Nunca fui santo

comunhao

Nos últimos tempos, devido a alguns textos aqui no Sempre Algo a Dizer, me perguntaram se estava acontecendo algo, comentaram que estou zen, questionaram uma possível conversão. Quem me conhece há tempos e tem mais familiaridade não estranhou nada.

Costumamos ver o mundo a partir de nossas experiências. Muitas vezes, ao nos depararmos com algo desconhecido, preferimos enquadrar a novidade nas informações que já temos em vez de nos abrirmos a outros conhecimentos e procurarmos entendê-los plenamente. Isso acaba gerando impressões deformadas, que podem se tornar fantasias muito distantes da realidade.

Por incrível que pareça (pelo menos para mim isso parece incrível), ainda hoje o quesito religião consegue causar grande perturbação entre as pessoas. Impressiona-me a variedade de rótulos que me atribuem. Para alguns, com religião definida, sou ateu. Os agnósticos acham que sou religioso. Os ateus me acham místico. Alguns católicos pensam que sou espírita. Espíritas acham que sou bruxo. As fantasias são diversas. Por isso resolvi tocar no assunto e fazer um daqueles textos do tipo não-me-perguntem-mais.

Nasci em uma casa com avó italiana, católica, devota, dessas de fazer e pagar promessas, capaz de mandar para a fogueira qualquer um que não fosse temente a Deus. Menino agitado, fui levado a uma rezadeira, que acabou por conhecer o poder das minhas botas ortopédicas. Também sobraram chutes para as imagens no altar. Fiz a Primeira Comunhão aos oito anos. Durante o catecismo, chamava atenção por sempre decorar as orações antes dos outros e pelo empenho nas lições. No ginásio, comecei a me interessar pelo Kardecismo e, levado por uma colega, cheguei a ir a algumas reuniões. Terminei o segundo grau em um colégio de padres e, logo em seguida, mergulhei nos últimos suspiros da ordem Marxista-Leninista de um curso de Jornalismo em uma universidade federal. Portanto, não dá para dizer que tive uma orientação das mais ortodoxas em meus primeiros 16 anos de vida.

Aos 19, passando pela iniciação da dor – a morte de minha namorada –, comecei a buscar uma compreensão maior sobre o sentimento religioso. Naquele momento, muita gente jurou que eu viraria padre. Outros apostavam que eu me tornaria espírita. São dois caminhos comuns após experiências traumáticas de perda. Preferi beber de outras fontes, assim como alguém que nunca experimentou álcool e chega a uma cachaçaria disposto a conhecer vários tipos de aguardente, mas sem a mínima intenção de se tornar um alcoólatra. Frequentei algumas agremiações religiosas orientais sem jamais pensar em me tornar seguidor de qualquer uma. Foi nesta época que comecei a perceber três coisas: 1) não precisaria de intermediários para me comunicar com algo divino; 2) estava mais disposto a ouvir do que falar a este algo divino,; e 3) que era incapaz de acreditar em algo simplesmente porque diziam que eu tinha que acreditar.

Com base nessas premissas, aos 21 anos, comecei a trilhar o caminho das Fraternidades. Fiz parte de várias, dentre elas a Ordem Civil e Militar dos Cavaleiros do Templo, a Fraternitas Rosicruciana Antiqua e o Colégio Druídico do Brasil. Acabei me estabelecendo em duas: a Sociedade Teosófica e a Maçonaria. Ambas me atraíram, sobretudo, por não terem um caráter religioso. Talvez quem não as conheça estranhe esse comentário. Para tentar esclarecer, permito-me falar um pouco a respeito das duas.

A Sociedade Teosófica é, em tese, um grupo de estudos comparativos entre filosofias, ciências e religiões. Para fazer parte dela, você não precisa seguir uma religião e nem mesmo acreditar em Deus. Ter alguma crença também não impede que você faça parte dela e é até possível que você aprofunde seus entendimentos e fortaleça sua fé a partir dos estudos teosóficos . Há, basicamente, três níveis de envolvimento com a Sociedade Teosófica: não membro, membro e estudante da Escola Esotérica. O primeiro é aberto a qualquer pessoa. No segundo, há uma filiação e um um comprometimento com os estudos e com a instituição, bastando que se concorde com pelo menos um de seus três objetivos para ser admitido (1 – Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor; 2 – Encorajar o estudo de Religião Comparada, Filosofia e Ciência; e 3 – Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes no homem). No terceiro, o comprometimento é maior e, apesar de eu ter chegado a ele, não cabe aqui explicá-lo. Quem vê de fora, pode achar que se trata de uma religião, seita ou algo assim. Não é. Pelo menos, não deveria. É verdade que dentro dessa instituição, em todo o mundo, há alas mais voltadas aos aspectos religiosos. No Brasil, que tem forte tendência a dar tons religiosos a qualquer ajuntamento de pessoas, não poderia ser diferente.

Aqui, música, futebol e política tomam ares de “religião”. Geralmente, do pior que há nela: fanatismo, segregação, certeza de ser dono da verdade. Por outro lado, ninguém se transforma em santo ou se ilumina somente por ter escolhido seguir alguma religião.

A Maçonaria, ainda hoje, é vista como maldita por muitos. Admito que fica fácil inventar histórias sobre algo que parece secreto. Digo “parece” porque há pouca coisa a seu respeito que não se possa encontrar em livros acessíveis a qualquer pessoa. Como se costuma dizer, é uma fraternidade mais discreta do que secreta. E, por não se tratar de uma religião, basicamente não há impedimento de que alguém que tenha uma faça parte dos seus quadros. Há até mesmo padres e pastores protestantes em suas fileiras. Em tese, não há ateus na Maçonaria. E não se discute religião ou política em suas reuniões, ainda que se possam empreender ações junto a alguma instituição religiosa e que a Maçonaria esteja intimamente ligada à História política de muitos países ocidentais.

