Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica

Um grupo de teatro sai da província e faz temporada na cidade grande. Celebremos! Não façamos, porém, como o personagem da peça que o tal grupo encena, que ouviu falar das belezas do mar e, sem nunca tê-las visto, as espalha pelo sertão.

Se estamos acostumados à crítica vazia do gênero “não vi e não gostei”, em Natal nos acostumamos também à sua amável irmã cega, que não viu e adorou. Os Clowns de Shakespeare são vítimas dessa última. Há anos têm casa cheia em estreias e curtas temporadas. Não importa o que apresentem. São os Clowns? Então é bom. O estouro da boiada está garantido pelo nome da grife. Muita gente vai voltar da porta, muita gente vai assistir sem saber o título da peça ou do que trata.

Por um lado, isso garante o suado sustento dos atores e aumenta sua autoestima; por outro, não lhes dá a oportunidade de avaliar e corrigir erros. É para isso que serve a crítica. Copiar o texto de divulgação e publicá-lo em jornal com ares de matéria é ação de colegas. Assistir ao espetáculo e criticá-lo – para o bem ou para o mal – é ação de amigo, mesmo que venha de um desconhecido. O jornalismo Ctrl+C/Ctrl+V, amplamente empregado nos cadernos ditos de cultura, garante os convites para a próxima peça, os tapinhas nas costas e a circulação entre os artistas. E só. Atores e público não ganham nada com isso.

Mas já há tão pouco espaço, se faz tão pouco, se ainda formos criticar…”. Se ainda formos criticar, vamos ajudar a melhorar. A cretinice da cultura do elogio só é boa para os covardes que querem viver na ilusão. Fecham-se no oba-oba dos medíocres e vivem a mentira do extraordinário quando são, no máximo, sofríveis. “Mas se a gente criticar, aí é que o povo não vai”. Um público que se deixa influenciar pelo que ouviu e não pelo que viu e analisou é melhor mesmo que fique em casa, na frente da tevê. Hoje, no teatro, o que mais se vê são focas amestradas prontas para bater palmas ou hienas nervosas, dispostas a rir por qualquer bobagem. Sequer sabem diferenciar um momento dramático de um cômico. Isso não é público de teatro. É público em busca de entretenimento. E o tipo que pergunta “Será que presta?” é o pior. Melhor ficar em casa. Prestando atenção ou não, não há de entender alguma coisa mesmo. Que fique com a novela.

Aos dezesseis anos de idade, os Clowns de Shakespeare debutaram em São Paulo com o espetáculo O Capitão e a Sereia. Não mais uma simples passagem, uma ou duas apresentações em algum festival. É uma temporada. Cinco apresentações semanais no Sesi Vila Leopoldina. A metrópole não poupa ninguém e eles não têm encontrado “coleguinhas”, críticos com o rabo preso ou dispostos a favores. Longe da segurança da casa materna, os Clowns finalmente botaram a cara à tapa. Uma delas veio do guia da Veja São Paulo que, duas semanas após a estreia, “deu-nos uma estrela e escreveu palavras duras e injustas sobre o espetáculo”, como disse o diretor Fernando Yamamoto no blog O Diário do Capitão, que vem mostrando a peça desde seu processo de criação. Passaram quase quinzes dias com “aquele engasgo na garganta” até que um crítico da Folha de S. Paulo os redimisse, escrevendo de forma “muito elogiosa, reconhecendo nosso trabalho e a nossa trajetória”.

Na cômoda e irrevogável posição de ter sido o primeiro a escrever uma crítica ao trabalho dos Clowns (sobre Sonho de uma Noite de Verão, em 1993) e tendo visto praticamente todas as suas montagens, sinto-me muito à vontade para falar sobre O Capitão e a Sereia. Vi a peça em uma ocasião diferente, na qual, por algum capricho, o destino resolveu reunir em São Paulo várias pessoas de Natal, que conhecem o grupo há tempos. César Ferrário, Marco França, Renata Kaiser e a novata Camille Carvalho pareciam estar bem à vontade tendo “a família” por perto. Um quinto e desavisado ator abrilhantou a encenação naquela noite. Na plateia, um senhor caiu no sono. Marco França percebeu e não perdoou: aproveitou a deixa e ajudou a embalá-lo para, na sequência, levantar a bola para César, que, dando ênfase à fala de seu personagem, acordou o pobre coitado aos berros. Ninguém mais iria dormir.

O espetáculo talvez seja mesmo “um dos mais inventivos da temporada” em São Paulo, o que não quer necessariamente dizer que seja ótimo, mas que, pelo menos, é diferente do que se tem visto por lá. Não há dúvidas de que os Clowns sejam criativos, nem de há gente competente em todo lugar do Brasil. Porém, para quem acompanha o grupo, essa inventividade é velha conhecida e é impossível não terminar de ver a peça com a sensação de já ter visto muito daquilo antes: a música, o escuro, o escárnio, as vozes zombeteiras, o exagero nas mugangas, os regionalismos engraçados, os falares pitorescos. Na verdade, os Clowns juntaram tudo de bom que aprenderam, criaram, desenvolveram e testaram nesses dezesseis anos e fizeram uma vitamina bem concentrada para um público diferente e, em tese, mais exigente. Para o público natalense, certamente parecerá mais do mesmo. Aposto em mudanças para quando a peça for encenada em Natal no próximo ano.

