Em São Paulo

Por questão de sobrevivência, aprendi a não sentir saudades. Mato-a em mim, antes que se manifeste. De pessoas, meus filhos destroem parte dessa defesa. De lugares, tento sufocar o sentimento por Brasília e, admito, estava com saudades de São Paulo. Entre 2002 e 2007, costumava passar duas temporadas de aproximadamente duas semanas por aqui. Era o tempo certo de reencontrar “a amante”. A cada seis meses, quando a saudade ameaçava chegar, partia para um novo encontro. Por dois anos, reveses da fortuna me afastaram daqui. No último ano, remarquei a passagem por oito vezes. Desembarquei, finalmente, na segunda, 26 de outubro.

Cheguei pouco antes das 7h da manhã. Estava acordado há 24 horas. Descansar? Nem pensar. José Luiz me encontrou no aeroporto e partimos para seu apartamento na Consolação, onde deixei as tralhas. Por volta de meio-dia, estava na rua, partindo em direção à Avenida Paulista. Peguei um ônibus, desci em frente ao Cine Belas Artes, atravessei a Via Libris – passagem sob a Rua da Consolação na qual se reúnem sebistas – e ganhei a Paulista. Até a primeira parada programada, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, fui fotografando a interação homem-concreto e dando atenção a meus temas preferidos como igrejas e estátuas. Fotografei a gigantesca estátua de Francisco de Miranda, que hoje me parece ainda mais perdida, escondida pelas obras do Metrô. Nunca entendi o porquê de um monumento a tal figura no Brasil, ainda mais na Paulista. Desta vez o encontrei com trapos ao redor do pescoço, o que demonstra toda importância e respeito que se tem ao ditador venezuelano.

Mais adiante, fotografei a fachada da portentosa Igreja de São Luís Gonzaga, que fica em um das esquinas da Paulista com Bela Cintra. Em estilo greco-romano, foi erguida na década de 1930 e é um dos oásis no coração financeiro do Brasil. Nunca havia entrado nela e só o faria dois dias depois. Continuando a caminhada, captei algumas imagens do trânsito e de um doidinho que faz de palco um bloco de concreto na esquina da Paulista com a Augusta e passa o dia todo dançando e se exibindo para milhares e milhares de pessoas que passam apressadamente sem dar valor a seus dons autísticos.

Livraria Cultura. Anotem: um dia ela será minha. Não, não pretendo comprá-la. Será minha um dia, por algumas horas, durante o lançamento de um livro. A Cultura do Conjunto Nacional é imensa. Como toda megalivraria, há espaços para leitura e se vê mais gente lendo do que comprando. Admito que seja uma opção de ler bons e novos livros que não se poderia comprar, mas eu jamais conseguiria fazer isso. Minha relação com a leitura é muito íntima. Não me importaria em fazer sexo e ser assistido por centenas de pessoas, mas me sentiria extremamente constrangido em ler diante de uma plateia. Quando estamos eu e o livro, esse momento é só nosso. Do andar mais alto da livraria, banquei o voyeur. Vi uma figura folheando um livro, de pé, voltada para a parede (talvez um dos meus, que, ainda com alguma timidez, estivesse se rendendo, pela primeira vez, à cópula em público) e outras, deitadas, lendo despudoradamente.

A ida à Cultura, além de me torturar por não poder sair de lá com alguns carrinhos de supermercado cheios de livros, foi para ver a exposição Como a indústria do fumo enganou você. Era o último dia. A exposição foi originalmente aberta na Universidade de Stanford, em janeiro de 2007, e é fruto da pesquisa de dois professores daquela instituição: o médico Robert Jackler e o historiador Robert Proctor. São 63 reproduções de anúncios veiculados na imprensa americana, entre 1920 e 1950, mostrando bebês, médicos e até o Papai Noel incentivando o uso do cigarro. Não creio que tenha sido coincidência ter sido montada em São Paulo nesses primeiros tempos de lei antifumo (a propósito, como ficou desconfortável andar pelas ruas de São Paulo! Há sempre grupos com suas nuvens de fumaça nas calçadas). Acabei me dando conta de que sempre evitei mostrar os anúncios de cigarro no site da revista O Cruzeiro. Atualmente, há mais de 120 peças na seção Propaganda. Nenhuma de cigarro. Aqui também havia esse tipo de apologia, principalmente com gente bonita e praticando esporte. Como nunca cheguei a digitalizar esse tipo de anúncio, vou procurar em meus arquivos físicos e fazer uma exposição virtual, em 2010, no site de O Cruzeiro. Por ora, compare as propagandas que estão lá com as da exposição Como a indústria do fumo enganou você, que podem ser vista em http://tobacco.stanford.edu. Perceba como a publicidade da época tinha a mesma cara nos Estados Unidos e no Brasil.

De lá, ainda andei até a altura do Masp e entrei no Parque Trianon. Para quem não sabe, o Trianon já foi um grande ponto de michê. De péssima fama, foi muito falado nos anos 80, quando um garoto de programa matou vários clientes. Na última década, tornou-se um lugar controlado. Só metade dos doze portões fica aberta, há seguranças com rádio, zeladores, uma base da guarda municipal e o local fecha às 18h, antes de escurecer. O Trianon não perde o aspecto sombrio. Árvores altas, fechadas, não permitem ver a São Paulo de cimento. Boa parte de seus frequentadores parecem buscar algo que já não existe ali. Não foi uma ironia. É uma impressão forte mesmo. A solidão está nos olhos de muitos dos que sentam para descansar, ler, dormir, buscar um programa. Vou lamentar eternamente um momento, nesse dia, que não me permiti fotografar. Em um banco, um casal de colegiais se entregava firmemente ao propósito de engolir um ao outro. O rapaz, alto, magro, cabelos curtos. A garota, uma figura felliniana, branca, coxas grossas, seios grandes. Em um banco próximo, um judeu ortodoxo, estático, olhava a cena. Não havia reprovação em seu olhar. Havia, sim, um desejo reprimido, um quase não acreditar que aquilo pudesse existir. Dois mundos separados por três metros de pedrinhas e séculos de culturas diferentes. Tão perto, tão longe. Quis registrar o instante, mas senti que não poderia roubar a volúpia dos amantes nem o anseio contido do jovem solitário.

Continuei a caminhada pelo parque com a intenção de fotografar (novamente, pois já fiz isso outras vezes) as estátuas que ficam nele. Dentro, O Fauno, de Victor Brecheret, e Aretuza, de Francisco Leopoldo da Silva. Não é de se admirar que com a representação de uma figura mítica libidinosa como o fauno, o Trianon se transformasse em um local de busca por prazer sexual. O Fauno de Brecheret está lá desde 1942, ano em que o parque completou meio século. Aretuza, de seu colega de ofício e estudos, Francisco Leopoldo, também ajuda na mística ligada ao sexo, desdenhando os homens, o casamento e os prazeres. Logo na entrada principal do Parque, há também um busto sem qualquer identificação de quem representa. Assinado por R. de Mingo (Roque de Mingo), em 1952. Trata-se de uma homenagem a José Eugênio de Lima, engenheiro que idealizou a Avenida Paulista. Fora do Parque, do lado da Avenida Paulista, há o monumental Anhanguera, obra de 1935, do escultor italiano Luigi Brizzolara.

A escultura e a fotografia estariam presentes e intimamente ligadas durante esses quinze dias em São Paulo, como veremos nos próximos textos. Neste primeiro dia, já bem cansado, ainda passei pelo Reserva Cultural e caminhei sob chuva fina e insistente por toda Paulista e Consolação. Cheguei, desmaiei e me preparei para o dia seguinte.

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