O Haiti nosso de cada dia

Fermê la búche, sivuplê!”. Assim mesmo, com grafia errada, para acentuar o mau francês do soldado brasileiro atuando diante da câmeras de TV, dando uma ordem grosseira (Calem a boca!) seguida de um “por favor”. Tá aqui! Tá viva! Ela tá segurando a minha mão. Ela tá bem! Bem?! A mulher estava há três dias presa sob os escombros, grávida, imóvel, sem água, sem comida. Pensei que a próxima fala do soldado seria: “Começamos o resgate agora ou almoçamos antes?”.

A cena foi exibida no Jornal Nacional do dia 15 de janeiro, sexta-feira, reprisada em todos os telejornais da Globo nas 24 horas seguintes e de novo e novamente no domingo, durante o Fantástico, que abriu e fechou sua edição com as imagens captadas por um soldado brasileiro logo após o terremoto. Grande furo! Viva a inclusão digital! Viva o poder de registrar qualquer coisa a qualquer momento com um simples celular! Grande ajuda ao jornalismo. Por falar nisso, algum jornalista perguntou ao comando do Exército o motivo de o soldado estar brincando de cinegrafista em vez de estar prestando socorro e tentando manter a ordem em uma situação desesperadora daquelas?

No primeiro caso, não era um “resgate emocionante” como foi passado ao telespectador. Foi um desastre vergonhoso mostrando que a preocupação de aparecer na tevê era muito maior que a de salvar uma vida. No segundo, deve ter sido a vocação para repórter do jovem falando mais alto e denunciando que ele escolheu a carreira errada.

Se há uma coisa que repito incessantemente é que se você quer ser feliz e fazer algo bem feito, siga sua vocação. Não importa qual seja. Quando alguém se mete a assumir uma profissão por status social, para ganhar muito dinheiro ou por necessidade, pode ter certeza de que em algum momento – ou em muitos ou em todos! – isso ficará bem claro. Você nunca teve uma empregada doméstica da qual reclamasse por não limpar a casa direito? É porque ela não faz aquilo por vocação, mas por necessidade. Nunca foi a um médico que parecia perdido tentando diagnosticar algo ou demasiado apressado durante a consulta? É porque ele deveria estar pensando na partida de tênis ou no passeio de barco do próximo fim de semana. Vocação é algo sério. Mais ainda quando se trata de assumir uma função que envolve ajudar ao próximo. Se você não nasceu para isso, tente melhorar, tente ser uma pessoa melhor, mas não se meta a fazer disso a principal atividade de sua vida. Ser militar não é ter um emprego, é assumir a missão de defender a vida dos outros colocando a sua em risco.

Ser jornalista profissional é, muitas vezes, ser uma hiena ou um urubu, rondando a desgraça alheia. É um dos motivos de eu ser EX-jornalista. Não é minha vocação. Eu não queria ser repórter de uma das maiores emissoras de TV do planeta, ser reconhecido, ganhar muito bem, viajar por vários países para um dia ter que fazer o papelão de mostrar um ato de incompetência e falta de noção e ainda vendê-lo como algo emocionante. “Cale a boca, você, soldado, e comece já a tirar essa pessoa daí!”. Nenhum motivo “profissional” está acima do bem estar de qualquer ser humano. Compromisso profissional nem dinheiro algum paga A MINHA condição humana. O que vi foi um grupo de humanos desesperados – pobres, sem educação, sem comida, sem condições de nada e ainda arrasados por uma força incontrolável – tentando salvar uma vida enquanto soldados e jornalistas, muito civilizados e no controle de suas vidas, brincavam de fazer um filme de Oliver Stone.

Zilda Arns, bem nascida, de família bem estruturada, bem alimentada, bem estudada, bem casada, bem relacionada, bem tudo, poderia ter vivido quietinha, como dondoca-esposa-mãe-irmã-de-cardeal ou, se quisesse dizer que trabalhava, ganhar muito bem como médica sanitarista, provavelmente em um alto cargo público para o qual seria indicada sem fazer força. Mas não. Zilda Arns resolveu seguir sua vocação. Se até o momento de sua morte você não sabia quem era ela, o que ela fez ou o que representa a Pastoral da Criança, procure saber. E se, com isso, você perceber o quanto a sua e a minha vida são inúteis, já será um passo para mudar essa situação.

