O banho

banho

O banho da morena é na calçada. Passa gente a pé, de carro, de ônibus. Aproveitando a parada – bem em frente –, às vezes, de lado, disfarçados, os olhos de algum passageiro pousam por mais tempo na pele e nos cabelos ensaboados. Ninguém liga muito. A morena não é alguém. Não tem direito a banheiro, chuveiro, banho sem roupa, privacidade, respeito, um momento só seu. Cumbuca em água pouca, cuidado no cálculo que é para não faltar. Molha, ensaboa, descansa, olha a rua, pega sol, pega fuligem, molha de novo. À vista de todos, mas sem as muitas câmeras previstas por Orwell. Só uma. Quem passa, olha, mas não vê. Se não acreditarmos na miséria, quem sabe ela não desaparece? Não desaparece. A mestiça na calçada a conhece bem. O cenário muda, mas o destino dos personagens é o mesmo. Não é a liberdade dos antepassados à beira do rio. Afastaram o sonho, asfaltaram o rio, mas a menina continua à margem.

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2 respostas a O banho

  1. wison natal disse:

    Sem querer ser irônico – já sendo.
    Esta morena lembrou-se as Ninfas de Brasília.
    Talvez,pela sensação de individualidade, de abandono aos prazeres de sentir a si mesma, independente do local. É um momento único, íntimo. Ela é a paisagem. Ela é a cena urbana! nada mais importa.
    A ironia está no fato de as Ninfas serem previsíveis: Estão lá, no seu banho perene…As morenas desses muitos Brasís são as agradáveis surpresas às margens dos rios,lagos, riachos e córregos poluídos. Tão diferentes das banhistas retratadas nos ateliérs de Mont Martre…

    Abração,

  2. É incrível como nos acostumamos com o que não se poderia se acostumar…

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