Anselmo Duarte

anselmoAcredito que uma lição tenha sido realmente aprendida quando você deixa de pensar ou falar a respeito dela e passa a executá-la inconscientemente. Falo muito sobre a possibilidade de qualquer encontro ser o último, de estarmos sempre em paz e harmonia com o próximo, de não perdermos oportunidades de dizer a uma pessoa que a queremos bem, mas parece que ainda não aprendi essa lição. Em julho, no Rio, deixei de visitar Helena, ex-esposa de Carlos Estevão. Poucos dias depois, estando em Natal, fui avisado de seu falecimento. Em meados de outubro, prestes a ir a São Paulo, não parava de pensar em fazer uma visita a Anselmo Duarte, que tinha estado doente há alguns meses. Não o fiz e, no sábado, 7 de novembro, ainda na cidade, fui surpreendido com a notícia de sua morte.

Por um instante, tive o impulso de ir ao velório, que aconteceu na Assembleia Legislativa, mas logo desisti. Preferi acompanhar de longe o adeus e lembrar de Anselmo como o conheci: vaidoso, sedutor, empolgante, contador de histórias. E olha que o conheci quando tinha 84 anos! Isso foi em 2004, em seu apartamento em Salto (SP), onde o entrevistei por aproximadamente três horas.

O grupo que participou desse encontro – éramos quatro – foi recebido por um Anselmo ressabiado, desculpando-se pelos problemas de memória, cabelos desgrenhados e barba por fazer. Perguntou se faríamos fotos e, ao saber que sim, disse que iria fazer a barba. Já empolgado, começou a contar histórias. Eu, que de bobo só tenho a cara, comecei a filmar. Ao perceber isso, em tom de brincadeira, deu um “oi, boa tarde!” para a câmera e saiu em direção ao quarto. Voltou pouco depois, transformado no galã que encantou gerações.

Os pequenos vídeos que gravei naquele dia ficaram guardados até hoje. Em um deles, ao notar a câmera insistentemente apontada em sua direção, perguntou se eu estava fotografando e filmando. Respondi que os dois e ouvi, em tom de desdém, que aquilo não era “uma câââââmera”, que não daria para fazer um filme com ela. É, não daria mesmo. Isso seria uma conversa sem qualquer valor se a pessoa que fez a observação não fosse o único brasileiro laureado com a Palma de Ouro. Tendo vindo de Anselmo Duarte, o comentário ganhou um peso diferente, como se um ser divino estivesse rindo da pretensão de um pobre mortal. Veja no vídeo a seguir como foi esse momento.

Naquela época, 2004, eu já ia em mais de 15 anos de entrevistas. Centenas de pessoas, muitas das quais, mesmo famosas, nem lembro. Iconoclasta, costumo levar a ferro e fogo o distanciamento que o jornalista deve ter de seu entrevistado. Até então, nunca havia feito fotos com um. Ao final das três horas de gravação, deixei o lado fã vir à tona e me permiti tal momento. Sempre guardei a lembrança do encontro com Anselmo com muito carinho. Desfiaria fácil uma lista de dezenas de nomes que já entrevistei e que a maioria julgaria mais importante ou interessante, mas insisto: Anselmo Duarte continua no topo.

Sempre que me referia ao encontro, precisava fazer a velha referência: “o diretor de O Pagador de Promessas”. E quase sempre ouvia em seguida: “E é bom mesmo? Nunca assisti”. As “novas gerações” não conhecem Anselmo Duarte. Quando ele morreu, estava em todas as primeiras páginas de sites e jornais do Brasil e do mundo. Anselmo é um Palma de Ouro. Você sabe o que significa isso? Fazem parte desse clube: Fellini, Buñuel, Visconti, Scorsese, Coppola, Kurosawa, Costa-Gravas… Não é qualquer coisa. É a consagração maior no festival de cinema tido como o mais importante no mundo.