No meu entender, essa mulher assumiu algo tão grandioso para se fazer em apenas uma vida que precisou morrer de uma forma espetacular para tornar mais visível sua ação: “Pelo Amor de Deus, olhem para a situação em que seus irmãos vivem! Mexam-se! Façam algo!”. E esta não é uma leitura religiosa e para religiosos. Você pode ler como “Acordem, porra! Vejam a situação em que seus irmãos vivem! Mexam essas bundas moles! Façam alguma coisa!”.

Talvez você nunca antes tenha ouvido falar em Zilda Arns, o que ela fazia e a grandiosidade do seu trabalho de quase três décadas com a Pastoral da Criança, mas certamente você sabe quem são Gisele Bündchen, Sandra Bullock, Brad Pitt, Angelina Jolie e muitos outros que não eram nascidos ou ainda eram crianças quando o trabalho de Zilda começou. Deve saber também sobre as doações milionárias que eles fizeram para ajudar a população do Haiti. Talvez isso tenha feito com que você contribuísse também com 10, 50 ou 100 reais. A partir daí, faço alguns questionamentos: Por que você não segue, há tempos, o exemplo de Zilda Arns? Por que, sem tirar um centavo do bolso, não dedica alguns minutos por dia ou algumas horas uma vez por semana para brincar, ensinar ou simplesmente dar alguma atenção a crianças carentes na sua cidade mesmo? Por que não pega esses 10, 50 ou 100 reais e investe mensalmente em cestas básicas, remédios ou livros para uma criança que mal come ou não consegue estudar aí perto de sua casa ou de seu trabalho? Essa esmola que você deu ao Haiti realmente ajudou em algo ou apenas fez com que você se sentisse mais parecido com astros de Hollywood e aliviasse um pouco sua consciência por nunca fazer nada pelo próximo, esse aí, bem próximo?

No Twitter, surgiu todo tipo de questionamento a respeito da situação no Haiti e das ações geradas em torno dela. No caso das doações, a cobrança de não só passar os números das contas, mas doar efetivamente, até a cobrança explícita a pessoas e instituições que pudessem fazer doações maiores. Cada um faz o que pode e o que sua consciência manda. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita (Mateus 6:3). Ou, para que não se pense que estou fazendo pregações religiosas: você quer ajudar ou quer ser admirado porque ajuda? Vai esperar outra catástrofe em algum lugar distante para ajudar ou vai ajudar o seu vizinho antes que aconteça uma com ele? Já se perguntou se a esmola ao problema distante não é uma forma de pedir a Deus que o mantenha distante? O versículo seguinte ao citado diz: Para que a tua esmola seja dada em segredo; e teu Pai, que vê em segredo, Ele mesmo te recompensará publicamente. Eu, que não sigo qualquer agremiação religiosa, diria: faça sem esperar qualquer coisa em troca; faça apenas porque é certo.

Houve também um comentário no Twiiter que vale a pena citar. Foi feito por Clotilde Tavares: Não entendo o espanto dos jornalistas com crianças comendo terra no Haiti. No Nordeste que eu conheci, isso acontecia todo dia… Acontecia e acontece. Assim como acontece – mais comumente e não só no interior do Nordeste, mas em qualquer cidade, em qualquer região – de crianças passarem o dia sem comer ou comendo coisas encontradas no lixo e, ao reclamarem, escutam o pai dizer: “Vá dormir que a fome passa”. Talvez seja uma poderosa hipermetropia que nos impeça de ver o que está tão perto. Talvez seja o medo de saber que esteja tão perto. No caso de jornalistas, há também a falta de “formação humana” para que possam exercer devidamente sua função e não se admirar com algo, infelizmente, tão comum.

