A história sem fim

A primeira vez que chorei em Natal não foi no escuro do quarto, por estar longe do lugar onde fui criado, dos meus colegas de infância ou de tudo que conhecia. Foi no cinema, assistindo A História sem Fim. Chorei junto com Bastian e Atreyu, quando este viu seu cavalo Artax desaparecer.

“Atreyu e Artax tinham procurado nas Montanhas Prateadas, no Deserto das Esperanças Destroçadas e nas Torres de Cristal. Sem sucesso.” A última esperança para salvar Fantasia – o mundo mágico onde viviam – estava em encontrar o ser mais sábio que existia e que morava em algum lugar nos mortais pântanos da tristeza. E “todos sabiam que quem deixasse a tristeza dominar seu coração afundaria dentro do pântano”.

Chorei com aqueles garotos que tinham, aproximadamente, a mesma idade que eu. Isso foi no início de 1986 e eu tinha 13 anos. No final de 1990, aos 18, já começando a esquecer a pureza da infância – e ela se afasta rápido e de forma silenciosa – fui chamado a salvar Fantasia. Fui confrontado com o Nada, essa força terrível que tudo devora e fica mais forte a cada dia.

Toda a arrogância da juventude sumiu quando vi aquela garota de 19 anos, meu primeiro amor, morta em uma cama de hospital. Naquele instante, achei que não pudesse existir qualquer coisa pior que aquilo, que aquela seria minha maior lição, que nada poderia superá-la. Mas estava errado. Era apenas o início da lição que demoraria toda uma vida a ser aprendida. Toda uma vida. E se estou escrevendo é porque a lição não terminou.

O Nada estava crescendo mais e mais dentro de mim. Havia dois caminhos possíveis: morrer também (e em vida, a pior das mortes) ou me fortalecer. Tomei este último. Era um caminho escuro, no qual se podia enxergar muito pouco adiante. Não havia qualquer segurança nele. E sentia que o Nada continuava a consumir tudo que existia atrás de mim. Portanto, tudo que eu podia fazer era seguir em frente, lembrando de não deixar a tristeza dominar meu coração ou… todos sabemos.

Sem saber, eu havia escolhido amar.  Sem medida. De um jeito tão sem jeito, que até dá medo. “E tem como amar sem medo? E sem dor? É assim”, talhou, dia desses, um amigo. Pois é… acho que eu havia esquecido.

Por um bom tempo, não conseguia enxergar qualquer coisa. Não respirava. Não sentia. Não vivia. Diferente de tudo que dizia, acreditava e aconselhava, deixei a tristeza dominar meu coração e afundei naquele pântano.  E nem havia percebido. “Mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas…”, diria a Compadecida. Os homens são assim: “começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.”

Medo de amar, de sofrer, de ser traído, magoado, abandonado, sofrer mais. Medo de ter medo. De um monstro perverso pulando às costas bem quando se carrega o fardo mais pesado. O peso pode ser apenas aquele que não tivemos coragem de largar. E passamos a ver em qualquer um aquele que nos deu essa carga. Por medo, também deixamos de ser justos, dando a outro o que não queremos para nós.

Livrei-me do peso e, de repente, tudo estava ainda mais escuro.

Por que está tão escuro? Lembrei da resposta da jovem Imperatriz. “É o começo. É sempre escuro.” Lembrei de seus conselhos, seus conhecimentos. Fantasia pode nascer novamente. De nossos sonhos e desejos. Se eu não souber o que desejar, então não haverá fantasia nunca mais. E quantos desejos posso ter? “Quantos quiser. E quantos mais desejos tiver, mas maravilhosa fantasia se tornará.”

Escutei outra voz, também no escuro, dizendo: “Eu não posso acreditar”. Ela disse isso porque ainda não sabe que faz parte dessa história sem fim. “Não entende que é a única com o poder de parar o Nada.” Não imagina como uma garotinha pode ser tão importante. Livre-se do peso. Mostre seus medos para que possamos jogá-los para longe. Deixe as armas também. Nesse caminho, se entra leve e totalmente livre.

Por último – e para começar! –, é preciso dar um nome à fantasia. Escolhi um que é como Deus. Agora é só dizê-lo alto. Seguir os sonhos, alimentá-los.

De uma vez por todas, me recuso a ser enterrado vivo. Agora e sempre, no meu Amor, o dia nasce. Sempre no meu sempre, a sua presença.

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2 respostas a A história sem fim

  1. Henrique disse:

    Diante de tanta beleza, o que dizer?

    Vou agora dormir inspirado. A vontade é de escrever até de manhã, mas escolho sonhar com essa história sem fim que começa e…

  2. Wilson Natale disse:

    Meu avô deixou-me uma frase como herança: “Só se perde aquilo que não se teve.”
    É verdade. Tudo o que tivemos, de uma maneira ou outra, nas lembranças, fica conosco.
    E mudanças, novos começos são mais importantes que o recomeço. É o novo, a expectativa. É a incerteza que torna a vida excitante.Começar é sempre um parto. E, como no parto, a gente chora, sofre. É o conforto da escuridão aconchegante confrontando-se com a luz da realidade. E não há comoimpedir, resistir.Temos que seguir em frente. Feliz daquele que sabe tirar proveito de todos os caminhos da vida. Nada na vida é perda. São ganhos àqueles que sabem aproveitar. A vida flui entre lágrimas e risos.É a ida em toda a sua plenitude. É assim que eu gosto dela. vivê-la por inteiro e não pela metade.
    As vêzes é difícil… É escuro. Mas a vida sempre amanhece.
    Abração,

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