Há 20 anos: Marina, Paralamas e RPM

Janeiro de 1990 estava se comportando, para mim, como um típico verão oitentista em Natal: namoro, praia e música. No dia 16 deveria acontecer um show de Marina (Lima), como mais corretamente se fala em Natal, ou, mais cariocamente, da Marina, mas ele foi transferido para o dia seguinte, 17, uma quarta-feira. A apresentação aconteceu no Pavilhão do Centro de Convenções, o que era uma novidade. Nos anos 80, o local mais comum para shows musicais era o Palácio dos Esportes, um ginásio localizado na Praça Cívica, no bairro de Petrópolis, vizinho ao centro da cidade. Três mil pessoas eram suficientes para entupir o Palácio. No grande vão do Pavilhão do Centro de Convenções – construído para abrigar feiras e exposições – deve caber fácil o triplo disso.

No dia seguinte, 18, quinta, Fabíola e eu iríamos para Pitangui, uma praia de veraneio a uns 30 quilômetros de Natal, no município vizinho de Extremoz. Ficaríamos por lá até domingo. Naquele tempo, mesmo no verão e tão próximo à capital, Pitangui era uma praia tranquila, com pouca gente, sem as armadilhas para turistas e a agitação provocada por eles.

Um ano antes, em 17 de janeiro de 1989, também estava indo a um show. Ainda sob o impacto de D, disco gravado no Festival de Montreux em 1987, e com a ajuda das novas O Beco, Uns Dias, Quase um segundo e Bora-Bora (que dava nome ao disco de 1988), a garotada ia conferir os Paralamas do Sucesso. Aquele deve ter sido meu terceiro show da banda. É difícil explicar às gerações mais novas o que era um show de BRock nos anos 80. Éramos mesmo uma tribo e por isso, no caso de Natal, cabíamos tranquilamente no minúsculo Palácio dos Esportes. Se você gostava de forró, ia para o forró. Se gostava de rock, ia a shows de rock. Não nos misturávamos. Não havia esse “ecletismo” de hoje, que me parece apenas desculpa para o mau gosto. Se alguém cogitasse a realização desses “festivais” misturando rock, emo, axé e forró que acontecem hoje, certamente encontraria mais ceticismo do que se desse a notícia de Jesus descendo de uma nave extraterrestre de mãos dadas com Madonna e Cindy Lauper.

O dia seguinte foi de descanso e preparo. Fiquei em casa vendo filmes: Posições Comprometedoras (1985), com Susan Sarandon e Raul Julia; Inocência Destruída (1988), que tem como tema Baby, I love your way, de Peter Frampton; e o já clássico Cabaret (1972), com Liza Minnelli e Michael York.

A quinta, 19 de janeiro, traria algo há muito esperado: um show do RPM. Só quem viveu sabe o que o RPM representava. A histeria causada pela banda de Paulo Ricardo, diziam os da geração anterior, foi o mais perto que chegamos da Beatlemania. Eu posso dizer que nunca vi nada igual. Nem antes, nem até hoje. Uma música do RPM, saindo de um três em um em qualquer festinha, era suficiente para causar uma revolução. Várias Revoluções Por Minuto.

O show aconteceu em área aberta, no Estádio Juvenal Lamartine. Os anos de 1985 e 1986 – quando o RPM mandava prender, mandava soltar e enlouquecia geral – não pareciam suficientemente distantes para não levar um multidão à primeira e única apresentação dos quatro rapazes em Natal. A banda já havia se separado, voltado, gravado mais um disco (Quatro coiotes, em 1988) e estava em final de turnê e de existência, mas, quem não queria ver aqueles caras de perto? Todas as garotas queriam Paulo Ricardo. Todos os garotos queriam ser Paulo Ricardo e pegar todas as garotas. No futuro, continuaríamos querendo ser ele para pegar só a Luciana Vendramini mesmo.

