As pessoas mudam e esquecem de avisar aos outros

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Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado de muita atenção e cuidados para se manter vivo.

Ter falado sobre Natal e das mágoas em nosso relacionamento parece ter excitado alguns demônios.  Em poucas horas, manifestaram-se quase todos os citados. Isso fez com que com outro texto que não queria sair resolvesse dar as caras. Ele fala, principalmente, a respeito de dois temas: a limitada e estagnada visão das pessoas e o triste impulso de alimentar mágoas. Aliados, esses comportamentos conduzem a uma estrada sombria, na qual não se enxerga o todo, nem as pessoas transitando nela, que acabam parecendo monstros.

A visão limitada e estagnada – Minha vida sempre foi muito dinâmica, repleta de mudanças. Morei no Rio, em Natal, em Brasília, em Campina Grande, morei em umas vinte casas, trabalhei em dezenas de lugares, tive três casamentos, um sem número de mulheres nas entressafras, cabelo na cintura, cabelo moicano, mullets, cabelo algum, frequentei clubes, sociedades e grupos variados… Reconheço que a visão limitada que o ser humano costuma ter somada a uma vida assim não permita que alguém me conheça mesmo muito bem. Há ainda o agravante de que sou um cara extremamente reservado. Viu? Você achava que não pelo fato de eu escrever abertamente a respeito de minha vida? É a tal visão limitada, que não precisa ser obrigatoriamente um defeito, mas apenas algo que faz parte de nossa condição humana. Pois é. Sou muito fechado. Só convivendo muito perto de mim se percebe isso. E o engraçado é que só as raras pessoas a quem proporcionei alguma (ou muita) abertura é que podem dizer: “Ele é muito fechado!”

Sinto de forma mais evidente essa deficiência da visão quando estou em Natal. Passei quase uma década sem contato com muita gente da cidade. Há pessoas que me veem como o cara esquisito de 15 anos de idade que apareceu de cabelo moicano no Salesiano, em 1987, e quase foi expulso por isso. Outras querem ver o Lobão de cabelos compridos que pegava-uma-pegava-geral na faculdade. Adicione a isso os preconceitos e fantasias de cada um e o desastre está feito: cabeludo = drogado, pegava geral = canalha, carioca = malandro, etc. Como já contei aqui, rolava até uma história de que eu me picava (com heroína) e saía nu, pilotando uma moto nas madrugadas de Natal. Se alguém acreditou nisso e passou uma década ou mais sem ver a figura, o que esperaria dela agora? Vamos ficar na realidade e fazer uma pergunta bem simples: como posso agir como um garoto de 15 anos quando tenho uma filha com mais idade que isso? Impressiona-me a dificuldade em perceber o óbvio: as pessoas crescem, envelhecem, mudam. Algumas até evoluem! Pode acreditar.

Tenho estado muito cansado de, para parecer sociável, encarnar esses velhos personagens que as pessoas querem ver. Até porque isso reforça a ideia de que o tal personagem existe. E quando se dá o que os outros esperam, quem surge? O chato ou o estranho. E aí estão novos e também fantasiosos personagem. Pior ainda quando alguém teve uma convivência de dias, semanas ou alguns meses, séculos atrás, teve algum desentendimento e coloca isso como A verdade absoluta, o carro-chefe da sua personalidade. É muita cegueira para dar conta. Já me basta minha miopia.

O Sandro de hoje é um cara cansado de gente, que não gosta de barulho, que adora passar muito tempo lendo, escrevendo e assistindo filmes, preocupado com os três filhos e que passa grande parte do tempo em pesquisas biográficas. Tirando os filhos, é um cara muito parecido com o de 20 anos atrás… mas que quase ninguém percebia. Muita coisa mudou. Ficou a essência. E tudo que posso fazer é ser eu mesmo. Cansei de vestir as máscaras que costumam me dar. Desculpem-me, mas não rola mais.

Há o outro lado: o da minha visão em relação ao outros. Não quero parecer diferente ou sobre-humano.  Talvez até seja uma deficiência de minha parte. Na maioria das vezes reencontro as pessoas como se as estivesse vendo pela primeira vez, mas com um sentimento inexplicável de que já passamos bons momentos juntos. Simplesmente gosto delas e estou pronto para brincar. Não espero que sejam perfeitas, não espero que me deem algo. Na verdade, não espero qualquer coisa. O que vier, será bem-vindo.

