Leminski, Krims, Saudek e outros desatinados

Terça, 27/10, manhã

Alma seca e faminta. Achando que havia dormido muito, preferi subir a Consolação de ônibus. De onde estava, é um trajeto de menos de dois quilômetros até a Paulista, mas na programação do dia constavam pelo menos seis exposições e eu queria começar cedo. O cobrador do ônibus fez uma cara estranha quando apresentei uma nota de dez reais. Parecia nunca ter visto dinheiro. Os passageiros começaram a me olhar e o motorista arrematou: “É. Acontece!”. Mais tarde, eu seria apresentado ao Bilhete Único, essa prodigiosa invenção da administração público-privada que nos dá a oportunidade de subir e descer dos coletivos quantas vezes puder, durante três horas, pagando uma só passagem. Em São Paulo, ando a pé (muito!) e de Metrô. Quase nunca de ônibus. Mas a possibilidade foi bem recebida e cheguei a desejar esse poder em toda em qualquer cidade por onde passar.

Desci no Belas Artes e resolvi aproveitar o sol tímido para fotografar alguns pontos da Avenida Paulista. Até o primeiro local de exposições – o Itaú Cultural –, era uma caminhada de 2,5 quilômetros. Passei novamente pelo Trianon para conferir a iluminação da manhã nas esculturas. Mais adiante, topei com o Citibank, que tem um espaço cultural que eu nunca havia visitado. Estava acontecendo a exposição Cenas da vida de um pintor, de Sergio Lucena. Paraibano que morou na Chapada dos Guimarães, Berlim e, agora, em São Paulo, o artista apresentava, nessa mostra, alguns quadros de várias séries criadas a partir de 2003: Deuses da Terra, Paisagens e Aenigma. Anterior a este período, chamou-me a atenção O Arauto (óleo sobre tela, 1995). Alguns dos quadros expostos – e muitos outros – podem ser vistos no site de Sergio Lucena. Também há um vídeo, no qual o pintor fala sobre a exposição .

Saindo do Citibank, percebo que São Pedro estava de sacanagem. Seria um chove-para-chove durante o dia inteiro. Esgueira daqui, esconde dali, cheguei ao Itaú Cultural pouco antes das 11 horas. Duas exposições aconteciam lá: Ocupação Paulo Leminski e A invenção de um mundo.

O poeta, romancista, compositor, tradutor e praticante de artes marciais Paulo Leminski foi o terceiro homenageado do projeto Ocupação do Itaú Cultural. Painéis, fotos, poemas, vídeos, áudios, diversos ambientes, procuravam mostrar suas várias faces. A intenção é esclarecida logo no início da apresentação do curador Ademir Assunção, que pergunta: “Com quantos Paulos se faz um Paulo Leminski?”.

Manuscritos e cadernos com originais datilografados dividiam espaço com porta-retratos digitais com poesias e estações interativas de vídeos e computadores. Em cada ambiente, um Leminski diferente. Havia até um dojô, onde se podia deitar e escutar suas divagações sobre artes marciais e poesia (veja abaixo um trecho do vídeo).

Pelas paredes, Leminskis em tamanho natural, versos espalhados:

Queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
– cala a boca
e pro relógio
– abaixo os ponteiros

Infelizmente, a Ocupação não podia ser fotografada. Espero que os espaços culturais brasileiros aprendam logo a conviver com essa possibilidade e saibam diferenciar fotógrafos profissionais, amadores e picaretas. A psicose é tanta que, às vezes, fica-se pouco ou nada à vontade para apreciar a exposição. Contei um segurança passando seis vezes por mim durante pouco mais de três minutos em que permaneci sentado escutando um áudio. E só eu estava na sala. Constrangedor. Não fosse isso/ e era menos/ não fosse tanto/ e era quase. Mas a paranoia ainda estava por se manifestar mais intensamente…

A invenção de um mundo – exposição de fotos e vídeos – ocupa três andares do Itaú Cultural e pode ser visitada até 13 de dezembro. Reserve uma hora e meia para ver tudo. Comecei pelo primeiro subsolo, onde está o que considero a nata dessa mostra, que é parte do acervo da Maison Européenne de La Photographie, de Paris. Nesse andar, há trabalhos de doze fotógrafos: Bettina Rheims (França), Christian Carez (Bélgica), Georges Rousse (França), Joan Frontcuberta (Espanha), Paolo Ventura (Itália), Sandy Skoglund (Estados Unidos), Sarah Moon (França), William Wegman (Estados Unidos); os brasileiros Vicente de Mello e Vik Muniz; e os meus preferidos, Les Krims (Estados Unidos) e Jan Saudek (República Tcheca).