O grupo sabe que precisa mudar. O caminho do riso fácil é perigoso. Mais ainda em tempos de humor barato e de um público que só quer se divertir. A história dos Clowns se confunde com a da trupe mambembe que representam e a peça termina justamente onde o grupo real se encontra: em uma encruzilhada na qual cada integrante vê uma coisa e pensa em tomar um rumo diferente. Para o público de São Paulo, O Capitão e a Sereia traz gente nova e talentosa apresentando uma comédia. Para o público foca-hiena que os segue, pouca novidade. Para o público que os acompanha e reconhece verdadeiramente seu talento, um drama escondido pelas maquiagens de palhaço.

Os Clowns de Shakespeare estão amadurecendo. Saíram de casa e viram que a coisa lá fora não é assim tão bonita. Mas pode ser linda, desde que se mate um leão por dia e, principalmente, de uma forma surpreendente a cada vez. Acredito que voltarão tendo aprendido que não podem montar uma peça para este ou para aquele público específico, assim como não há palco pequeno nem demasiado grande para eles. Devem ser talentosos, criativos e revolucionários em Natal, São Paulo ou Nova Iorque. Devem voltar mais conscientes de suas possibilidades, dando mais valor a uma desancada de Barbara Heliodora do que aos elogios baratos de um bando que os adora. É assim que se cresce.

Esta entrada foi publicada em Crítica, Teatro. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 respostas a Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica

  1. Anahi disse:

    Resolvi dar uma passada por aqui as usual, mas não me contive, li os últimos posts de uma só vez. Parabéns!
    =)

  2. Clotilde Tavares disse:

    Wolf, excelente este post. É uma grande achado a metáfora do “público foca-hiena”; e esse público é realmente a desgraça do artista.
    Sempre comento depois dos espetáculos da Casa da Ribeira a platéia sempre parece ir ali disposta a gostar seja lá do que for que se apresente naquele palco; não sei se isso é bom ou ruim.
    Também é sintomático que não possamos escrever crítica de teatro, pois logo somos soterrados pelos argumentos que vc apresentou aí: “Se tão pouca gente frequenta, por que vamos dizer que é ruim?” Por que vamos “falar mal”?
    Mas eu defendo que não existe crítica construtiva ou destrutiva. O que existe é a crítica, assim, sem adjetivos, analisando a obra em consonância com a linguagem daquela arte, conferindo se o artista atingiu os objetivos aos quais se propôs. O resto é opinião, do tipo gostei e não gostei, e cada um tem a sua.
    Uma noite dessas discutimos aqui em casa sobre o espetáculo “Gesto Cascudo”, apresentado na Casa da Ribeira. Fiz uma análise crítica, e um amigo que gostou do espetáculo não concordou; a discussão esquentou! Foi engraçado.
    Aí depois conversei com Gustavo Wanderley sobre o espetáculo, num longo almoço de domingo. Giustavo é inteligente, e pudemos trocar ideias sobre o que aconteceu no palco da Casa naquele espetáculo. Mas são poucos os artistas que estão dispostos a escutar, absorver, e ir em frente.
    Aqui em Natal, críticos e opiniosos nunca me pouparam, e eu sou grata por isso pois o fio da navalha em que me equilibrei sempre para produzir me fez ficar muito exigente comigo mesmo, inclusive desistindo da direção teatral quando vi que não tinha “mão” para aquele metier. Como atriz e dramturga me garanto. Já como diretora… não passo do feijão com arroz.
    Mesmo como dramaturga, cometi meus erros. A 18 dias da estréia da “Maldição de Blackwell” um colega da área de letras leu o texto e disse que o final não se sustentava dramaticamente, era fraco, não fechava o enredo. Olhe que ele não disse: “é ruim”, ou “é bom” (isso seria uma opinião). Ele fez uma avaliação crítica, levando em conta a linguagem dramática.
    Eu fiquei arrasada. A peça já ia estreiar. Marcos Bulhões, o diretor, ficou possesso: “Quem é esse idiota?” gritava. E eu: “Calma, Bulhões, vamos ver se o que ele disse tem a ver.”
    E tinha. Ele tinha razão. Reescrevi toda a cena final, mudei tudo, e ficou maravilhoso! Ensaiamos tudo novamente, trocamos marcas, modificamos música. Até hoje agradeço a Márcio de Lima Dantas, poeta, professor da UFRN, que não teve medo de perder a minha amizade – o que acontece quando a gente critica – e criticou de maneira incisiva o meu texto.
    É isso.
    E desculpe pelo longo comentário: esse assunto sempre me empolga.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *