscaras de pedra. Não portaremos mais almas. Nada haverá em nós que não a força necessária para trabalhar e produzir para o Estado.

Todo tipo, todo objeto de arte, o menor e mais desprezível, foi recolhido. Museus e galerias estão sendo fechados; todas as casas, vasculhadas. Nada sobrou. Assim espera o Estado.

No mesmo decreto que proíbe as artes, está a proibição dos sentimentos. Sabe-se que muitos irão chorar e se revoltar, que risos existirão, escondidos em reuniões clandestinas. Lembranças existirão.  Por quanto tempo? É um plano a ser cruelmente cumprido a longo prazo. Os que nascerem a partir de amanhã não encontrarão emoção neste mundo. Seus filhos talvez não precisem ser proibidos de chorar ao nascerem. Já não haverá motivo para que o façam. Em 120 anos – assim quer o Estado –, não haverá criatura sobre a terra que se lembre de um sorriso, de uma lágrima, de um descompasso cardíaco que não tenha sido provocado por uma doença.  Em 120 anos, os nascidos não lembrarão um ser humano.

Como o Estado pretende manter o controle dessas decisões até lá? Quem garante que tudo não mudará? Nós, que devemos obedecer às leis, fazemos estas perguntas porque temos esperança. Eles, que fazem as leis, não se importam com tais perguntas porque enterram todos os dias, cada vez mais fundo, nossas esperanças.

Sou escritor, atividade proibida a partir de agora. A não ser que trabalhe para o Estado e conte a História Oficial. Não existe mais ficção, conto, poesia. Só a voz oficial. Em uma reunião de artistas, há poucos dias, discutíamos a possibilidade da tradição oral. No dia seguinte, nova lei dizia que os artistas estavam proibidos de ter filhos e que qualquer tentativa de ensinar nossos dons ou conhecimentos custaria as vidas dos envolvidos.

Hoje, toda arte foi morta.

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