O sol morre pra todos

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Na periferia, tudo é pouco. Até a luz. As ruas são escuras e depende de onde você mora para saber se ela vai aparecer mais tarde ou sumir mais cedo.  Na baixa, vemos os prédios subindo cada vez mais altos. Feliz é quem mora no alto do morro. Mais ainda quem mora nos arranha-céus. Vão pegando o sol e o vento só para eles. E tem a vista. De um lado, a praia, o horizonte que não se sabe onde acaba. De outro, a favela, a miséria, que não se sabe quando acaba. Talvez a vista daqui seja melhor, porque só se olha para cima. É aproveitar e pedir algo aos céus. Aqui, a noite chega antes. Como não tem muito que fazer em casa, a diversão é na rua: ficar na calçada, andar sem destino, beber para esquecer, fazer alguma bobagem, encarar um fliperama.  Já levaram até o pôr-do-sol. Agora ele só se põe para os bacanas. Pra lá dos prédios. A gente se contenta com a luz do poste que finge para a gente como finge toda a outra gente: que vão nos tirar daqui, que vão ajudar, que tudo vai melhorar. Deixe estar. O sol morre pra todos, já dizia aquele doidinho, “só não sabe quem não quer”.

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4 respostas a O sol morre pra todos

  1. wison natal disse:

    A miséria perde os seus horizontes.
    Os monolitos escondem o Sol.
    Nascentes e poentes gloriosos passam a ser privilégio de poucos.
    A brita, o cimento e a areia adquirem vida e transformam-se em gigantescas torres babilônicas a esconder paisagens naturais.
    E a miséria, que antes compartilhava um Sol que nascia para todos, vê-se ameaçada.
    De repente, terrenos grilados, invadidos – terras que ninguém queria, começam a valorizar-se e o concreto precisa delas para procriar.
    E a miséria, sem Sol, sem paisagem,desde algum tempo sitiada qual um gueto de Varsóvia é obrigada a retirar-se sabe-se lá para onde…Começam as promessas: Casas de aluguel provisórias,promessas de casas próprias em imaginários conjuntos habitacionais… E a miséria vai tomando consciência de que o Sol não mais nasce para todos. Que, os sonhos morrem quando a gente acorda.
    E a cidade, antes convidativa, com seu casario colorido, suas praças e ruas ensolaradas, engolida pelos gigantes de concreto, transforma-se num fundo de poço. Escuro, poluído e degradado.Alí, nem mesmo o lusco-fusco das estrelas podem ser vistos. Vazio e solidão…

  2. Sandro e Wilson,

    Ambos poéticos.
    É triste a realidade de muitos.E muito mais triste o descaso de tantos.
    Hoje não estou tão inspirada quanto voc~es então farei uma citação:

    “Se soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda assim plantaria uma macieira.

    O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos.

    Temos aprendido a voar como pássaros, a nadar como peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.”

    (Martin Luther King)

  3. Lekkerding disse:

    Caramba, que texto lindo! Não tinha visto antes. Cadência gostosa, se fosse uma música, eu jurava que era o Gonzaguinha.
    Pena que tanta beleza e poesia tem de ser usada pra falar de tanta coisa triste.

  4. Pingback: Do que eu vou sentir falta | last song

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