Aqueles marços

Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990.

Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser considerado um grande evento: o lançamento de um comercial da Pepsi estrelado por Madonna. No dia seguinte, no mundo real e do qual eu fazia parte, o curso de jornalismo da UFRN inaugurava seu laboratório de rádio e TV, nos fundos da Biblioteca Zila Mamede. Depois de acanhados comes ali, parte da turma foi para os bebes no Chernobyl (Chernô, para os íntimos) ,o bar dos malucos, que ficava na Ponta do Morcego, na Praia dos Artistas.

Naquele março, pensava em dar continuidade ao jornal Graúna, mas fiquei só na vontade. Também fiz uma descoberta que deixei registrada na agenda, no dia 8: “Como guitarrista, sou um ótimo jornalista”. Agradeça por eu não ter à mão uma foto que me mostra com mullets, sem camisa, com um bermudão vermelho, segurando a guitarra e encostado a uma parede com posters de Stallone e Schwarzenegger. Eu achava que era o Lulu Santos, mas queria mesmo ser um dos dois fortões.

Para o fim de semana, fazia planos de ir à Flash, uma boate que era “o point”, em Natal, no fim dos anos 80. Não registrei se fui, mas assisti alguns filmes em casa: Weekend Warriors, uma comédia idiota; Twice in a lifetime, uma drama com Gene Hackman e Ann-Margret; e Salsa – O filme quente, grande clássico com o ex-Menudo Robby Rosa. Na terça seguinte, 14, tentei me redimir disso assistindo The Corsican Brothers, este, sim, um clássico, de 1941, com Douglas Fairbanks Jr. interpretando irmãos siameses que haviam sido separados e criados em lugares diferentes. Um, vira um cavalheiro; outro, um bandido.

A semana seguinte começaria com uma notícia triste. Na manhã do dia 20 de março, uma segunda-feira, morria a atriz Dina Sfat. Na terça, eu assistia pela milésima vez uma comédia romântica que ainda hoje acho muito bonitinha: Alguém muito especial (Some Kind of Wonderful), do mestre dos filmes adolescentes John Hughes. Ainda que a cada mês dos últimos vinte anos tenham lançado um filme sobre o esquisito que se apaixona pela garota mais popular do colégio e não percebe sua amiga apaixonada sofrendo bem a seu lado, nenhum chegou perto da mestria de Hughes. A abertura (logo abaixo) é uma de minhas preferidas dentre os filmes do gênero. Em três minutos, sem uma única palavra, Hughes apresenta os personagens, a sinopse da história e dá o ritmo do filme.

Em parágrafo único, tomando quase toda a página do dia 23 de março, dava um ultimato a mim mesmo: “Colocar a vida em ordem”. Nas duas páginas seguintes, fazia uma longa lista do que precisava fazer naqueles dias. A cada dois itens, um se repetia: “Fazer a resenha”. Trauma de nove entre dez universitários, para mim, isso não chegava a ser um problema, mas eu estava em atraso com uma para Sistemas de Comunicação no Brasil II, disciplina do saudoso Rogério Cadengue, um dos grandes e verdadeiros professores que tive, desses que ensinam muito em sala de aula e mais ainda em mesa de bar. O livro era Carnavais, Malandros e Heróis, que até hoje indico não só a alunos de Comunicação, mas a qualquer um interessado em compreender certos aspectos culturais brasileiros. Tinha que me apressar, pois no domingo havia uma estreia imperdível na TV: Domingão do Faustão. Mais da metade dos televisores do país estariam ligados no contra-ataque da Globo à supremacia dominical de Sílvio Santos. Nós, os ingênuos, acreditávamos que Fausto Silva iria nos salvar da leseira e da mesmice que imperava nas tardes de domingo. Claro! Aquele gordo sacana do Perdidos na Noite iria avacalhar com tudo. Não. Aquele gordo sacana iria se encher de dinheiro e fazer exatamente o que lhe mandassem: ser o idiota do outro canal. Deixa pra lá,…

… passemos a março de 1990, iniciado com mais um filme que eu deveria ter vergonha de contar que assisti: Retroceder nunca… render-se jamais!, que marcava o início da era Jean-Claude Van Damme. Na mesma linha, assistiria naquele primeiro fim de semana a O Grande Dragão Branco (filme seguinte de Van Damme), O Voo do Dragão e A Fúria do Dragão, estes com Bruce Lee (em O Voo… tinha ainda seu discípulo, Chuck Norris). Não entendi o motivo de ver tantos filmes assim nessa época até ler uma carta na qual eu explicava que Fabíola, minha namorada, gostava do gênero. Em seguida vieram Indiana Jones e a Última Cruzada e Willow – Na Terra da Magia. Os clássicos também tinham vez. Eu e Fabíola iniciamos um grupo para debates com exibição de filmes no laboratório de TV. Na estreia, com A General, de Buster Keaton (texto anterior), quase todos dormiram. O segundo, último antes de desistirmos dessa insanidade, foi A Felicidade não se compra, de Frank Capra, outro desses que guardo no coração e assisto uma vez por ano – sempre no Natal, claro! – para testar se ainda sou humano.

Meus apontamentos mostram que eu lia muitos livros sobre cinema. Também frequentava outros grupos (menos sonolentos) de estudo. Quem me conhece dessa época, até hoje me cobra que escreva para cinema. Não digo que isso não venha a acontecer, mas não chega a ser uma pretensão. Nas duas décadas seguintes, tornei-me principalmente um amante, um apreciador de filmes que muito raramente vê algo que não o (me) agrade. Os cinemas de shopping com seus animais barulhentos me afastaram quase completamente das salas de exibição, a pipoca americana passou a último lugar na minha lista de possibilidades a serem assistidas e Fellini se tornou minha divindade absoluta. Antes de assistir a um filme, pergunto a ele se posso. Se não mordo a língua nem fico com o corpo paralisado, é sinal de que ele deixou. Recentemente, quando perguntei sobre Nine, senti meu coração sendo esmagado. Até hoje, não tive coragem de ver a tal “homenagem”.

Ainda naquele março de 1990, no dia 15, vimos a posse de Collor. Para minha geração, o primeiro presidente eleito por voto direto. No dia seguinte, uma sexta, o país parava para assistir as explicações sobre confisco da poupança e outras medidas impostas pelo Plano Brasil Novo, que ficaria conhecido como Plano Collor. O Cruzeiro voltava e, com ele, o desespero de muita gente. O depois, todos conhecemos.

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2 respostas a Aqueles marços

  1. márcia disse:

    e as águas, vão fechar o verão?
    água = emoções + terra = fecundidade.
    … até que nem tanto esotérico assim…

    beijos,

  2. Edmar disse:

    Olá Sandro,

    realmente pensei que tinhas sumido, mas é bom ver seus textos, que sempre me intrigam pela quantidade de detalhes,

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