Mantenha viva a esperança

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Este é o último final de semana para o público paulistano apreciar Rodin do Ateliê ao Museu – Fotografias e Esculturas. A próxima parada da exposição é Natal, onde deve ficar até março. Ainda em janeiro, chegam também à cidade as esperadas mostras fotográficas de Walker Evans e Henri Cartier-Bresson. Antes do carnaval, aportam por aqui Matisse Hoje e A arte indígena de Victor Brecheret.

Será mesmo um ano rico para a cultura em Natal. A exposição de Rodin inaugurará o Museu Felipe Camarão, que toma todo um quarteirão da Avenida Rio Branco. Por anos, o espaço foi ocupado por prédios decadentes que atraíam vagabundos, viciados e criminosos. Recuperado pelo Governo do Estado, servirá agora às Artes. As mostras de Evans e Bresson tomarão quatros andares da Casa de Cultura Nísia Floresta, também na Cidade Alta. Matisse e Brecheret estarão, respectivamente, no Museu José Augusto, mantido pela Assembleia Legislativa, e na Pinacoteca Municipal.

Talvez você tenha passado os últimos dias longe dos jornais e da Internet e esteja surpreso com todas essas novidades. Não se preocupe. É tudo mentira. E por mais anos novos que você venha comemorar – e desejo que sejam muitos –, é provável que nunca leia notícias como estas nos jornais de Natal. As exposições são todas reais e aconteceram em 2009 no Brasil. Os locais onde deveriam acontecer em Natal são todos fictícios. Os poucos locais que existem não oferecem as mínimas condições para exposições desse porte. Então, voltemos à realidade: se você for a alguma em 2010, certamente será do já conhecido tipo “banner feito em Word e impresso na xerox da esquina”, como costumamos ver nas feiras de ciências de colégio.

Por que Natal, uma cidade quatrocentona como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador, não recebe grandes exposições e espetáculos? Buscando o motivo, logo esbarraremos na falta de uma política cultural. Falta. Ausência total. Inexistência. De longa data. E que ninguém venha com seu proselitismo de quinta citando investimentos que nunca acontecem ou eventos ridículos dos quais qualquer cidadezinha de cinco mil habitantes e sem escola teria vergonha.

Porém, a causa real do problema não é a falta de política cultural. É a falta de exigência do cidadão. Ao elegermos, para cargos públicos, pessoas sem qualquer compromisso com o desenvolvimento cultural, estamos dizendo que não nos importamos com isso, que estamos satisfeitos com as maquetes de papelão, os banners, as fantasias baratas, a péssima qualidade de ensino. Crescendo em uma sociedade com padrões tão baixos, o que se pode esperar do gosto do adulto? Que se abestalhe e se admire de qualquer parlapatice apresentada. Boneco do posto é escultura, rabisco é pintura, passou um pó na cara, virou ator de teatro.

Nos autos de Natal, há poucos dias, os artistas protestaram. Parecem ter se cansado da esmola de fim de ano e resolveram mostrar seu descontentamento. Alguns capitularão durante as campanhas eleitorais. Farão personagens, aparecerão na tevê, garantirão as próximas festas. Depois voltarão ao local de onde o presidente disse querer nos tirar. Outros, cansados de guerra, trocarão a praça pelo aeroporto Augusto Severo. Alguns, com vocação para heróis, continuarão lutando. No fim de 2009, aprenderam a mostrar que estavam amordaçados e a apontar o opressor. Espero que em 2010 resolvam falar – gritar, se preciso – e não estender a mão à primeira esmola, ao primeiro cala-boca.

Qualquer um que vote, terá uma boa oportunidade de também mudar isso este ano. Você já tem candidato? Não, não vou lhe dizer o número daquele meu amigo que me prometeu uma boquinha se for eleito. Vou dizer que você procure saber das ideias de cada um deles e que vá cobrá-los depois da posse. E que não esteja mais sujeito a essa canga de obscurantismo cultural que lhe botaram ainda na maternidade. Desacostume-se. Reaja.

Cada um de nós tem uma função nessa luta. A minha é bater e provocar – “Olhe o que você está perdendo, bobão!”. Qual é a sua?

Publicado na Tribuna do Norte (Natal, RN),
caderno Viver, em 1º de janeiro de 2010.

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Uma resposta a Mantenha viva a esperança

  1. Wilson Natal disse:

    Natal se perdeu do seu destino que é (ou era) ser uma cidade turística. Acomodou-se em ser uma cidade praiana, ou praieira. Praias lindas, um rio histórico e lindo – paisagem nem tanto, já que está desaparecendo por trás dos “espigões”… Cidade de restaurantes, de folclore e passeios turísticos que poderia estender-se até Macau e Mossoró (Se é que estas cidades investem no turismo…) E tantas outras cidades ribeirinhas ou de praia, se sensatamente explorada, dariam ao RN o “status” internacional de turismo.

    E Natal, como uma Capital cheia de atrações, peca por não ter um circuito cultural ativo, praças e monumentos bem cuidados. É uma cidade com tantas possibilidades, rica em tradição – na maioria das vezes esquecidas pelos dirigentes da cidade e do estado.Tantos grupos de teatro relegado ao amadorismo; excelentes bailarinos populares e clássicos que precisam esmolar para poder apresentar-se em um festival.
    Lorenzo, meu amigo italiano, costuma dizer que o “Brasile” tem cidades lindas e atrativas para se fazer turismo e que “infelizmente há poucas “cidades-bar” e muitas “cidades-botequim”.
    Em um bar você entra, senta e é servido. Em um botequim, encosta-se a barriga no balcão, pede um café ou uma “marvada”. Toma tudo de um gole só e larga o dinheiro sobre o balcão…
    Cidade-bar, ou Cidade-botequim? O que Natal quer ser? O que querem que Natal seja?…
    A moral dessa “história” deixo que a população da cidade defina.
    Abração,
    wilson

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