Maria Eduarda, nossa filha

Esta é Maria Eduarda, duas semanas atrás. A foto foi originalmente publicada no Blog de Canindé Soares, sob o profético título Despedida do Maruim. Ao lado, outra imagem: uma boneca esquecida no esgoto.

Esta era Maria Eduarda, que foi assassinada dois dias atrás. Ia se despedir do Maruim dentro de mais algum tempo, mas essa bonequinha teve sua vida abreviada pela selvageria de animais que nunca deveriam ter saído do esgoto.

No final da manhã, estivemos – eu e Canindé Soares – procurando colocar os primeiros pontos nos “ii”para não deixar que a trágica história da menina seja esquecida. Do disse-sobretudo-NÃO-disse do povo amedrontado do Maruim, surgiram histórias e hipóteses diferentes contadas pelos jornais. Acostumados a frequentar a comunidade, fomos até lá para saber detalhes do ocorrido e, em seguida, conversamos com a Dra. Deusa Alves dos Santos, titular da Delegacia Especializada em Defesa da Mulher.

Circulam duas versões para o ocorrido. A primeira diz que os dois criminosos foram ao Maruim buscando “um acerto de contas” – entenda-se “matar” – um morador do local. Motivo: disputa de tráfico de drogas. A segunda, que começa a se tornar mais consistente, diz que um dos criminosos teria ido vingar a morte do irmão, que havia ocorrido no dia anterior. A mandante teria sido a mãe de Maria Eduarda, que, não é mãe biológica, mas a criava (segundo os vizinhos, com muito carinho) desde que a menina tinha poucos meses de vida. Tudo no condicional, no campo das hipóteses, pois os fatos estão sendo investigados e não há conclusões a respeito de quase nada. O único fato é que uma menina de quatro anos foi morta.

O pai de criação de Eduarda foi prestar queixa no 2º Distrito Policial, no Bairro de Brasília Teimosa, mas foi encaminhado à Delegacia Especializada em Defesa da Mulher, que é a responsável por qualquer tipo de agressão a mulheres de qualquer idade. Até o momento em que estivemos na delegacia, por volta de 10h30 desta terça-feira, este havia sido o único contato de um familiar com a polícia. O pai não havia voltado até então e a mãe não prestou depoimento. A delegada acredita que o alvo era mesmo a mãe e desconfia de seu comportamento. Que mãe entregaria a filha baleada nos braços de uma sobrinha adolescente para que esta a levasse ao hospital? Que mãe não correria em busca de justiça?

O casal está com medo. Toda a comunidade do Maruim está. Ainda que violência, brigas e mortes não sejam algo tão estranho a eles. Em uma de nossas visitas, no início do ano, ouvimos uma conversa entre moradores: “Cadê fulano?”; “Não sabe, não? Levou uma facada no olho, ontem. Tá no hospital”. Assim, de forma trivial, como se a pessoa tivesse dado uma topada e ido ao pronto-socorro fazer um curativo. O Maruim não conhece a violência da tevê ou do cinema. Conhece a violência real, verdadeiramente dura, que embrutece as pessoas. E as crianças de lá, que não têm direito à infância, aprendem isso desde que nascem. Essa menina linda na foto, nem foi criada pelos pais biológicos, que também não devem saber que ela foi assassinada.

Os dois criminosos já foram identificados. Nos jornais, suas alcunhas. Na mesa da delegada, seus nomes verdadeiros. Um já é acusado de outro assassinato cometido este ano. O segundo, ainda não se sabe se é maior de idade.

Equilibrada e se mostrando consciente da função que exerce, a delegada disse acreditar na ressocialização do indivíduo. Lembrei a ela que muitos preferem pensar que criminosos desse tipo fazem um grande favor à sociedade quando resolvem se matar. Poupam a vida de policiais honestos, pais de família, e o dinheiro da gasolina e da munição que eles usam e é pago por nós, cidadãos. Só que, dessa vez, independente da versão que venha a se mostrar verdadeira, uma criança pagou com a vida. Uma criança negra e pobre, atributos que fiz questão de frisar antes de perguntar se, por esses motivos, o crime não poderia acabar sendo minimizado, tratado como um infeliz acaso no qual a criança estava na hora e no lugar errados. Dra. Deusa garantiu que não.

A senhora tem filhos?”, perguntei. “Três já crescidos”, me respondeu a educada e ainda sensível (apesar do cargo que também exige certo embrutecimento) delegada, que se arrepiou ao ver a foto da bela Maria Eduarda e seu sorriso inocente como de toda criança. Como foram um dia os três filhos da delegada. “E como a senhora recebeu esse caso?”. “Antes de tudo, como cidadã e mãe”, me disse ela. É com esse sentimento que queremos que o caso seja tratado. Maria Eduarda, que não sabia quem eram os pais biológicos, era minha filha, era filha de Canindé, era sua filha e é filha de cada um que sabe o que é ser pai e mãe. Cada vez que uma criança sorri, vejo um filho meu sorrindo. Cada vez que uma criança é violentada e morta, eu choro como se fosse meu filho. Porque É meu filho também. Porque eu me sinto falhando em defendê-lo. Porque eu faço parte do mundo adulto que deve proteger toda e qualquer criança.

Estamos cansados de ver o Mal nos olhos de jovens e adultos drogados, ladrões, estupradores, assassinos. Queremos ver o Bem nos olhos e nos sorrisos das crianças. Que elas possam crescer e manter isso. Particularmente, acredito na existência de uma “justiça divina”, mas acredito mais ainda que seja nosso dever fazer justiça aqui. Tanta civilização, tanta educação, tanto estudo de uns não podem ser subjugados pela selvageria de outros.

A polícia civil está em greve. Dra. Deusa garante que ontem, em apenas um dia de investigação, a polícia obteve muitas informações. Ela acredita que os criminosos serão presos. Nós também acreditamos. Queremos. E vamos cobrar.

Você também vai ou prefere continuar acreditando que essas coisas só acontecem com os outros? Vai esperar uma bala chegar na sua criança?

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2 respostas a Maria Eduarda, nossa filha

  1. Carolyna disse:

    ….Sem palavras…

  2. ianniu disse:

    sorriso eterno. belo, lindo e servindo de cobrança.

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