Desencontro da Paz

Barack obama_lama.jpgObama, ganhador do Nobel da Paz, foi o assunto da sexta, 9. No mundo inteiro, nos telejornais, na Internet. Mas um detalhe irônico não foi comentado aqui no Brasil. Esperei o Jornal Nacional e nada. Então joguei no Twitter: Ninguém falou que o Nobel da Paz 2009 não recebeu o Nobel da Paz de 1989, o Dalai Lama, que está nos EUA?

É provável que você lembre de pelo menos dois ganhadores do Nobel da Paz dos últimos vinte anos: Dalai Lama (1989) e Nelson Mandela (1993). Duas personalidades inegavelmente inspiradoras e ligadas ao tema “Paz”. Não que outras não sejam, mas quase sempre estavam relacionadas a fatos ou movimentos menos conhecidos, digamos, de menor apelo universal: campanha em favor dos povos indígenas na Guatemala; por uma solução pacífica para os conflitos na Irlanda do Norte; ativismo pelos direitos humanos no Quênia, etc. Não são menos merecedores ou importantes, mas é impossível não perceber a relevância de nomes como os de Nelson Mandela e Tenzin Gyatso, o Dalai Lama. Este, por ser também um líder religioso carismático e viajar constante pelo mundo, é sempre o primeiro a ser lembrado.

Na segunda-feira passada, 5 de outubro, o Dalai Lama chegou aos Estados Unidos. Pela primeira vez, desde que começou a visitar o país, em 1991, não foi recebido pelo presidente. Ironicamente, quatro dias depois, com o Dalai Lama ainda em território americano, o presidente Obama é anunciado ganhador do Nobel da Paz.

Quando o Dalai Lama se viu obrigado a deixar o Tibete, em 1959, Barack Obama nem havia sido concebido.  O primeiro tem uma luta de meio século mundialmente reconhecida; o segundo é uma promessa. Quem deveria negar-se a receber quem? É uma pergunta retórica. Até porque o Dalai Lama receberia qualquer um, inclusive Obama.

O fato é que os dirigentes de países que mantêm relações diplomáticas com a China evitam recebê-lo. E, claro, isso não é gratuito. A cada anúncio de viagem líder tibetano, o governo chinês “pede” que o governo do país visitado não o receba. Quando esteve no Brasil em 1999, o então presidente Fernando Henrique esteve com ele por 15 minutos, em caráter não oficial, na casa de Antônio Carlos Magalhães (que era presidente do Senado). Ainda assim, o Itamaraty sambou miudinho e deu satisfações a Pequim. Na visita mais recente, em abril de 2006, Tenzin Gyatso esteve com o então ministro Gilberto Gil e outras autoridades políticas. Lula? Devia estar viajando.

bush_lama.jpgNenhum presidente americano havia se rendido a esse “capricho chinês”. Os senhores da guerra, Bush pai e Bush filho, estiveram com Tenzin Gyatso. O pacificador Obama não.

O Dalai Lama disse, em entrevista, que não queria “criar inconveniência a ninguém” e que não estava desapontado por não ser recebido pelo presidente americano. Ainda em Washington quando o vencedor do prêmio foi anunciado, parabenizou Obama. Em carta, disse ao presidente que o comitê do Nobel “reconheceu seus esforços para a resolução de conflitos internacionais através da sabedoria e do poder do diálogo”.

Acredito que Obama assumiu uma responsabilidade gigantesca ao ser eleito presidente. O Nobel da Paz foi o cheque em branco que o comitê do prêmio passou a ele “em nome do mundo”, uma espécie de “yes, you can”. Não acredito que ele tenha um karma tão bom quando o do Dalai Lama. A começar por essa esnobada e pelas rédeas “impostas pela diplomacia”, duvido que tenha liberdade para agir como e causar o efeito que o líder tibetano consegue.

Se eu tivesse que votar em alguém para representar os ideais de Paz, votaria em um espírito livre e iluminado. Se tivesse que apostar em alguém para salvar e mudar a humanidade, apostaria em quem age com o coração. Mas o mundo está cada vez mais estranho. A nova Paz não recebe a que conhecíamos. Já não sabemos muito bem o que ela é e nem como é sua cara. Apenas acreditamos que um dia a encontraremos.

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2 respostas a Desencontro da Paz

  1. Lekkerding disse:

    Esnobe, não. Esperto.
    A política é um grande tabuleiro de xadrez. E nessa partida específica, essa jogada inesperada pode colocar a China em xeque.
    O objetivo não é reconhecer um líder, seja ele espiritual, político ou qualquer outra alcunha que se possa aplicar. É dar a um determinado povo a liberdade e autonomia necessárias para ou legitimar o atual, ou escolher o próximo, em seus termos.
    Obama agora pode ser considerado neutro o suficiente pra negociar a paz e a independência do Tibet – o que significaria a volta do Dalai Lama. É só saber aproveitar a vantagem.

  2. As vezes é apenas estranho, me entreguei a um cinismo tão nojento que so me permitiria, no momento, premiar os homens da guerra.

    Mas porque não o Barack? É o cara do momento, da esperança, que ia trazer mudanças, acho que pode ate ser o papa e ou novo guitarrista do AC/DC, ele é simplesmente “cool”. =)

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