Há 20 anos…

agendas

Onde você estava, com quem e o que estava fazendo na manhã de 2 de janeiro de 1990? Se me perguntassem isso em uma cena de filme em um tribunal, eu responderia: “Estava na praia de Ponta Negra, em Natal, com minha namorada Fabíola”. E adiantaria: “À tarde, depois do banho, fizemos amor e assistimos ao filme Um Grito no Escuro, que tem Meryl Streep, uma de minhas atrizes preferidas, no elenco”.

Eu tinha 17 anos, meus pais haviam viajado para o Rio e aproveitei para bancar o homem da casa. Errei quando peguei o Corcel II (creme claro, placa ST 0844, RJ) e banquei o playboy, indo para a praia todos os dias, namorada a tiracolo, caipirosca para ficar no grau. Três dias depois, dia 5, uma sexta, foi a última vez que fizemos o passeio. Na volta, chovia. Ao entrar na BR 101, minha arrogância e imprudência de moleque não me fizeram pisar no freio ao ver um caminhão vindo em alta velocidade. Ele deveria manter a faixa e deixar a que eu estava liberada para quem vinha da Estrada de Ponta Negra, mas não fez isso. Em segundos, vi o caminhão crescendo bem ao meu lado e jogando o carro em uma pequena ribanceira. Não aconteceu nada conosco. A lateral do carro ficou amassada e ele jamais voltaria a ser o mesmo, pois a pancada afetou o eixo de direção de forma irreparável.

Gastei o dinheiro de uma poupança, que estava fazendo para viajar, pagando o guincho e mandando consertar a lataria. Meu pais voltariam uma semana depois e talvez não percebessem nada. Se a polícia foi ineficiente e não chegou a tempo, as línguas dos colegas de trabalho de meu pai foram rápidas e competentes, avisando-o de que viram o carro circulando enquanto ele não estava na cidade.

Foi assim que, antes de ter 18 anos e uma carteira de motorista, aprendi a dirigir com cuidado, responsabilidade e, sobretudo, pelos outros. Não o faço hoje. Acho estressante e adoro ter alguém de motorista, desde que também seja calmo e responsável. Estresse, zigue-zague, correria e buzina não são comigo. Quem quiser que morra sozinho. Saudades de Brasília, o lugar mais maravilhoso que existe para dirigir. Tesourinha, tesourão, tesourinha…

3jornais1989E sabem o que eu estava fazendo um ano antes, em 2 de janeiro de 1989? Logo pela manhã comprei um exemplar de The Miami Herald em uma banca na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com República do Peru. Achei parecido com O Globo que, a propósito, havia saído no dia anterior. Era a primeira vez que saía no primeiro dia do ano e trazia a cobertura do réveillon, dando destaque ao naufrágio do Bateau Mouche IV, no qual morreram a atriz Yara Amaral e dezenas de pessoas. Foi também no dia 2 de janeiro daquele ano que experimentei Diet Coke pela primeira vez.

No dia seguinte, 3, uma terça, comprei o argentino La Nacion. Eu era um jovem e ainda aplicado estudante de jornalismo. No fim da tarde, assisti Um Príncipe em Nova York, que se tornaria um clássico da Sessão da Tarde. Na quarta, 4, fui a Todos os Santos e arredores. Visitei Patrícia Olga e Marcinha, amigas de infância. À noite, já de volta à Copa, em uma sessão às 22h, assisti Uma cilada para Roger Rabbit. O filme havia estreado no verão americano, em junho de 1988, mas só chegou aqui em dezembro. Naquele tempo, não tinha isso de “estreia mundial”. No Brasil, quem quisesse ver um filme, tinha que ter paciência e esperar.

Irremediavelmente e para todo sempre apaixonado por Jessica Rabbit, descobri, na quinta, que ela havia sido capa da Playboy americana em novembro. Comprei e a tenho muito bem guardada até hoje.  Nesse mesmo dia, saía, em Natal, a quinta (e última) edição do Graúna, um jornalzinho que eu fazia com Alexandre Mulatinho, colega de turma na faculdade. À noite, comecei a ler Diário de um Cucaracha, de Henfil. O nome do jornal, claro, era uma homenagem a ele. Na sexta, 6, telefonei para alguns colegas de ginásio: Renata, Neusa e Cleber. No sábado, 7, continuei os contatos telefônicos: Lívia Formiga, Patrícia Romana e Márcia Cristina. Às 14 horas nos reunimos no McDonald’s do Méier. Dos nove alunos que completaram o ginásio no Pequeno C.E.U. em 1984, sete estavam presentes. Marcinha, muito tímida à época, declinou do convite. Com Sérgio Gama não consegui contato.

Como lembro esses detalhes de dias ocorridos há 20, 21 anos? Porque sempre escrevi. Em agendas ou diários. Estes, sobre os quais falei, têm anotações em agendas. Os detalhes estão ainda frescos na memória. A ideia de escrever sobre eles apareceu no final de 2008, ao revirar uma caixa com agendas, cartas e escritos dos anos 80 e 90, mas só agora coloco em prática. Esporadicamente, aqui no blog, vou lembrar, mostrar fotos, recortes, colagens e tudo mais que ficou guardados nessas cápsulas do tempo. Quem participou, pode ajudar a lembrar de algo mais. Quem não estava lá, pode dizer o que estava fazendo na mesma época. Conseguem lembrar? Contem aí nos comentários.

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8 respostas a Há 20 anos…

  1. Louise disse:

    eu lembro!!!
    estava na barriga da mamae! vale?!

