Antigas igrejas de Natal

No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só então me dei conta de que não via muitas igrejas católicas em Natal. “Não via” é a expressão mais correta. Elas existem, mas as antigas, que meu olhar estava acostumado a ver, são mesmo poucas. Apenas quatro são anteriores ao século XX. Um detalhe que sempre estranhei: as três mais antigas são vizinhas e estão em um raio de aproximadamente 500 metros.

A seguir, apresento esses quatro templos. As explicações históricas, em itálico, são do capítulo Igrejas e Vigários, do livro História da Cidade do Natal, de Luís da Câmara Cascudo.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação

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A primeirona. Mais ou menos. Ali, na praça hoje chamada André de Albuquerque, foi fundada a Cidade do Natal do Ryo Grande, com uma missa em 25 de dezembro de 1599. O que existia era uma capelinha, de barro socado e coberta de palha, ramos secos entrançados (nesse tempo não havia coqueiros), teria apenas uma entrada, sem sino nem aparato. Em 1614 não possuía ainda portas. Em 1619 estava pronta. (…) Em 1672 pensaram em substituir a capelinha por uma igreja mais sólida e compatível com as necessidades maiores da colônia cristã. (…) Em 1694 a igrejinha estava terminada.

Até aí, estamos no século XVII. Mas a que vemos na foto não tem nada dessa época. Cascudo explica: Quase cem anos voam. Em 1786 há uma remodelação geral. Três anos antes a capela-mor ruíra. Fizeram então as capelas laterais (…). A igreja não tinha corredor nem arcadas interiores. Havia apenas um sino que dormia numa janela na frontaria, ao lado direito da matriz.

Não havia cemitério em Natal. Todos os fiéis eram sepultados dentro da Igreja, nos arredores também junto ao Cruzeiro.

Durante o século XIX a matriz tomou outro aspecto. Em abril de 1856, o presidente Passos criou o cemitério e adquiriu, por subscrição, um relógio para a planejada torre inexistente. Em 1862 começaram a levantar a torre (…) A torre é de 1862. Está a data ao cimo da respectiva porta.

(…) Essa série de remodelações retiraram da matriz todas as características. É uma igreja comum e banal, sem detalhes típicos e fisionomia (…). Resta a tradição, que é nobre e linda. Está no mesmo local de mais de quatro séculos.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

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Fica, aproximadamente, a 300 metros à direita da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Não a conheço por dentro. Nunca a vi aberta. Tenho profunda simpatia por ela. Talvez por ser, verdadeiramente, a mais antiga da cidade. Em 2010, completará 296 anos. Os registros históricos e a placa ao lado de sua entrada dizem que foi inaugurada em 2 de julho de 1714.

Diz Cascudo: A igrejinha de Nossa Senhora do Rosário é o mais humilde dos templos dentro da cidade do Natal. Pequenina, pobre, com sua torrezinha quadrada, sua imposta no frontão, ao gosto melancólico dos velhos oratórios, passa sem registros nas crônicas de outrora. (…) É a igreja mais bem situada. Erguida num cômoro (outeiro), recebe o primeiro olhar do rio (…). É o tipo da igreja primitiva, o simples caixão, com a nave, sem transepto, e a torre, mais convencional que útil. (…)

Era, antes de tudo, a igreja dos pretos, dos pobres, dos escravos. (…) Também era o local sagrado dos casamentos, dos batizados, das festas dos que nada possuíam. (…) Ali, Nossa Senhora era exclusivamente dos deserdados, dos miseráveis, dos esquecidos.

Igreja de Santo Antônio dos Militares (Igreja do Galo)

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Em minha opinião, a mais charmosa igreja de Natal. E, pelo que percebo, a preferida para os casamentos. Se a do Rosário foi construída para os pobres, a de Santo Antônio foi feita para os ricos. É datada de 15 de julho de 1763.

Sobre a porta principal do templo há uma data: agosto de 1766. Deve significar o fim da construção. A torre nasceu depois. Uma inscrição no cimo da porta da torre informa que em janeiro de 1799 esta se concluía. (…)

É a mais linda da cidade. Sua torre, encimada de azulejos reluzentes, com o galo heráldico, como um timbre numa cimeira feudal, a majestade do frontão com os motivos em arabesco, num barroco sugestivo e que se convencionou chamar jesuítico, as tochas estilizadas na cimalha, os desenhos em relevo, correndo e volteando a frontaria, dão um aspecto de majestade simples, imponente, mas acolhedora e simpática.

