André da Rabeca

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Em 2000, comecei uma série sobre figuras populares de Natal (RN) para o site Natal na Íntegra. André da Rabeca estava nos primeiros nomes pautados e chegou a ser fotografado, mas a matéria não foi  concluída. No dia 6 de agosto de 2008, de volta à cidade, encontrei André no meio-fio em frente à Manchete Calçados, na esquina das ruas Coronel Cascudo e Princesa Isabel, na Cidade Alta. Saquei o “chaveirinho” do bolso e fiz algumas fotos. André não era de muita conversa, mas, encantado com a máquina, me perguntou quanto custava e comentou que poderia ganhar uns trocados a mais se tivesse uma, fotografando os casamentos nos quais, vez ou outra, era chamado para tocar.

Nascido no interior do Rio Grande do Norte em 27 de outubro de 1942. Segundo seu pai, André era mole e não dava para trabalhar na roça. No início dos anos 80, pegou a estrada para a capital e foi tocar rabeca nas ruas. As últimas notas de sua história como rabequeiro foram dadas em dezembro passado. A tuberculose se manifestou mais uma vez e seu estado de saúde piorou rápido. Como todo desvalido, fez sua peregrinação pelos postos e hospitais públicos: Posto de Saúde de Mãe Luíza (bairro onde morava), Hospital dos Pescadores (Rocas) e Walfredo Gurgel. Medicado e mandado para casa, sem o tratamento adequado, só parou no quarto, o Giselda Trigueiro, quando já era muito tarde. Deu entrada na segunda, 11 de janeiro, e faleceu na tarde do sábado seguinte, dia 16, às 16h05.

André morreu aos 67 anos, deixando Dona Nazaré, sua esposa, e cinco filhos. Destes, só Ivanilson, o mais novo e único nascido em Natal, morava com ele. Os três filhos homens estiveram no sepultamento no cemitério do Bom Pastor, no domingo, 17. As duas filhas, que moram em cidades do interior, nem sabem que o pai faleceu. Nenhum deles aprendeu a tocar rabeca. Nem os muitos netos. O instrumento, que nos últimos tempos ficava na lanchonete Fri-Shop (em frente à Manchete Calçados), continua guardado por Jeane Araújo, dona do local. Segundo Ivanilson, a rabeca será doada ao Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão.

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8 respostas a André da Rabeca

  1. Wilson Natal disse:

    Figuras populares são a alma das cidades. Existem e existirão pelas décadas. Alguns passam pela vida e desaparecem. Alguns viram lenda, outros caem no anedotário popular. Alguns fazem, ou refazem as suas vidas e vão embora para sempre, outros definham nas ruas e sarjetas, ganhando o pão de cada dia, como o André da Rabeca. E muitos, um belo – ou mau – dia são levados para sempre pelo “Rabecão”…
    Felizmente a Cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro têm uma extensa bibliografia sobre esses personagens que nos encantam pela força de vontade e nos desencantam pela sua triste e epidêmica indigência…
    Minhas homenagens ao André que conheci/não conheci através dos muitos Andrés, Joãos, Josés que ainda desfilam e desfilaram pelas décadas do meu cotidiano. Ele vive e viverá sempre! Pois a Alma da Cidade é imortal…
    Uma cidade não é feita de pedra ou monumentos. É feita de gente. Gente como o André também.
    Abs,
    Wilson

  2. Quiteria Kelly disse:

    Caro Sandro, parabens pela bela lembrança e a tentativa de nao deixar cair no esquecimento a passagem desse personagem discreto e encantador que foi o André nas ruas dessa cidade de memória curta!

  3. Ariane disse:

    Parabéns pelo tributo, Sandro!
    Lembro de André pelas ruas da cidade, mas de alguma maneira, ligo sua figura ao mesmo rabequeiro que toca(va) na sorveteria Tropical. Era ele? 🙁
    Bom, não importa. Agora, com a ida de André, a cidade perde um pouco do lirismo de seus personagens anônimos… Pena!


    Era ele mesmo. No final dos anos 80 e inícios dos 90, quando a sorveteria era mais frequentada, ele estava sempre ali. Minhas primeiras lembranças dele são na Tropical. Costumava vê-lo por lá quando eu voltava do Salesiano.

  4. Thiago disse:

    Durante o tempo que morei em Natal, entre 2002 e 2007, vi André várias vezes, principalmente ali pela rua Princesa Isabel ou em frente à Sorveteria Tropical. Já troquei algumas poucas palavras com ele. Era uma figura calada, mas encantadora.

    Será que existe algum registro em vídeo ou áudio, dele?


    Tem estes poucos segundos – http://www.youtube.com/watch?v=o9qy-k9QW3g – e Civone informou que tem um curta com participação dele, Faces da Mortehttp://vimeo.com/8868716.

  5. Danilo Guanabara disse:

    Conheci seu André quando eu ainda era criança e ia à sorveteria Tropical com meus pais. Mais tarde, tive oportunidade de fotografá-lo para uma matéria da revista Brouhaha. Figura sisuda, simples, de poucas palavras… certamente um grande personagem dessa cidade.

  6. Dinor Guinzani disse:

    Sandro, já foi feito algum documentário, contando a história dele???? Se não, vc poderia pensar na idéia.

    Abç!

  7. henrique disse:

    É Sandro…
    Nossos heróis vão morrendo. Uns de desnutrição, de atropelamento,outros de tuberculose. Esses homens e mulheres que tem a destemida tarefa de ocupar as ruas,hoje tão desertadas, vão indo e levam junto nossas memórias de tardes possíveis a tomar sorvete na calçada ao som de uma mesma melodia insistente e visceral.
    Sinto saudade da top model e seus modelitos pela rua mossoró, sinto falta de dona Maria da Ribeira, não mais enxergo Marcia e Seu joão tb da Ribeira.
    Agora não teremos mais Andre e sua dor insistente de Rabeca.
    Obrigado Lobão pelas lágrimas, o espanto e a lembrança continuada.

  8. Tá na web um Doc que participa/entre outras almas, o mais recente “Rabequeiro do Céu” > FACES da RUA em http://www.vimeo.com/8868716

    Bjs,

    Civ

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