    Vale! Lembra de alguma coisa lá dentro? 😀

  2. Atila Pessoa disse:

    Eita, cabra! meses depois eu estava enfiando o pé na porta para (re)abrir um CA na UFRN. E você estava lá. hehehe
    Em 02/01/1990 eu apenas ganhava que meu folhetin/fanzine dos tempos colegiais estava fadado às lembranças, pois novos desafios estariam por vir e não dava para manter a mesma linha editorial nos corredores acimentados do Setor V do Campus Universitário.
    Comi muita poeira naquele curso. Só hoje vejo quando de conhecimento ultrapassado fomos submetidos, valendo tão somente pelos anti-corpos conceituais. São raros momentos de sanidade em professores como Pandolphi, Cadengue e Serejo na tentativa de formar alguns comunicadores.
    No mais, era cumprimento de tabela e uma baita despreocupação com quem estaria por ocupar um espaço no mercado de trabalho, quiçá promovendo a renovação do quadro acadêmico em substituição de si mesmos. E esta falta de visão de futuro, com foco na melhoria continua e crescimento de oportunidades com a força da juventude que sinto claramente que poderia ter sido melhor explorada nas turmas daquela época.
    Mas ainda há tempo. E espero que possamos de alguma forma manter uma postura exemplar para que outros jovens, como fomos um dia, tenham a referência de trabalho para vencer os obstáculos da profissão e da vida.
    Eu acho até que vou dar uma volta e tentar abrir mais algumas portas por aí. Passou da hora. hehehe

  3. Anderson Werneck disse:

    Tava no ovo de painho. (Já dizia ele)

    É o fino!

  4. Meire disse:

    Ano passado joguei minhas agendas no lixo …

    Tive uma experiência dessas há uns… 19 anos. Será contada nesta série.

  5. Wilson Natal disse:

    Em 1990, como eu não era ainda nascido, eu não passei o Natal e o Reveillon em Petrópolis.Portanto, em 02 de janeiro, não desembarquei, caindo de sono, trêbado, na Rodoviária Grande Rio e não peguei o “busunga” até o Flamengo, onde visitei os amigos, as putas e nem fui ao Passeio comer sanduba e encher a cara de “Mineirinho”. Ah! Também não fui à Pça. XV e nem peguei a balsa para Niterói(E nem teria pegado a lancha: No “bode de mé” que eu estaria, nem Dramamina faria efeito. Iria vomitar até os “zóios”) e não fui de lá, até São Gonçalo visitar uns “chegados da pesada” que moravam num favelão de fazer inveja à Rocinha.

    E como não era nascido, não fiquei por lá, na maior zona e não retornei a São Paulo no Dia de Reis e não precisei aguentar os xingos, os gritos e as caras de preocupação dos familiares que não teriam recebido nem um telefonema sequer depois que sai de Petrópolis.

    Como você pode deduzir, eu não sou tãããooo velho assim! Não sou do século passado e nem do Milênio passado…

    O que é CORCEL II? É cruzamento de jegue com cavalo de corrida, é?

    Desculpa ai, tio se não tenho nada a dizer…
    Ahahahahahahahahahahaaaaaaaa!!!

    Abração,
    Wilson, o carinha mais mentiroso da WEB!:)

  6. Marcinha disse:

    Sandrinho, fiquei muito feliz com o seu retorno. Andava saudosa de seus textos. É…mais uma vez você me emocionou… Deixe-me explicar. Vamos por partes, como diria Jack, né? rsrsrsrsrsrsrsrs. Esse Reveillon foi para mim especialmente feliz. Fazia tempo que não via a minha mãe tão linda e jovem.
    Ainda contagiados pelo filme “Mamma Mia”, ao qual assistimos novamente semana passada, passamos a virada do ano ao som de ABBA. Minha mãe encarnou a personagem de Meryl Streep no filme, dançou e dublou muitas das músicas. Junim, meu irmão, filmou tudo. Rimos muito juntos. Minha mãe voltava a ser uma jovem de 17 anos… E percebi que juventude e alegria vêm de dentro, basta um empurrãozinho para que se manifestem.
    Lembrei dos meus 17 anos e das muitas conquistas e sobretudo superações que eu havia conseguido desde então. Às vezes você consegue ser mais jovem aos 40 do que aos 15, por exemplo (eu quem o diga!)E…depois de tanto filosofar, recebo o seu texto… Fiquei emocionada por demais.
    Não me lembro exatamente o que eu estava fazendo no dia 02 de janeiro de 1990. Provavelmente estava com minha família em Araruama, numa casa que tivemos lá durante 15 anos e onde costumávamos passar as férias de janeiro. Em janeiro de 89 talvez estivesse por lá também, empolgada com a expectativa de começar a faculdade de Psicologia.
    Bem, e cá estamos nós 21 anos depois. Que bom! Há quanto tempo nos conhecemos? 25, 30 anos? É… vínculos afetivos construídos sobre uma amizade sincera também despertam alegria e juventude porque mantêm o mesmo frescor de 20 anos atrás. E a vida, tão generosa e surpreendente, nos brinda com a possibilidade de novos encontros, permitindo-nos grandes e valiosas (re)descobertas.
    Beijo, querido!
    Marcinha

  7. Henderson disse:

    Não me lembro…naquela época tinha 15 anos, morava no Rio, e estava começando a apreciar certas diverções químicas (também por imprudência)!! Logo no ano seguinte, 1991, fui morar em Natal…

  8. Tenho agendas e diários desde os 14 anos de idade; mas estou acamada com uma gripe da mulesta e nao tenho coragem de ir ali futricar na caixa onde estão essas agendas. Fica para depois a resposta à sua pergunta.

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