Nos últimos anos, devido às constantes pesquisas biográficas, também fui submetido a um aprendizado que considero dos mais importantes em minha vida: o de que cada pessoa tem sua versão para um mesmo fato. Parece muito comum, não? Você já sabia disso, eu sei, mas quando se está escrevendo sobre a vida de alguém e se escuta a narração de um fato de dez formas diferentes, isso se torna verdadeiramente impressionante! Você nunca mais esquece a lição. A linha condutora é a mesma, as pessoas viram as mesmas coisas acontecendo, mas para uma, fulano estava lindo e era divertido; para outra, mal arrumado e grosseiro; para uma terceira, era o centro das atenções; a quarta, mal percebeu sua passagem; a quinta parece saber o motivo de ele agir daquele jeito… Que jeito? E aí começa tudo de novo. Cada um viu de um jeito diferente. Com carinho, com graça, com amor, com raiva, com desprezo… E eu, que nem estava lá, fico com o grande presente de assistir a cena de vários ângulos, de uma forma mais rica e completa, como ninguém viu. Isso me ajudou bastante a não julgar alguém por uma ação, um momento, um período ou, muito menos, pelo que alguém falou.

O triste impulso de alimentar mágoas – Continuo acreditando que alguém só pode ser magoado por uma pessoa que ame ou, no mínimo, por uma pessoa de que espere um comportamento de carinho, aproximação, amizade ou algo afim. Não guardo mágoas. Já fui traído, roubado, sacaneado, enganado e não guardo qualquer mágoa. Sou um santo? Não. Apenas tenho consciência de duas coisas: a mágoa faz mal a mim (e não a quem a causou) e se alguém me magoou foi por ignorância (se realmente soubesse o que estava fazendo, não o faria).

Já tive profundas e duradouras mágoas de uma ou outra pessoa. Já as alimentei, fiz crescer e sofri bastante por isso. A mágoa é um bicho que corrói por dentro. Quando você vê, já corroeu seu coração. Livrei-me dela antes que isso acontecesse. Como? Tratando do item anterior: da visão limitada e estagnada. Por que a pessoa me magoou? Quais motivos teve para isso? O que a levou a isso? Como era sua vida na época em que causou essa mágoa? Por que não evitou que acontecesse? Fazendo tais perguntas, procurando entender mais do que simplesmente a ação que gerou a mágoa, provavelmente você chegará à óbvia conclusão de que as pessoas não são perfeitas. Elas erram. Com isso, machucam os outros. Se sua visão estiver ainda obscurecida o bastante para não deixá-lo enxergar isso, troque a posição dos personagens e lembre-se da mágoa que você causou a alguém. Por que você magoou? Quais motivos teve para isso? Como era sua vida na época? Por que não evitou que isso acontecesse? Conseguiu as respostas? Acha que é digno de perdão? Dê essa oportunidade a quem o magoou.

Às vezes, uma nova mágoa tenta se instalar, mas costumo perceber o ataque e cortar o mal em seu início. Essa parte, até julgo fácil. O que me entristece é quando percebo, em outra pessoa, a mágoa causada por mim. E não posso esperar dela a mesma disposição que tenho em me livrar desse sentimento. Mais triste ainda é quando você nem sabe o que fez para causar aquilo e já se depara com algo gigantesco. O pior é que, muitas vezes, nem a pessoa magoada sabe o porquê daquilo. O que poderia ser algo resolvido em uma conversa de poucos minutos se transforma em um monstro cheio de raiva, sempre pronto a causar novas mágoas. A única forma de se amenizar isso é ter uma profunda Compaixão. Compaixão em sua forma mais nobre e pura.

Como disse no início do texto, tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Queria que fosse algo tão forte, que não se abalasse com a formiguinha ou com o vento. A Compaixão não tem essa capacidade de crescimento da mágoa. Ela não se instala com facilidade, nem vai crescendo descontroladamente. Ela necessita de cuidados, de atenção, de ser alimentada delicadamente. A Compaixão é um eterno bebê: frágil, mas capaz de fazê-lo esquecer qualquer coisa apenas com um sorriso. Cultive essa criança dentro de você.

Meu melhor sorriso de bebê a todos.

* * * * * * *

O título deste texto é uma frase da escritora norte-americana Lilian Hellman.

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5 respostas a As pessoas mudam e esquecem de avisar aos outros

  1. Suspeito que não irão “brotar” muitos comentários para este texto. Ou talvez os comentários só comecem a surgir depois de alguns dias. Ou semanas. De certeza que você não ponderou isto tudo em algumas horas. Mas sim ao longo de um processo de vivência e aprendizagem pessoal de décadas.

    Creio que nenhum de nós foi ensinado (nem por família, nem religião, nem moral nenhumas) a lidar com a mágoa. Nem a nossa, nem muito menos a dos que nos são próximos. Eu mesmo só estou a comentá-lo porque estou a atravessar por um processo (forçado pela mágoa de quem amo) parecido de identificação com o ato de magoar. Sem intenção disso. A princípio.

    O que posso acrescentar é que, amigo, é penoso. Ninguém (que eu conheça) pensa sequer em admitir que quer magoar a quem ama. Mas faz. E justifica-se para si mesmo, suponho que de forma inconsciente, lembrando que já foi alvo de incontáveis mágoas. Ainda que a origem não tenha sido a pessoa que ame.

