Salve Geral

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Dois de outubro. O Rio parou! O Brasil parou! O mundo estava de olho. Só se falava em Rio2016. Torci, chorei, tuitei, mas minha cabeça estava em outro evento: a estreia de Salve Geral, filme de Sergio Rezende, indicação brasileira a uma vaga entre os concorrentes ao Oscar 2010 de Filme Estrangeiro.

Desde O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, em 2001, um filme não me levava a um cinema de shopping no dia de sua estreia. Estava curioso e queria vê-lo no dia 2 de outubro, triste aniversário de 17 anos do massacre do Carandiru. A data não foi escolhida à toa, mas o anúncio da sede dos Jogos Olímpicos de 2016 apagou toda possibilidade de isso ser lembrado e capitalizado. Fui à primeira sessão em uma sala do Cinemark, em Natal, com menos de dez pessoas.

O filme toma como base o fim de semana em que o PCC – Primeiro Comando da Capital parou São Paulo, em maio de 2006. Como todo brasileiro, vi aquilo pela tevê. No final de semana seguinte, estava lá, em uma Virada Cultural. Fiquei impressionado com a quantidade de policiais nas ruas, a total tranquilidade de uns e o medo ainda presente em outros. Durantes os shows, os artistas falavam em liberdade e sobre não se render. Bonito, emocionante, mas quase irreal quando se pensava que, uma semana antes, uma força paralela havia se mostrado mais poderosa que aquela instituída e reconhecida.

Queria ver como essa outra força seria mostrada no filme. Queria saber se o discurso dessa sociedade “invisível” pareceria romântico, sedutor, merecedor de atenção. Queria ver se a violência apareceria em todas as suas cores. O que vi foi um filme para passar na tevê, logo depois da novela, que talvez impressione a parte mais alienada da classe média e que fará rir os que conhecem de perto aquela vida. Aliás, o fio condutor da história passa pela classe média e suas preocupações mesquinhas. Nem isso é abordado de forma enfática. Tudo mostrado com cores fracas, como se houvesse um grande cuidado para não chocar. O roteiro é frouxo. Há personagens demais. A música não confere dramaticidade. Pior: é chata mesmo.

Pensou em Tropa de Elite? Impossível não pensar. As semelhanças acabam na temática e na “forma hollywoodiana” de conduzir a ação, mas até nesse último ponto há uma visível disparidade: Tropa de Elite faz isso bem; Salve Geral faz isso muito mal. A indicação para concorrer a uma vaga entre os indicados ao Oscar me pareceu uma tentativa estúpida, atrasada e errada de apostar no sucesso do filme sobre o Bope. Não tem nenhum personagem com a força de um Capitão Nascimento em Salve Geral. Qualquer quinze minutos de Tropa de Elite é melhor que Salve Geral inteiro.

Saí da sala com a sensação de que, também no cinema, estamos importando modelos com os quais não nos afinamos nem sabemos lidar. E já não conseguimos nem contar nossas próprias histórias. Estamos afogando em catchup de péssima qualidade pratos que ficariam ótimos como uma pimentinha e alho-poró.

O PCC do filme parece gangue de colégio. Se você assiste diariamente a telejornais, corre o risco de dormir durante Salve Geral. A realidade, mesmo vista só pela telinha, é bem mais dura.

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6 respostas a Salve Geral

  1. Salve Sandro!
    Bom ler algo sobre o Brasil que nãos seja sobre o carnaval do Rio 2016. Mais uma vez reafirmo que o Sempre algo… é a minha fonte de informações privilegiada quandos e rata de Brasil. Baideuei, se dizes que os noticiários são mais realistas e com as olimpíadas ganhas, acho que este filme pode ser “didático” para gringo ver: mostrar sem aterrorizar. Eu quando quero ter pesadelos, vejo o jornal da record internacional…
    bjo

  2. Sandro,

    Adorei seu post, só pra variar…
    Nem vou gastar dinheiro para ver o filme…rsrs
    É uma pena que com tantas histórias boas para contar o cinema brasileiro se perca no caminho.
    Eu vivi o 2 de outubro em Sampa, vivi o maio de 2006 do PCC tbem por aqui,e mesmo com o meu olhar de espectadora teria muitas coisas para contar.

  3. La Mondo disse:

    Acho bacana um país tentar analisar sua História contemporânea sob a ótica do cinema, seja ele ficção, documentário, animação, experimental…
    O que acho ruim na cinematografia brasileira atual é circular sobre o mesmo tema, com algumas poucas exceções (falando do circuito comercial).
    Eu morava em São Paulo na época dos ataques do PCC e lembro muito bem do pânico de todo mundo e da Paulista vazia às 8 da noite. E também lembro da Virada Cultural, uma semana depois, absolutamente “pacífica”, sem maiores incidentes.
    Bom, não vi o Salve Geral. E nem sei se vou vê-lo depois do que você escreveu.

  4. Carol Kyze disse:

    Concordo plenamente,o filme é muito ruim.
    E olha que até meados do filme eu tava com esperança de tudo melhorar,mas a falta de expressão da Andreia Beltrão e aquele roteiro de quinta…Ai ai ai!
    Bem,agora é bola pra frente que “We creús” tá aí.kkkkkkkkk

    Beijão, Sandro, saudade de você.

    Té.

  5. henrique disse:

    Acabei de sair do cinema, sandro.
    Antes tivesse lido seu post, não perderia o dinheiro. Nossa, que feito escabroso!!! Enovelaram até o Lee Thalor, que eu acho das grande promessas de atores nacionais na nova safra. E a Denise Weimberg que é ótima ficou mediana e sem peso. Sei não! Medo é a única explicação. Devem ter tomado a mesma fórmula dada ao Meireles para amenizar o ensaio sobre a cegueira e mediocrizar tudo.
    Ta difícil pra arte cumprir seu papel social assim viu?

  6. Lekkerding disse:

    É bom saber que, no cinema, o episódio está tão irreal e fora de proporção quanto na cabeça dos brasileiros.

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