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    O sol morre pra todos

    janeiro 8, 2010 – 11:55 am

    postesol

    Na periferia, tudo é pouco. Até a luz. As ruas são escuras e depende de onde você mora para saber se ela vai aparecer mais tarde ou sumir mais cedo.  Na baixa, vemos os prédios subindo cada vez mais altos. Feliz é quem mora no alto do morro. Mais ainda quem mora nos arranha-céus. Vão pegando o sol e o vento só para eles. E tem a vista. De um lado, a praia, o horizonte que não se sabe onde acaba. De outro, a favela, a miséria, que não se sabe quando acaba. Talvez a vista daqui seja melhor, porque só se olha para cima. É aproveitar e pedir algo aos céus. Aqui, a noite chega antes. Como não tem muito que fazer em casa, a diversão é na rua: ficar na calçada, andar sem destino, beber para esquecer, fazer alguma bobagem, encarar um fliperama.  Já levaram até o pôr-do-sol. Agora ele só se põe para os bacanas. Pra lá dos prédios. A gente se contenta com a luz do poste que finge para a gente como finge toda a outra gente: que vão nos tirar daqui, que vão ajudar, que tudo vai melhorar. Deixe estar. O sol morre pra todos, já dizia aquele doidinho, “só não sabe quem não quer”.

    1. 4 Responses to “O sol morre pra todos”

    2. A miséria perde os seus horizontes.
      Os monolitos escondem o Sol.
      Nascentes e poentes gloriosos passam a ser privilégio de poucos.
      A brita, o cimento e a areia adquirem vida e transformam-se em gigantescas torres babilônicas a esconder paisagens naturais.
      E a miséria, que antes compartilhava um Sol que nascia para todos, vê-se ameaçada.
      De repente, terrenos grilados, invadidos – terras que ninguém queria, começam a valorizar-se e o concreto precisa delas para procriar.
      E a miséria, sem Sol, sem paisagem,desde algum tempo sitiada qual um gueto de Varsóvia é obrigada a retirar-se sabe-se lá para onde…Começam as promessas: Casas de aluguel provisórias,promessas de casas próprias em imaginários conjuntos habitacionais… E a miséria vai tomando consciência de que o Sol não mais nasce para todos. Que, os sonhos morrem quando a gente acorda.
      E a cidade, antes convidativa, com seu casario colorido, suas praças e ruas ensolaradas, engolida pelos gigantes de concreto, transforma-se num fundo de poço. Escuro, poluído e degradado.Alí, nem mesmo o lusco-fusco das estrelas podem ser vistos. Vazio e solidão…

      By wison natal on jan 9, 2010

    3. Sandro e Wilson,

      Ambos poéticos.
      É triste a realidade de muitos.E muito mais triste o descaso de tantos.
      Hoje não estou tão inspirada quanto voc~es então farei uma citação:

      “Se soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda assim plantaria uma macieira.

      O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos.

      Temos aprendido a voar como pássaros, a nadar como peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.”

      (Martin Luther King)

      By Christiane Angelotti on jan 9, 2010

    4. Caramba, que texto lindo! Não tinha visto antes. Cadência gostosa, se fosse uma música, eu jurava que era o Gonzaguinha.
      Pena que tanta beleza e poesia tem de ser usada pra falar de tanta coisa triste.

      By Lekkerding on jan 11, 2010

    1. 1 Trackback(s)

    2. jan 11, 2010: Do que eu vou sentir falta | last song

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