Por motivos óbvios, não vou me estender a respeito das duas. Fique claro também que não existe uma “propaganda” em prol ou contra qualquer uma delas. O que há de mais admirável na primeira é a disposição em acolher qualquer pessoa ao mesmo tempo em que não tenta formar um rebanho. Na segunda, seria um contrassenso qualquer tipo de propaganda, já que ninguém é admitido simplesmente por querer.

Há alguns anos, não sou membro ativo da Sociedade Teosófica. Também não tenho frequentado reuniões da Maçonaria, mas, uma vez maçom, sempre maçom. A não ser que você “surte e renegue” ou faça algo para ser expulso.

Em Brasília, nos anos de 2003 e 2004, me aproximei da Igreja Católica Liberal. Um dos motivos que não me deixaria ser padre é a castidade. Conheci vários padres e sei, da boca dos próprios, que nenhum ou quase nenhum era casto. Eu não conseguiria fazer isso. Acredito que ao se associar a determinado grupo, se deve seguir suas regras e orientações. Na Igreja Católica Liberal não há voto de castidade nem celibato. Confesso também minha admiração por rituais, ainda que eu não seja das pessoas mais indicadas a praticá-los. Admiro a disciplina de quem os pratica devidamente. Eu me daria por satisfeito se um dia tivesse horários para dormir, comer e trabalhar.

Há mais ou menos dez anos, enamorei-me do Budismo. Não como religião (em nenhuma de suas muitas variações), mas como filosofia.

Nunca segui e dificilmente seguiria uma religião. Não me dou com dogmas. Também tenho dificuldades em conviver com interpretações literais, tão comuns aos seguidores de qualquer religião. Não vejo grande importância que este ou aquele ícone tenha realmente existido e tenho certeza de que, se existiu e era realmente uma pessoa especial e iluminada, não incentivou ou mesmo sugeriu que o tratassem como ídolo. Para mim, as ideias são muito mais importantes que as pessoas. Pessoas morrem, ideias podem ser eternas. Tanto faz se uma história contada em um livro tido como sagrado tenha realmente acontecido ou tenha sido inventada, que tenha sido escrita por uma ou várias pessoas. O que importa é o que se quis dizer com ela, os valiosos princípios ali mostrados, comuns a todas as filosofias que pretendam ensinar o Bem.

Concluindo: nunca fui crente ou seguidor de qualquer associação religiosa. Também não sou ateu, pois até para isso é preciso acreditar em algo – no caso, que não existe um Deus ou alguma deidade. Assim como só se pode acreditar que existe, também só se pode acreditar que não existe. Quando vejo pessoas matando outras, tenho certeza de que ali não existe deus algum. Quando vejo o sol se pondo, tenho certeza que existe. Quando vejo pessoas brigando, sei que não existe nada divino ali. Quando vejo a pureza no sorriso de uma criança, sei que existe algo tão divino que foge completamente ao meu entendimento.

Você acha que depois disso tudo não expliquei nada e fiquei em cima do muro? Então você continua precisando de um rótulo e enxergando a situação como quem olha um ambiente escuro através de uma fresta. Sem luz e sem conseguir enxergar o todo.

Você percebeu que este é um caminho entre uma coisa e outra? Nesse caso, está mais próximo de entender que se trata de um caminho do meio, no qual há respeito e tolerância às diferenças, pelo qual posso andar de mãos dadas com crentes, agnósticos e ateus.

Viver em paz com humanos, ídolos inventados e deuses é a minha doutrina.

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5 respostas a Nunca fui santo

  1. Sandro, Achei perfeito seu post! AMEI! Até porque me identifico muito com as suas opiniões a cerca da religião. Engraçado é que costumo dizer que não sigo nenhuma religião e as pessoas se incomodam. Já me tentaram arrebanhar em várias.
    Vejo DEUS em tudo. No que se refere à religião, entendo e procuro respeitar as diversas filosofias,mas não sigo nenhuma. Também não gosto de intermediários, essa frase era minha ,viu? rs. Por incrível que pareça, foi cursando uma universidade católica,a PUC-SP, nas aulas de Teologia, que percebi que não preciso fazer o que os outros fazem, posso ter a minha opinião e seguir o que eu acredito afinal, DEUS está dentro d e cada um de nós.

  2. Numa semana repleta de inquisidores a tentar queimar o Saramago vivo, reencontro nas tuas palavras reflexo para os meus sentimentos/pensamentos mais genuínos sobre Deus e religiões. Também deixei-me submeter a diversas experiências religiosas apenas para conhecê-las e aos seus dogmas e doutrinas, não encontrando nenhuma razão para abraçar apenas e nenhuma delas, pois as questões são muitas e as respostas estão espalhadas por todas as áreas do conhecimento humano do que seja “espiritual”.
    Beijo, saudades,

  3. Sandro, gostei sobretudo dos últimos parágrafos. dos anteriores fica a questão, pra mim fundamental, do empobrecimento que significa levarmos uma vida desprovida de rituais.

  4. ianniu disse:

    eu confio mais em pessoas assim do que assado. 😉

  5. Diego Souza disse:

    Caro Sandro,

    Pesquisando sobre monumentos na net, cheguei à sua pessoa. Estou trabalhando num projeto de mestrado em História na UFRN sobre monumentos na cidade do Natal, e acredito que podemos nos ajudar de alguma forma.

    Por favor me passe seu e-mail.

    Desde já agradeço.

    Abraço,

    Diego.

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