De Les Krims, são apresentadas fotos da série The incredible case of the stack o’wheats murders (O incrível caso do assassinato das pilhas de panquecas), de 1972. Nessa série, ele ironiza as fotografias forenses utilizando corpos (amigos e parentes), panquecas e xarope de chocolate. “Esta obra conceitual, completamente fabricada, foi inspirada em fotografias tiradas na cena de um assassinato que vi em um arquivo de polícia criminal (…) Eu queria mostrar como a fotografia tem pouco valor como testemunho e como um fotógrafo pode se tornar um manipulador”, explica o próprio autor. Na década de 70, Les Krims se destacou por “encenações fotográficas muito pessoais nas quais coloca, em cenários barrocos e oníricos, objetos característicos da sociedade de consumo justapostos com personagens burlescos e incongruentes”, lembra o texto que o apresenta.

Jan Saudek é alguém que necessariamente deve ser chamado de artista. Fotógrafo, desenhista e pintor desde os 15 anos de idade, usa seus talentos nessas áreas para criar imagens fantásticas e provocadoras com grande carga de erotismo, incluindo bebês, adolescentes e mulheres carnudas. O tcheco mostra composições fortemente expressionistas, muitas vezes criadas no porão de sua casa. Em seu site oficial é possível apreciar centenas de suas fotos. Os roqueiros com mais de 30 devem lembrar de pelo menos um de seus trabalhos, Fate Descends towards the River Leading Two Innocent Children (1970), que virou capa do disco Grave Dancers Union, do Soul Asylum, no início dos anos 90.

No segundo subsolo, há sete instalações de vídeos. Nele, fui proibido de usar caneta para fazer minhas anotações. Explicação? Estando a quatro metros da primeira tela, havia “o perigo de sujar com tinta e é difícil de sair”. Não fosse tão bonitinha e educada a japonesinha que veio me dizer isso, eu teria me aproximado e simulado ânsias de vômito. Estamos falando de uma tela de televisão de plasma, não de uma tela com uma pintura! Uma tela que pode ser trocada caso aconteça algo. Se fosse um quadro… ah, tudo bem, já jogaram mesmo um monte de tinta nele! Passa a estupefação inicial, peguei uma lapiseira e me aproximei bastante das telas para aproveitar a luz (mentira! foi só para apavorar os pobres garotos que tomavam conta do local).

A sensação de andar em uma grande sala escura na qual se vai descobrindo vídeos é interessante. A forma com que alguns deles é montada também aumenta o impacto da mensagem a ser transmitida, como o trabalho sem título de Laurent Grasso (França), que parece levar o espectador para dentro do cenário, em tamanho real, onde passa a ação do filme: uma rua tomada por uma imensa nuvem de poeira que vem avançando na direção de quem assiste. O mesmo cuidado é mostrado na instalação que mostra o vídeo Identidade, da brasileira Cris Bierrenbach. À altura do espectador, vê-se em um monitor de tevê uma mulher cortando o cabelo. A impressão é de estar frente a um espelho. Também me pareceu interessante La bôite d’allumettes, do russo Tim Parchicov, mas achei que nele o som tem mais importância que a fotografia. Não é o que se sente em Naufrage, da francesa Clorinde Durand. Apesar de a música ter importante função na dramaticidade da história, as cenas em câmera lenta mostram claramente que o que vemos em movimento, na vida real ou em um filme, é um conjunto de instantes. Cada quadro é um convite ao olhar. Em alguns instantes, a impressão que se tem é de que “a pessoa na fotografia se mexeu”. Abaixo, um vídeo (em francês) onde a autora fala sobre esse trabalho.

No primeiro mezanino, é evidente a temática do questionamento sexual em quase todos os trabalhos. A exceção talvez fique por conta apenas da interessante instalação de Charles Matton (França), na qual se vê, dentro de uma caixa, a imagem animada de um homem sentando-se ao piano e tocando. A ilusão é provocada pela soma do instrumento em escala, projeção de vídeo e um jogo de espelhos. A “caixa mágica (…) cria um real ficcional que põe as aparências em dúvida”.

Nesse andar, chamaram minha atenção, principalmente, as situações surreais e personagens grotescos de Joel-Peter Witkin (Estados Unidos); os autorretratos travestidos e fotomontagens de Pierre Molinier (França); e as 29 fotos da série The journey of the spirit after death (A jornada do espírito após a morte), de Duane Michals (Estados Unidos). É com uma pequena mostra do trabalho desses três fotógrafos que encerro a primeira metade de visitas a exposições desse dia.

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