Creio que o exposto até aqui seja material suficiente para repensarmos nossas atitudes, porém me permito mais algumas linhas para abordar outro ponto do comportamento atual, muito comum nas duas últimas décadas, que não consigo entender e, provavelmente, jamais vou aceitar: os aplausos em sepultamento. Isso, mais uma vez, aconteceu no sepultamento de Zilda Arns. Fico imaginando se as pessoas que aplaudiram estavam felizes pelo fato de ela ter morrido ou se esperavam que ela saísse do caixão para agradecer e dar um bis. Aplauso é um gesto eufórico de aprovação.  O que as pessoas aplaudem durante um enterro? A beleza da cerimônia? O discurso do padre? A oportunidade de se livrar do chato que baixa à cova? Tuitei sobre isso e fiquei surpreso com os vários comentários que surgiram a favor do aplauso. O que percebi é que todos vieram de gente muito jovem, no máximo, na casa dos 20 anos, ou seja, gente que cresceu vendo isso e, entendo, só poderia achar natural. Não é. Na maioria das culturas, desde tempos imemoriais, o ritual de sepultamento envolve vários tipos de sentimentos que nada têm a ver com euforia: despedida, finalização de um ciclo, respeito por uma missão cumprida, conscientização sobre nossa condição temporária, reflexão sobre a necessidade de perdoar e viver em paz com todos, sobre como tudo tem o mesmo fim, saudade, etc. Perceba que nem estou falando de culpa, apego, desespero e tristeza, coisas muito comuns na cultura ocidental e mais ainda na brasileira. À exceção de pessoas que tenham levado a vida em festa e explicitem que seus sepultamentos ocorram da mesma maneira, não vejo motivo algum para os aplausos. Zilda Arns não queria aplausos nem em vida, por que iria querer depois de morta? Acredito que ela preferisse que as pessoas pegassem suas mãozinhas e as colocassem à disposição das crianças carentes às quais ela se dedicou. Assim, as crianças também teriam motivos para sorrir, ficar eufóricas e bater palmas.  Esses aplausos em sepultamentos me parecem coisa de pessoas pouco trabalhadas emocionalmente (para ser bem delicado). Pessoas que não conseguem se dar um momento de recolhimento, de silêncio, de paz. É preciso barulho para abafar os sentimentos com os quais não se sabe lidar, é preciso uma algazarra para que não se ouça a voz interior. Com os aplausos, saímos do cemitério com a sensação de que saímos de um espetáculo que nos fez bem e fugimos da realidade de que um dia seremos nós no caixão. No meu, não aplaudam. Vivo, não gosto de barulho. Morto, por favor, me deem finalmente um pouco de silêncio.

Encerro com a sugestão de que possamos refletir a respeito dos recentes acontecimentos e de atitudes que podemos mudar para melhorar as nossas vidas e a das pessoas ao nosso redor. Pensemos sobre o que nos dá, hoje, o Haiti nosso de cada dia.

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3 respostas a O Haiti nosso de cada dia

  1. wilson natal disse:

    A história do Haiti eu conheço; movimentos de ascensão e queda, repressões políticas, também conheço. O império negro, a república negra também. Me fascina os mistérios do “Vodu” que reverencia “Monsieur Samedi”… Fico apavorado em lembrar do “Papa Doc e ces Tontons Macutes”.
    Mas o que eu queria mesmo é saber dos Fados e das Parcas qual a razão de ser do Haiti e de sua população.Pois parece-me que estão ai, a nos ensinar alguma coisa tão importante que, por negação, insistimos em não perceber, entender.Talvez seja mais cômodo. Assim não teremos que entender que existe um Haiti em toda a parte e dentro de nós… Talvez não entendamos esse e os outros Haitis por que eles nos falam nesse francês créole de difícil compreensão.
    O Brasil, graças a Deus é um país feito de mulheres grandiosas, fortes, abnegadas. Dentre as tantas sobressaem no meu universo pessoal as figuras de dona Cármen Prudente que está para sempre ligada ao desenvolvimento do Hospital do Cancer e Zilda Arns – A alma e a Vida da Pastoral do Menor.
    Ela veio seguindo os passos de Dom Paulo Evaristo Arns, feito Cardeal Arcebispo de São Paulo. Neste período, tudo aquilo que ela já havia feito em movimentos sociais é coroado com a criação do Bem Estar do Menor e, depois, do Idoso.
    Sempre senti que, entre as duas, Cármen e Zilda, alguma coisa em comum. Era a Fé. Não a fé em Deus que sempre foi óbivia nas duas. E sim, a Fé que elas tinham no ser humano. Uma fé que nem nós temos pelos outros e por nós mesmos. Creio que morreram sem perder essa Fé.
    Ao contrário da mãe do Lula, Dona Cármen não tem um busto ou uma estátuas pelas praças do Brasil e,provavelmente, Dona Zilda nunca a terá… É o Haiti daqui, preocupado em olhar o Haití de lá! E o Haiti de lá, acontece todos os dias no Haiti daqui.
    E eu vou calando a minha boca, antes que me façam calar.
    Abração,

  2. Dinor Guinzani disse:

    OI Sandro!

