O histórico Enecom de João Pessoa

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Os últimos dias de janeiro de 1990 foram calmos. A agenda daquele ano comparada a de outros, revela que sempre leio pouco em janeiro. Minha média é de um ou dois livros por semana, mas no primeiro mês de cada ano isso cai terrivelmente. Quando percebo a falta, começo a ler desesperadamente. Naquela última semana, li Perestroika, de Mikhail Gorbachev, leitura obrigatória para quem quisesse entender as transformações políticas da época; He, sucesso de Robert A. Johnson, uma das partes da trilogia que contava ainda com She e We; e Minha Razão de Viver, autobiografia de Samuel Wainer.

Em 1989, o ritmo era outro. Na sequência de shows de verão, o do Capital Inicial estava programado para o dia 25 de janeiro, uma quarta-feira. Havia comprado o ingresso alguns dias antes e marcado na agenda, mas na noite anterior decidi ir ao Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação – Enecom, que aconteceria de 25 a 28, em João Pessoa, na Paraíba. Eu fazia parte da chapa que havia acabado de ganhar as eleições para o Centro Acadêmico (C.A.) e não poderia deixar de fazer parte das plenárias, militar, gritar palavras de ordem e todas essas coisas que acreditamos sérias quando somos jovens estudantes ou quando somos embriões de políticos.

Havíamos conseguido um micro-ônibus da UFRN e partiríamos na quarta pela manhã. Dei meu ingresso a Carlos Magno (hoje diretor de redação de um jornal em Natal), que também fazia parte do C.A., e embarquei naquela aventura. Um detalhe: eu tinha 16 anos e, em tese, alguém teria que se responsabilizar por mim. Isso ficou só na tese mesmo.

enecom2Por volta das 8h30 da manhã, já estávamos na base da cerveja, da vodka e do que de mais barato tivesse e aparecesse. Se o motorista desse mole, tomaríamos a gasolina do micro-ônibus. Inexperientes e sedentos, em menos de uma hora acabamos com tudo. Paramos em uma bodega no meio do caminho. O dono não queria nos vender nada. Disse que só vendia por doses e quase tudo estava aberto. O que tinha fechado? Conhaque de alcatrão. Manda! Só em dose. Conta as doses. Manda. Embarcamos de novo. Peraê! E copo? Só tem de vidro. Então pega canudinho. E assim desembarcamos no final da manhã em João Pessoa, já completamente bêbados.

As salas de aula da UFPB faziam as vezes de dormitórios. Quem tivesse levado colchão, ótimo; quem não tivesse levado, poderia ter sorte de conseguir um com os organizadores do encontro ou dividir um com outra pessoa, o que era recomendável e muito desejado. Ficamos em uma sala ao lado da turma de Campina Grande (PB) e do Maranhão. Estes, para manter uma das mais sólidas tradições maranhenses, nos receberam com algo que parecia o charuto do Hulk, mas que eles juravam que era “só um baseado mesmo”. Muito educadamente recusei e comecei a perceber que aquele papo de plenárias, discussões sobre os rumos do jornalismo, protestos e política estudantil eram desculpas para nosso pequeno Woodstock ou, como jamais deixaria de ser chamado, nosso Eneconha.

Lisos, lesos e loucos, tomávamos qualquer coisa que desse barato. Foi assim durante o primeiro dia inteiro. À noite, quando os bares do Campus da UFPB fecharam, fomos obrigados a sair em busca de mais álcool. No meio do breu, encontramos um boteco. Colegas de outros estados já estavam por lá. Todos em um clima muito familiar: música, barulho, garrafas sendo enxugadas, ameaças de strip-tease em cima das mesas. Até aí, eu me lembro.  Corte. Sandro deitado em um chão de terra encharcado de mijo, ao lado de uma borracharia. Corte. Tudo escuro. Sandro tentando não se afogar com o próprio vômito (“Hendrix morreu assim!”, eu pensava desesperado). Corte. Sandro sendo carregado – arrastado, sem conseguir me sustentar nem dar um passo – até o dormitório. Em rápidos lampejos, ouvia coisas como: “E se ele morrer?!”; “Gente, ele menor! Quem está responsável por ele?”; “Não é melhor levar para um hospital”… Spoiler: eu sobrevivi. Estou aqui, 21 anos depois, contando isso a vocês.

Foram horas debaixo do chuveiro até que eu e outros colegas nos convencêssemos de que eu poderia fechar os olhos sem que fosse pela última vez. Tentava fazer polichinelos, flexões de braço, esmurrava os tapumes que serviam de parede, prometia a todos os santos que se escapasse daquela nunca mais beberia. Lá pelas tantas, totalmente molhado, me joguei em um colchão e fosse o que Deus quisesse. Ele devia estar de bom humor. Não deixou ninguém abusar sexualmente de mim. Pelo menos, eu acredito nisso até hoje.

No dia seguinte, na primeira ida ao refeitório, vi que não conseguiria comer nada. Foi assim durante todo o evento. Então, eu bebia. Juro que não queria, mas tinha que botar alguma coisa para dentro. Que fosse álcool. Promessas? Que promessas? Não lembro. Sei que um anel, de minha amiga Andréa, que quase não entrava em meu anular direito antes de sairmos de Natal estaria dançando no meu polegar quatro dias depois.

