Dias (e filmes) melhores virão

ageneral

Morreu Lampeão. E foi épico”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal A República, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “Acabar de datilografar o texto de Lampião”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com ácaros. Focinho enfiado em jornais antigos, copiava os artigos à mão para depois datilografar em casa. Nem em meus sonhos mais Clarkeanos (do Arthur C., não do Kent), me imaginaria, quase década e meia a frente, clicando centenas de páginas, em uma tarde, com uma câmera digital do tamanho da palma de minha mão.

Os apontamentos daquele fevereiro denunciam planos nunca terminados como a eterna retomada às aulas de inglês e a incapacidade, hoje parcialmente vencida, de cumprir o que prometia a mim mesmo: Segunda, 13 – “Tentar” fazer o que deixei de fazer ontem; Terça, 14 – Tentar fazer o que não tentei fazer ontem que é justamente o que eu não fiz anteontem e, mais adiante, no fim da página, Saldo do dia: não fiz nada. O humor e a mania de ironizar os próprios defeitos também já se faziam presentes.

Em quase todos os dias, havia uma “reunião”. Sempre em um bar. Era a velha escola do jornalismo e da política estudantil. Marcávamos a reunião, bebíamos todas, decidíamos nada e marcávamos outra reunião para fazermos tudo isso outra vez. As anotações sobre o vai-e-vem de cartas era outra constante. Chegavam também postais da Paraíba e do Maranhão, enviados pelos novos colegas que havia feito no Enecom. E eu sabia quem eram aquelas pessoas? Várias não foram identificadas. Ah, um Orkut! Ah, um Facebook! Um Google que fosse, para dar uma clareada nas ideias. Não havia nada disso. Só a educação em responder e esperar que alguém mandasse uma foto para ser lembrado. Falando em fotos, só vi as feitas com minha máquina – uma Olympus Trip 35 – duas semanas depois de chegar do encontro. Tinha que esperar acabar o filme – 24 ou 36 poses que rendiam! – e ter dinheiro para revelação e cópias. E nada de cópias para os outros. Eram caras!

No dia 20 de fevereiro de 1989 começava mais um semestre e, para não ferir os costumes, os professores não apareceram para dar aulas. Sabe como é… “os alunos não vão, então não vou também…”, emenda com carnaval, feriados, enforca daqui, enforca dali, hoje não dá, até que, no final, as notas se ajeitavam e (quase) todos ficavam felizes seguindo aquela velha regra: os professores fingiam dar aulas e os alunos fingiam aprender. Sempre demos muita importância às tradições nacionais e tínhamos muito orgulho disso.

Naqueles idos, eu ouvia bastante o bolachão Black Celebration, do Depeche Mode. Semestre letivo já iniciado, tentava conseguir uma Pentax K1000 junto ao laboratório do curso. Não lembro se cheguei a fotografar, mas estava presente ao debate com Mário Covas, no dia 27 de fevereiro, no auditório da Reitoria da UFRN. No final daquele ano, o país voltaria a votar em seus representantes políticos. Eu, como a maioria dos meus colegas de faculdade, nem era nascido quando isso havia acontecido pela última vez. Imagine a emoção de, sendo universitário, ter a oportunidade e a liberdade de debater com os candidatos! Um deles seria nosso presidente no ano seguinte.



Mas a posse só aconteceria em março de 1990. É um pouco antes que aportamos, agora, naquele ano. Na terça, 13 de fevereiro de 1990, recebia, pelos Correios, alguns clássicos em VHS, mas só começaria a vê-los no dia seguinte. Naquele dia, a única preocupação era ir ao show dos Paralamas do Sucesso.

A General (1927), até hoje considerado um dos melhores filmes da História do Cinema, foi o primeiro VHS que tirei da caixa no dia seguinte. A obra-prima de Buster Keaton chegava aos videocassetes brasileiros 63 anos depois de exibida nos cinemas. O filme teve várias versões que ganharam ou perderam alguns minutos e pelo menos três sonorizações diferentes. A versão que recebi e guardo até hoje tem uma trilha sonora bem superior a esta que você pode assistir no YouTube. Talvez tenha sido com A General que percebi existir algo além da Sessão da Tarde e do cinema pipoca. Até então, eu consumia filmes. Era filme, mandava para dentro. Mas o milagre não se deu do dia para a noite. Naquela mesma semana assisti Popeye (sei que serei perdoado por este) e Máquina Mortífera II (e muito justamente condenado por este). Uma curiosidade: na sexta-feira, 16, a Globo exibiu Dias melhores virão, de Cacá Diegues, antes de estrear no cinema. Uma maluquice que nunca consegui entender.



No carnaval, que naquele ano caiu no final de fevereiro (24 a 27), passei em Muriú, praia de veraneio do município de Ceará-Mirim (RN). E março… março fica para o próximo capítulo.

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3 respostas a Dias (e filmes) melhores virão

  1. henrique disse:

    Sandro, cada vez mais tenho a nítida sensação que vocÊ tem de assistir ao filme .Apenas o fim. Quem sabe vc não se inspira para fazer algo tipo a ser rodado em Natal. Prometo que me engajo no projeto. Hehehe boa melancolia de domingo. Agradecido.

  2. Kyara disse:

    Caro Sandro,cheguei ao seu site devido a uma pesquisa que estou fazendo sobre Cassandra Rios.Estou querendo muito a autobiografia (Mezzamaro,Flores e Cassis) e não há nos sebos ou livrarias virtuais,nem tb encontrei nas bibliotecas de minha cidade(Campina Grande-PB).Sabes como posso encontra-la?Aguardo ansiosa por resposta.
    abraço,kyara

  3. joão disse:

    Sandro.
    Se você se refere ao Popeye de R.Altaman eu digo que é um bom filme. Pode não ter um bom roteiro, mas o visual é perfeito. Nenhum filme baseado em quadrinhosconseguiu traduzir visualmente o clima de um gibi como ele.Sei que o filme peca em algumas outras coisas, mas o cenario é fantástico.
    ab
    joão

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