Diário de São Pedro (IX) – De seus habitantes

Esta temporada de outono em São Pedro foi melancólica. Não triste, mas pensativa. Diria meditabunda, se a palavra não soasse estranha.

Durante as caminhadas, fui me identificando com os moradores da Aldeia. Não os humanos. Não costumo me identificar com humanos. Os cães, as aves. Quando retornava, eles sempre estavam em minhas fotos preferidas. Sempre solitários, com olhares distantes, meditativos. Nunca tristes. Sempre sós, buscando silêncio, com o espírito em outro lugar. Provavelmente algum que não conhecem. Para além da linha do horizonte.

Enquanto os cães apenas olham, as aves tentam ir até ela. Mas ela nunca chega. A linha está sempre distante. E o sol vai sumindo. Cansa voar em sua direção. Acabam retornando. Queriam ter a resignação dos cães.

Estes já se aconchegaram a uma rede. Agora olham para o céu estrelado. Sabem que daqui a algumas horas a luz vai voltar e eles poderão olhar de novo para o horizonte. Continuarão sonhando com aquele lugar que não conhecem. Queriam ter asas como os pássaros.

Ficamos todos pacientemente sujeitos a esses pequenos sofrimentos de não estar exatamente onde queremos.

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Uma resposta a Diário de São Pedro (IX) – De seus habitantes

  1. Mais palavras para quê?! A tua última frase resume a materialidade humana…
    Beijo, saudades…

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