Pode ser que alguém diga: “É, mas também foi só isso que ele fez”. Não. Como diretor, ele fez outros dez filmes e eu sugiro que, além de O Pagador de Promessas (1962), você assista Absolutamente Certo (1957), Vereda de Salvação (1964), Quelé do Pajeú (1969) e O Crime de Zé Bigorna (1977). Como ator, foram algumas dezenas. No final dos anos 40 e durante a década de 50, Anselmo reinou absoluto como “O” galã. Mal comparando, é para o cinema daquela época o que Tarcísio Meira é para a tevê nas décadas de 70 e 80, com a diferença de que para este, a mulherada saía engordurada da cozinha para suspirar na sala e, para Anselmo, arrumava-se toda para sair de casa e vê-lo no cinema. Outros tempos, outro nível.

Certamente O Pagador de Promessas foi o momento de epifania de Anselmo Duarte. E ainda que tivesse sido seu único trabalho, conseguiu o que ninguém antes, no Brasil, havia conseguido. Nem depois. E isso foi há quase meio século.

Outro momento importante de nosso encontro, relatei em Uma lição da (falta de) memória, em maio de 2005, no meu antigo blog, o Leseira Geral. Concluo esta pequena homenagem reproduzindo abaixo um trecho do texto:

Com 84 anos recém-completados (fez 85 em abril deste ano), Anselmo reclamava muito de sua memória. Entrevistado que fala pouco é um desastre para qualquer jornalista, mas entrevistado que não lembra as coisas é um verdadeiro pesadelo para um memorialista. Felizmente, não foi bem isso que vimos. Com sua voz vibrante, Anselmo falou por mais de três horas e o depoimento só não se estendeu porque precisávamos voltar a São Paulo.

(…)

Foi um encontro inesquecível e que pretendo repetir. Creio ter aprendido algumas lições naquele dia. Uma delas é a de não criar expectativas em relação a uma entrevista. Nem boas, nem más. Tenho que fazer a minha parte e estar preparado. O resto sempre será surpresa.

Outra foi ainda mais surpreendente. Ao fazer uma entrevista, meu principal objetivo é preservar a memória relacionada a uma época, um determinado acontecimento ou pessoa. Mas naquele dia, a falta de memória foi a responsável por uma das maiores lições que já recebi.

Anselmo Duarte atravessou duas décadas como “o galã”. Passou pelos três maiores estúdios que já existiram no país: Cinédia, Atlântida e Vera Cruz. As mulheres se derretiam por ele e os homens, como era de se esperar, o odiavam. Os intelectuais que faziam e cultuavam o Cinema Novo nunca o perdoaram por ter ganhado a Palma de Ouro (com O pagador de promessas, em 1962). Em um meio de egos eternamente inflados, Anselmo foi um homem invejado e criou muitos inimigos, mesmo que isso não fosse sua vontade.

Pois “um dia desses”, ele se encontrou com um antigo conhecido. Abraçou-o, falou que estava com saudades, tagarelou, contou histórias e nada o fazia entender a cara de estupefação do outro. Só depois, um amigo seu conseguiu explicar: “Mas Anselmo, o que foi aquilo?! Vocês não se falam há décadas! Vocês se odeiam!!” E Anselmo respondeu: “Mas eu não lembrava! Não lembrava que ele era meu inimigo. Só lembrava das coisas boas. Eu estava mesmo com saudades dele”.

O tempo cura tudo. E a falta de memória, que costumamos ver como um sinal de degradação, de senilidade, pode ser uma grande bênção.

Muitas vezes me pego querendo “sofrer desse mal” e desejando que alguns conhecidos meus também sofram dele para que possamos nos encontrar e brindar por aquilo que realmente vale a pena lembrar, para não mais perdermos tempo com a incapacidade de lidar com nossas idiossincrasias e de administrar nossos egos.

Quem souber como apagar esses arquivos indesejados, pode me dar a fórmula. Não quero esperar pelos meus 80 anos. Até lá, pode ser que eu esqueça as coisas boas também.

* * * * *

Textos relacionados:
Entrevista de Anselmo Duarte ao site Memória Viva
Uma lição da (falta de) memória

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Uma resposta a Anselmo Duarte

  1. márcia disse:

    Dizer o que? Que tal algo nada literário, como ‘matou a pau’?
    A memória sabe bem incomodar, mas…
    Existem incômodos bons?
    Muitas perguntas.
    bjs

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