    Por outro lado, me surpreende apenas o por quê de você utilizar como alegoria a historinha do Piteco (tive-a durante muitos anos num almanaque do Cebolinha), claramente inspirada no mito platonista da Caverna, que eu utilizo ocasionalmente como ilustração de aulas de Fotografia(!) Confesso que as minhas limitações não me permitiram compreender a sua intenção ilustrativa ehehehe.

    Também não creio que muitos se aventurem a comentar, apesar acreditar que TODOS irão se identificar. São temas “espinhosos”, que, em geral, preferimos esconder a discutir. Infelizmente, esconder a mágoa só serve para fazê-la crescer.

    Sim, toda essa ponderação é fruto de, pelo menos, duas décadas. Vez por outra falo a respeito (ao final, há textos anteriores relacionados), mas desta forma, mais direta, vinha tentando falar há pelo menos seis meses. Agora, o texto finalmente foi vomitado, como de costume.

    Você vai direto ao ponto quando diz: “Ninguém (que eu conheça) pensa sequer em admitir que quer magoar a quem ama. Mas faz. E justifica-se para si mesmo, suponho que de forma inconsciente, lembrando que já foi alvo de incontáveis mágoas“. “Inconsciente” define bem. É um ato praticado sem consciência, de forma irresponsável, sem conhecimento claro de seus efeitos. Só um porém: você conhece pelo menos uma pessoa que faz questão de admitir e resolver. 😉

    Quanto ao Piteco e a Alegoria da Caverna, é para ilustrar como, normalmente, vemos somente as sombras das pessoas e como também vivemos nelas (nas sombras), sem nos importarmos em trazer luz a nossa visão, ao nosso entendimento. O quadrinho que usei me pareceu cair bem para o texto já que abordei também minha vontade de não mostrar mais aquela sombra que as pessoas querem ver. Meu eu verdadeiro se apresenta: “Não querem apreciar a vida? Aqui tem uma de verdade! Eu!”

  2. wilson natal disse:

    Como a Lilian, neste “post” você fez o seu “Pentimento”. Complementando o meu comentário do “post” abaixo, acabei por comentar este.
    Assim mesmo, vou deixando aqui uma frase: Carvalhos são selvagens e o bonsai é tão frágil que precisa de cuidados, atenção, exatamente como nós mesmos.Eu prefiro ser um bonsai que, certamente cuida de outros, do que viver a solitária liberdade de um carvalho.
    Abração,

  3. Henderson disse:

    Meu caro Lobão (ou Sandro),penso que,como estamos mais velhos ou mais esperientes,
    e isso, para alguns é uma evolução, para outros é uma grande dificuldade, e o pior, continuam a viver e a buscar uma jovialidade perdida.
    Hoje somos pais, maridos e tudo que a gente quer é ter uma vidinha tranquila, seja lá o que isso significa.
    È meu velho, ainda somos os mesmos e vivemos…

  4. Sandro,

    Olha eu aqui numa noite de sábado, lendo seu post…
    Estou ficando seletiva, estou buscando coisas que nem sei ao certo aonde estão.Estou desenvolvendo características e “polindo” sentimentos. Creio que o tempo seja nosso aliado, apesar das muitas perdas, se colocarmos na balança os ganhos ainda são maiores.
    Estamos adquirindo sabedoria, meu amigo.
    Amei seu texto e me identifiquei com muitas coisas. O Exercício da compaixão é uma delas.O perdão. Aceitar o outro, realmente, com os seus defeitos.
    A mudança de atitude de não viver mais papeis,nem usar máscaras. Cada mudança profunda dessas desencadeia uma série de coisas, é uma verdadeira “teoria do caos” em nossas vidas.
    Bom, depois de ler mais esse post, posso dizer que cada dia gosto mais de você. Você pode parecer um cara reservado,mas escreve sobre as suas observações da vida,das pessoas, como poucos.Sua válvula de escape é a escrita e por meio dela que você se expõe.
    Aprendi nesses trinta e tantos anos que a felicidade só poderia realmente existir se todas as pessoas,ou todos os seres, pudessem participar dela. Então busco valorizar todo o meu caminhar,a minha felicidade está nessa busca. E a compaixão é colocar-se ao lado do outro, sem qualquer tipo de julgamento, só com a vontade de aliviar o seu sofrimento.
    Vivendo e aprendendo, que bom, pois não quero ser daquelas pessoas que vivem na caverna, como na Alegoria da Caverna de Platão.
    Obrigada por compartilhar conosco tão lindo texto.
    Christiane Angelotti

  5. Buca Dantas disse:

    boy, agradecido pelo texto…tô exatamente nessa fase de avaliar mágoas brabas…mas as verdades são múltiplas mesmo e daí que o jogo de se inverter os papéis é a chave.

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