Sua proximidade com a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação sempre me impressionou. De sua frente, é possível ver a lateral da Matriz a uns cem metros apenas. Não me lembro de duas igrejas tão próximas em qualquer outra cidade que conheço.

Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores

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A matriz do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira é a última das igrejas vindas do século XVIII. (…) Na segunda metade do século XVIII era capela.

Cascudo diz que o mais antigo documento que havia encontrado sobre a essa igreja era “um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores”. Ele diz também que “apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais”.

De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano Frei André, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Tem, portanto, um aspecto comum a outros templos construídos nessa mesma época, como as igrejas de São Pedro, no bairro do Alecrim, e a da Sagrada Família, nas Rocas.

Sobre a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores, leia também este texto meu, escrito na década de 90 e publicado aqui no blog. A respeito das igrejas do início do século XX, pretendo falar em outra oportunidade.

Veja aqui mais fotos das antigas igrejas de Natal.
E também no álbum Natal Antiga do Flickr Memória Viva.

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3 respostas a Antigas igrejas de Natal

  1. wilson natal disse:

    Igrejas antigas fascinam a muitos. Outros a olham como fosse coisa velha, sem entender que essa “velhice” chama-se História. História de toda uma cidade. Mais que um templo de devoção, ela era um dos setores do estado (não havia separação entre Igreja e Estado). Igrejas representavam as Freguesias. Elas tinham a função de Cartório Civil. Nelas estavam os registros de casamentos, nascimentos e óbitos. Pela documentação dos templos complementava-se o Censo da população.
    Não sei se o Arquivo do Estado de Natal. Possui um arquivo sobre INVENTÁRIOS E TESTAMENTOS.Se tiver, vale dar uma olhada para sentir como era a vida das pessoas nos primeiros tempos da Vila – hoje cidade, e sentir a importância de um templo para aqueles antigos moradores.
    Acredito que a Cúria Metropolitana de Natal tenha os LIVROS DE TOMBO dessas igrejas e conventos. Nesses livros, apaixonantes, temos uma visão do dia-a-dia da vida de um templo: Descrição dos bens, contabilidade; reformas, acréscimos, membros que compunham a Ordem, etc..
    Ai, nos templos, está toda a cronologia da História de Natal.
    Muitos dizem que, no Brasil os templos coloniais são todos iguais. No entanto, eu vejo em cada um uma personalidade própria.
    Todo o templo colonial seguia as regras rígidas de construção dos Inacianos (Jesuítas). Construções feitas para o uso a que se destinava. Hoje dizemos “clean”. E todos evoluíam de uma pequena capela de troncos, ou barro, coberta de palha, para um templo jesuítico feito com taipa de pilão e, com o passar do tempo, reformas, acréscimos vão lhe dando personalidade própria. Acrécimo de “olhos”, rosetas, decoração floral, de volutas e o velho templo adapta-se ao Barroco (Rococó). As torres moçárabe ou muchárabe vão evoluindo para o gótico, templária (militar) ou para o estilo italiano (sienense).
    E assim, com eles, a História de uma cidade passa pelos séculos e chega ao século XXI, como a dizer: Somos nós, sempre, que fazemos uma cidade!
    E você, com três igrejas, deu-nos uma lição sobre a História de Natal. Só não contou a que serve aquele edifício contíguo a Igreja de Santo Antonio dos Militares.
    E que bom! Alem de ler o teu texto, ver as fotos, tivemos uma lauta sobremesa: a intervenção do Câmara Cascudo.
    Abração e, desculpa ai pelo textão. 🙂

    Wilson

  2. Danina disse:

    A igreja do Rosário dos Pretos soh abre aos domingos, às 8 da manhã.
    É a única missa que tem.
    Eu morava em frente a ela e acordava de ressaca todo domingo com o sino tocando…
    =D

  3. A Igreja do Rosario é a mais linda de Natal, de frente para a boca da barra, agora cortada pela ponte Newton Navarro. Ela está na capa do meu livro A Agulha do Desejo, em ilustração de Flávio Freitas.

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