Baú de cartas

envelopes

Janeiro de 1989 estava terminando. Eu havia voltado do famigerado Eneconha de João Pessoa e, na segunda-feira seguinte, dia 30, tentava voltar ao normal, se é que podemos chamar de “normal” qualquer coisa naquele tempo. A turma do Centro Acadêmico marcou uma reunião para fazer um balanço do que havia acontecido no Encontro Nacional, mas… se balançasse muito, acabaríamos vomitando. Ainda estávamos de ressaca.

No último dia do mês, assisti Os Garotos Perdidos (The Lost Boys). Também tínhamos filmes com vampiros nos anos 80, mas eram menos bobos que os de hoje. Dormir o dia todo. Festa a noite toda. Nunca envelhecer. Nunca morrer. Era divertido ser vampiro ou adolescente naquela época e as regras valiam para ambos.

Fevereiro começou com filme. Dia dos Mortos (Day of the Dead), do zumbizólogo George A. Romero. É, também tínhamos zumbis (se você curte Romero e o gênero, assista Zumbilândia, que está nos cinemas). Na sexta, 3, eu registrava na agenda: Stroessner é derrubado. O militar golpita paraguaio sofreu um golpe militar e foi desancado do poder após 35 anos. Não estava muito a fim de pensar naquilo e, no final de semana, coloquei em prática minha sanha adolescente por filmes em VHS. Vi Home of the Brave, show da louca Laurie Anderson (sim, eu era um adolescente antenado); Super Xuxa contra o Baixo Astral (sim, eu era um adolescente retardado); e Je vous salue Marie (sim, eu era um adolescente intelectualizado e que caía por terra aos pés de um filme de Godard).

Na segunda-feira, 6 de fevereiro de 1989, duas anotações na agenda. A primeira dizia: Stroessner está no Brasil (sua presença é um tanto “incômoda”). Ele ficaria por aqui até sua morte, em 2006. Na outra: Passei a tarde e a noite redigindo cartas.

Sim, cartas! Fico imaginando como a geração dos meus filhos chegará à idade adulta sem ter uma caixa de cartas e de fotos para lembrar as aventuras. Deve procurar nos e-mails, mas talvez já não existam ou, se existirem, não deverá entender o dialeto em que escrevia. E as fotos? Tantas e tantas, mas os amigos nunca mandavam. E as feitas por eles mesmos? Perdidas em algum HD que deu pau. Triste fim da memória.

Eu escrevia muitas cartas. Alucinadamente. Quase sempre em máquina de escrever, pois minha letra já era uma desgraça. O hábito de trocar correspondências começou em 1986, quando me mudei do Rio para Natal, mas se intensificou em 1990. Em fevereiro daquele ano, minha principal correspondente era Márcia Cristina, colega dos tempos de ginásio. A partir das cartas e de telefonemas (geralmente de minha parte, no meio da madrugada), começamos a construir uma sólida amizade que dura até hoje (não é, cachorra? Eu sei que você está lendo isto! ). A propósito, estávamos falando – por MSN e Skype – enquanto eu escrevia.

As cartas também resistiram a essas duas décadas e, hoje, nos contam histórias de dois adolescentes: um porra-louca que fazia Jornalismo e apaixonadíssimo pela namorada; e uma garota contida, em dúvida entre Medicina e Jornalismo, que acabaria fazendo Direito.

Há poucos dias, Márcia digitalizou as cartas que enviei e pude encaixá-las em suas respostas. Na primeira delas, a história do Enecom, ocorrida no ano anterior, ainda rendia. Fiquei impressionado como muito do que escrevi na carta, vinte anos antes, estava da mesma forma no texto da semana passada! Não havia divergências ou acréscimos na repetição da narrativa. Só alguns pontos que haviam ficado esquecidos, como as manhãs durante o encontro: Todo dia eu acordava cedinho, fazia duas marias-chiquinhas e acordava as delegações do Maranhão e Campina Grande, saltitando entre os corpos estendidos nos colchões enquanto, na porta, um coro cantava: “Bom dia, amiguinhos, já estou aqui/ tenho tantas coisas pra nos divertir…

Contava também, ainda sobre 89, que já estava me acostumando com a ideia de ser uma versão macho da Christiane F. quando uma providencial greve, na universidade, me afastou daquela vida bandida.

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A criaturinha era Fabíola e eu falava a seu respeito em 80% do conteúdo de cada carta que escrevia a Márcia.  Em fevereiro de 1990, eu a apresentava…

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Vocês também vão saber mais sobre essa e outras histórias. Continuarei a lembrar, com ajuda das agendas e das cartas, no próximo sábado.

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3 respostas a Baú de cartas

  1. wilson natal disse:

    Estes são tempos de e-mails…
    Minha caixa do correio está morta.Decomposta, virou lixeira: Depósito de papéis anunciando tudo quanto é porcaria que esta cidade tem a oferecer. Propaganda de supermercados, pizzerie;ofertas imobiliárias. Propagandas, propagandas!… E “popagranda” de tarólogas,mães de santo, Vó Naná – todas dispostas, por um preço módico, a resolver os “pobremas” da nossa vida e o da vida delas, claro. Tudo muito impessoal: AO MORADOR…E assim, a minha “lixeira-correio” vai-se enchendo de missivas vazias. E eu,para ter certeza que sou EU mesmo, , que moro aqui,não coloquei minhas contas no débito automático. Assim, tenho certeza que existo.
    Nostalgia… E muita! Dos tempos dos bilhetes/bilhetinhos, Cartas longas, curtas, epístolas… Cartas de Amor.
    Frugo nos meus guardados,no meu baú de saudade,velhas cartas,cartões e postais – relíquias de casa velha, diria o Machado de Assis. Cinzas dos CORREIOS,onde encontro a letra viva dos que partiram há muito tempo.E encontro a mim mesmo.
    Cartas e mais cartas acomodadas em uma caixa de charão. Preciosidades que o correio enviou.
    Hoje temos o e-mail. Das caixas e CORREIOS,temos lembranças, temos música: “Quando o carteiro chegou, o MEU NOME gritou, com uma carta na mão…” “Rasgue as minhas cartas e, não me procures mais…” “Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor…”
    E o e-mail? Eu acho ótimo! Pena que não se possa manuseá-lo, sabendo, com prazer,que aquele envelope foi postado pela mão de quem muito amamos ou pelas mãos de nossa grande paixão. Feliz daqueles que têm os seus guardados! Pois eles têm lembranças,têm memórias. Têm histórias!
    Abração,

  2. Thiago disse:

    Cara, estes teus textos nostálgicos estão QUASE me inspirando a fazer o mesmo, e começar a remoer minhas caixas de lembranças. Cartas e diários, meu Deus!

    Faz parte do plano! 😉 Vou me esforçar e incentivá-lo a começar logo!

  3. Buca Dantas disse:

    rapaz, rapaz…sei não…[pause da uns 3 minutos]…filme de Xuxa? e não foi pornográfico??? que decepçãããão…mas se redimiu com o lance das cartas…creio que essa nossa galera fez isso…mas você é INSANO bróder

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