No show, eu me dividia entre curtir quase tardiamente o maior e mais meteórico sucesso do rock brasileiro oitentista, imaginar como seria a década seguinte e, claro, ficar com alguma garotinha bonita. A daquele show seria uma bem pequenina, tipo ninfa – já com uns 19 ou 20 anos, mas com cara de menininha –, por quem eu ficaria louco naquele verão. Mignon, corpo perfeito, ficaria me provocando em algumas idas à praia nos dias seguintes.  Ela gostava de mexer com aquele moleque de 16 anos que pensava ser gente. Seu corpo era o fruto proibido, a chave de todo pecado e da libido, e para um garoto (nada) introvertido como eu, era pura perdição.

Bem… e pra vocês, eu deixo apenas o meu olhar 43, aquele assim, meio de lado, já saindo, indo embora, louco que vocês comentem algo sobre aquela época…

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2 respostas a Há 20 anos: Marina, Paralamas e RPM

  1. Putz… tu és foda! Sabia que não são todos que gostam de remexer no passado?

    Anyway… foi o Palácio dos Esporte o templo onde os meus dedos sentiram pela primeira vez a textura de um par de seios. Eram firmes e exalavam um aroma de seiva de alfazema.

    Teve também o show do Lobão… aquele da garrafa de whisky que “evaporou-se” ao longo da playlist. Enfim…

    Poucos confessam, mas só depois de muito pop nacional é que alguns dos influentes potiguares passaram a frequentar os “hype hotspots” Chernobyl, Balalaika… ninguém queria ser visto na Praça Pedro Velho!

    Só não gosta de remexer no passado quem tem algo a esconder ou está com medo de morrer. Eu me divirto com isso. E os anos que estou abordando nesta série (1989 e 1990) foram importantes e muito marcantes para mim. Extremamente importantes em minha formação. Você sabe disso. Só em 1991 teríamos aventuras juntos, mas você estava por perto antes disso.

    E o Palácio dos Esportes? Não tenho ideia de quantos shows assisti lá: Titãs, Lobão, Ultraje, Lulu, Paralamas, Kid Abelha… Pode dizer qualquer um daquela época. Se passou por Natal, eu estava lá. E o primeiro qual foi? Cazuza! Quantas pessoas gostariam de poder dizer: “O primeiro show da minha vida foi o de Cazuza!”? Eu posso. E foi lá no Palácio dos Esportes. Muitas histórias que contarei por aqui ainda terão o velho ginásio como palco… Aguarde. 😉

  2. Marcinha disse:

    Sandrinho, deliciosa a série “Há 20 anos”. Texto gostoso, com jeito de bate-papo, como se estivéssemos ouvindo você falar sobre os seus verões de 89 e 90. Estou adorando! Suas lembranças daquela época são tão gostosas de ler… Lembro de todas as músicas que você citou (adorei os videos), mas não sei se as conhecia na época mesmo ou se as descobri tardiamente. Nessa época, lembro que era fascinada pelos Beatles. Tinha várias fitas cassete deles.
    Meu primeiro show foi no Canecão, não lembro se em 87 ou 88; não foi de Rock. Foi do Roupa Nova. A atmosfera do Canecão e aquele show me revelaram cores e luzes que eu não conhecia. Foi maravilhoso! Fui desvendando novas cores e a partir de então. Lembro que também fui ao show do Lulu Santos umas duas vezes (também no Canecão) e que fiquei maravilhada com sua energia e sua disposição para voltar ao palco(o cantor sempre volta no final do show para dar uma canjinha, né? Lulu voltava várias vezes e eu adorava aquilo).
    Sabe de que grupos dos anos 80 que me lembrei? Do Metrô, que cantava “Beat acelerado” e do João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Gostava de uma música deles que o Lulu regravou…”Popstar”.
    Continue abrindo seus diários e suas agendas, viu? Tá muito bom!

    Marcinha

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