Maria Eduarda

Maria Eduarda, 4 anos de idade, moradora da comunidade do Maruim, bairro das Rocas, Natal, Rio Grande do Norte. Desde o nascimento, conviveu com a má nutrição, a ignorância dos adultos ao redor, com a falta de saneamento básico e de um futuro promissor. Todas as crianças daquela área podem passar fome, andar descalças o dia inteiro e brincar no esgoto, sem ter um resfriado ou uma alergia. Parecem resistir a tudo.

Agora, depois de décadas de promessas e uma sucessão de administradores que só apareciam por lá para conseguir mais alguns votos, o Maruim vai acabar. As famílias ganharão um lugar que possam chamar de casa, as crianças não precisarão viver nos esgotos nem dividir seus finos colchões com ratos e baratas. As mazelas serão minimizadas. Talvez algumas acabem por completo. Para Maria Eduarda, todas terminaram na tarde do último domingo. Com uma bala no peito.

Negra, pobre, nordestina, Maria Eduarda não vai aparecer na capa das principais revistas do país, nem ganhará uma reconstituição de seus últimos momentos a ser exaustivamente reprisada pelos telejornais. Ficará apenas com as matérias de alguns jornais de Natal. Primeira página. Já parece alguma coisa.

Não acompanharemos o julgamento de quem a matou. Provavelmente o assassino nem será preso. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Falta dignidade, sobra medo. Quem deu o tiro talvez encontre a morte da mesma forma, seja por vingança ou durante uma briga de gangues.

Durante o enterro da pequena Maria Eduarda – uma entre dezenas de crianças que conheci no início deste ano no Maruim –, silêncio e nenhuma comoção. Nas fotos nos jornais, adultos e outras crianças de braços cruzados, olhares perdidos, impotentes, pensando que podem ser os próximos. E serão. Só é impossível saber a ordem.

Outros inocentes vão morrer dessa forma. No Maruim de Natal ou de qualquer outra cidade. São uns bichinhos lindos e puros como os meus filhos ou os seus. Em tese, com os mesmos direitos. Na prática, condenados a não ter futuro. Se chegarem à vida adulta, o que serão? Analfabetos como os pais? Traficantes que também matarão outras crianças?

O sorriso de Maria Eduarda, na foto reproduzida pelos jornais, ou das crianças que fotografei no Maruim tem data de validade. Eu poderia ter procurado por ele – o sorriso – em alguma foto, mas preferi colocar uma imagem que espelha bem melhor o futuro dessas crianças. E não adianta mudá-las de lugar. Sem educação, sem saúde, sem alimentação adequada, sem segurança, sem orientação, sem muito Amor, essa história se repetirá sempre.

Não esperemos pelo poder público, que, no Brasil, quase sempre é poder pessoal travestido. Olhe para cada Maria Eduarda como se fosse uma filha sua. Faça o que puder para que seu próximo presente de aniversário, do dia das crianças ou do Natal não seja um pequeno caixão branco.

Você pode ajudar uma dessas crianças. Faça isso.

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Links externos
No Minuto: Menina de quatro anos morre com bala perdida nas Rocas
Diário de Natal: Menina é morta por bala perdida

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5 respostas a Maria Eduarda

  1. Ana disse:

    Post lindo e foto maravilhosa numa história de horror.

  2. José Carlos disse:

    Sandro Fortunato, tomei a liberdade de levar o seu texto para o meu blog, sem nem mesmo pedir prévia autorização. Acontece que, acometido de tantas barbaridades cometidas contra as crianças, dentro de uma banalização da violência e de um clima de impotência diante do emergente avanço de tantas atrocidades, o ímpeto de revolta e indgnação nos toma por completo e seguimos adiante, deixando, às vezes, de lado, algumas formalidades. Como seria o de pedir permissão para transcrição do texto. Mas acredito, que de sua parte não haverá problemas, quando entendo que o seu objetivo, também, é o de disseminar tais informações. Esperamos, não é uma utopia, reverter o quadro de tanta injustiça e impunidade.

    Neste caso, espero que muitos outros façam como você e copie logo OS DOIS textos sobre Maria Eduarda. Obrigado.

  3. Sandro, esta é verdadeiramente uma imagem de choque num texto de choque.
    Sinto que a imagem deta menina está colada a minha retina. Uma foto poderosa, impressionante e chocante pela dimensão da tragédia da sua história tão bem sintetizada nesta sua crónica.
    Também quero acreditar que a tragédia da Maria Eduarda possa mobilizar a Justiça e a sociedade. Mas não sei se chega quwrer… Quantas marias eduardas acontecem por dia no nosso país?! Mesmo quando a violência não leva à morte imediata?!

    Beijo,
    Renata

    MUITAS! E é por isso que não podemos calar. Se nos anestesiarmos, vamos ter sempre esta triste resposta: MUITAS!

  4. Catarina Pinheiro disse:

    caro
    Vc disse Bem; “NOSSA FILHA”,´sou leitora assidua do CANINDE Soares, e tinha a Mª Eduarda, como uma linda criança, que com tão pouco era Muito feliz, com sorriso largo…há que os Anjos do senhor te acolham nesta nova morada, só quem já teve uma dor desta , sabe quanto é duro conviver com a INJUSTIÇA DOS HOMENS aqui na terra. è preciso coragem para banir certos personagens engravatados que SÒ fazem leis…e cumprir com elas..nada.e lembrem-se, poderia ser a sua filha (o).

  5. Pingback: Maria Eduarda « Vagabundos Iluminados

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