    Em relação ao “cala boca” do militar, eu não cheguei a escutar e também não estou aqui para defender ninguém, mas creio que em momento de muita tensão, lembrando que o dever e obrigação dele era justamente de salvar vidas, provavelmente precisava que as pessoas “calassem” a boca para ter certeza de estar ouvindo um sobrevivente….Não estou querendo afirmar que tenha sido isso que ocorreu, mas pela situação, é o que me parece mais sensato imaginar….Afinal, em muitos momentos a “educação” fica em segundo plano, como por exemplo salvar a vida de alguém…Imagine só, vc vivenciando toda aquela situação, vendo corpos espalhados pela cidade, o desespero como ânimo oficial do momento e em determinado momento aparece um homem gritando dizendo que ouviu sua mulher viva. Obviamente, ele tem a brigação de averiguar. Nesse mesmo instante vem uma reporteres e câmeras ( não sei se estou enganado, mas quem filmou o ocorrido não foram os militares ou bombeiros, mas sim a equipe de reportagem que passou no momento). Então, as pessoas em desespero,começam a gritar “tá ali” “onde” “eu ouvi” . Bom, a equipe de resgate precisa escutar a vítima e não as pessoas. Sinceramente, não sei se eu faria diferente, talvez em desespero eu mandasse um “cala a boca” geral, com o objetivo de poder conter a ordem e salvar uma vida (nossa esse conter a ordem, tá parecendo até discurso militar rsrssrsrsrs).
    Por outro lado, mesmo que ele tenha tido uma postura de “estrelismo” e se essa sua postura resultou no salvamento da mulher, sei que pode parecer muito “Maquiavel” , mas, que Bom, pelo menos alcançou um objetivo maior.
    Gostei muito de como vc citou Zilda Arns, pois realmente, se cada ser humano tivesse ao menos 1/20 de Zilda Arns, viveríamos em um ambiente muito mais equilibrado.

    Abração Sandro!!!

    O “Cala a boca!” é totalmente esperado e compreensível naquela situação. O “Ferme la bouche, s’il vous plaît” foi apenas uma maneira irônica de apresentar o despreparo inicial do personagem ao se expressar. Em língua alguma que eu conheça se dá uma ORDEM e se pede “por favor“. Ordem é ordem. É “Foda-se, saia da frente!“. Com educação, se fala: Silêncio, por favor!, Silence, s’il vous plaît!, Silence, please!, Silenzio, per favore!…). Depois da ordem de soldado, já com o personagem incorporado, com muita gentileza, calma e compostura ao perceber que, sim, a mulher estava ali soterrada, para que a pressa?, filma-eu-Galvão, ele fica um doce. Ou seja, o “Calem a boca, por favor!” foi um “Silêncio no estúdio. Gravandooooo“. 😉

    Para ver e rever a cena patética, é só clicar no link logo no início do segundo ou parágrafo ou aqui – http://www.youtube.com/watch?v=O940MCMTyzw.

    Abração.

  3. Sandro, a história do soldado a filmar no lugard e agir lembrou-me o caso do “fanfarrão” pullitzer, o fotógrafo kevin carter (assim, em minúsculas, para mostrar o meu desprezo). Um abutre à procura dos seus 15 minutos de fama… E quem sabe um pulitzer?!
    A pergunta que fazes no final do segundo parágrafo foi a mesma que eu fiz ao ver tal aberração inserida numa peça pretensiosamente jornalística…
    E olha, que sem a obrigatoriedade do diploma isto ainda vai ficar muuuuito pior. Qualquer “meganha” acha-se a Christiane Amanpour…

    Que exista mais gente registrando não é o problema. O que me preocupa é QUEM está fazendo isso e, principalmente, QUANDO. Imagine o cara chegando todo aberto em um hospital e o médico querendo filmar para mostrar na TV ou no YouTube em vez de correr com o pobre coitado para a sala de cirurgia. Ou o policial filmando o tiroteio em vez de mandar bala para cima dos bandidos. Um bombeiro filmando o incêndio… Essa irresponsabilidade para com a missão que a pessoa deveria ter é que é uma desgraça.

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