No último dia do encontro, no refeitório, durante o almoço, rolou uma performance – estudantes de jornalismo adoram essas coisas! São todos artistas, músicos, poetas e escritores frustrados –… bem, rolou a tal performance em que alguns apareciam nus, corriam no meio de todos e subiam nas mesas. À noite, as caravanas se preparavam para voltar. Algumas se preocupavam com a estrada ou quem os pegaria ao chegar. A do Maranhão estava preocupada em acabar de qualquer jeito com as quatro quentinhas de maconha que havia levado. Não queriam correr o risco de um novo encontro com a Polícia Rodoviária Federal. Então, dá-lhe fazer charutos de Itu e tocar fogo neles. Enquanto rolava a plenária final, ânimos acirrados, discussões ruidosas, eu e outros, digo, eu e uns maconheiros do Maranhão, Natal e Campina Grande resolvemos invadir o local, travestidos – eu, maquiado e com chuquinhas no cabelo – e cantando Turma da Xuxa, aaaaaaaahh/Turma da Xuxa… e Ilariê. Os que levavam a política estudantil a sério não gostaram muito, mas os pelegos e os malucos, que eram maioria esmagadora, curtiram o show.

Já de volta, corri para a agenda e fiz um resumão nessas páginas que aparecem no alto do texto. Os nomes dos colegas de outras cidades (com os quais eu me corresponderia por algum tempo), os de Natal que haviam participado da bagunça, os principais momentos e, encerrando, uma expressão que definiria tudo: SÓ PUTARIA!

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5 respostas a O histórico Enecom de João Pessoa

  1. Já se passaram 20 anos, acho que posso revelar. Eu tava nesse Enecom de João Pessoa. Uma noite, de bobeira, passei pelo alojamento de Natal e vi um mocinho cabeludo dormindo no colchonete, de bundinha pra cima. Mandei ver. E ele nem se mexeu, achei que tava gostando. Putz, então era você, cara? Então a gente se conhece há mais tempo do que a gente pensava, que legal. Espero que isso não abale nossa amizade.
    PS: Naquela noite, o Nestor, o Panelada e o Jonas Tripé também deram uma passadinha no teu alojamento.
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    Ricardo Kelmer, SP-SP – blogdokelmer.wordpress.com

    Bem… Já se passaram 20 anos, acho que posso revelar. O cabeludo era o Claudinho, um conhecido soropositivo. Ele me falou dessa experiência pouco antes de morrer: “Aquelas bichas nunca me ligaram! Mas jamais se esquecerão de mim!” Er… Espero que isso não abale nossa amizade.

  2. Bem, em 1989 eu havia acabado de ingressar, na condição de calouro, neste mesmo Curso de Comunicação. Por vários meses ouvimos as entre incrédulos e resignados as narrativas daqueles desbundados.

    Eu ainda levava tudo muito à sério. Apenas eu e o actor Fábio Espírito Santo éramos oriundos de escola pública (sem cursinhos). E queríamos fazer a diferença.

    Bem, isso durou até fazer as malas para o Congresso da Une em BH, e ser apresentado ao conteúdo das tais quentinhas. Comecei a gostar do curso, sobretudo as disciplinas “Corredor I” e “Introdução à Cantina”.

    Lembro-me do Sandro e sua memorável entrevista ao homónimo músico Lobão. Havia começado o ensinamento superior “à sério”. Não sei porque, mas veio-me à cabeça 1979 dos Smashing Pumpkins…!

    Justine never knew the rules / Hung down with the freaks and the ghouls… 😉

  3. Ahahahah!!! Essa história do Claudinho tá parecendo aquelas lendas urbanas de terror. Quem comeu o Claudinho 20 anos atrás é melhor ir ao médico. Se ainda estiver vivo…
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    > Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

  4. Eu não sei se me divirto mais com o texto, ou com o comentário do Ricardo e a resposta a ele auhauhauhauhauHAUHAUHhauha.

    Para você ver como um comentário – mesmo sendo uma brincadeira – deixa isso aqui mais divertido. Já desencanei disso. O blog é bem visitado, mas somente uma em cada 50 visitas deixa um comentário. Imagine se fosse… uma em cada dez! Seria enriquecedor para TODOS. Muita gente comenta os textos por e-mail (contando histórias maravilhosas!), pessoalmente ou brevemente pelo Twitter, mas o grande barato seria comentar aqui! Vamos lá, povo! 😉

  5. Marcinha disse:

    Adorei o texto. Diverti-me com ele e com os comentários, mas bem que alguém (um pouquinho sóbrio pra não tremer muito a imagem) podia ter filmado ou fotografado a sua performance daquele dia… Tenho certeza de que muita gente adoraria ver…Fico só imaginando a cena… rsrsrsrsrr

    Parabéns! Rumo aos “200 outros textos somente este ano.Blogando com força!” Os leitores agradecem! 😀

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