Rio com o coração

lula2016.jpg

Sim, torci muito para a escolha do Rio de Janeiro como cidade olímpica em 2016. Esperei, sofri, chorei. Ao vivo e todas as vezes que reprisaram o presidente do COI abrindo o envelope e dizendo: Rio Tchanêro. Chorei também vendo Lula chorar. Se me permitem o chiste: Nunca antes na História deste país tivemos um presidente tão humano. Mais que “O cara”, Lula é a nossa cara. A cara da perseverança, a prova de que você pode sair do nada e chegar ao topo. E ainda continuar com um coração.

Informações necessárias aos que não me conhecem: não pratico esportes há mais de uma década, não vejo programas esportivos, todos os canais especializados no assunto são desprogramados no televisor que uso, o caderno de esportes é o primeiro que descarto ao pegar em um jornal, não gosto de esportes coletivos e não suporto futebol.

Então qual o motivo do ufanismo? Nenhum. Até porque não há ufanismo algum na minha torcida. Não torci “pelo meu país”, “pela minha cidade”. Torci com o povo que mais necessitava e merecia essa vitória. Torci junto aos que torceram da única maneira honesta: com o coração.

Mas muita gente, aqui no Brasil, torceu contra. O fel correu solto via Twitter. Não estavam torcendo para Chicago, Tóquio ou Madri. Simplesmente torciam contra o Rio. Acredito que tenham seus motivos. Mas quais seriam? Algum grande interesse contrariado? Haviam apostado grandes somas de dinheiro na vitória de outra cidade? Ou era pura e simples uruca? Eu apostaria na última. Mas por que alguém agiria assim?

No Twitter, no calor do momento do anúncio, em meio a toda comemoração, também pipocavam comentários dos amigos da onça. Sem a intenção de colocar mais lenha, tuitei: “E para quem torcia contra, o aeroporto é logo ali”; “Quem tem filhos sabe: aposta, programa, acredita no futuro. Construir o caminho até lá é problema dos pais” e “Torcer contra: NUNCA!”.

Claro que não desejo que todos concordem ou torçam incondicional e unanimemente por algo. O que me impressiona é como uns se incomodam tanto pela vitória e felicidade de outros. Meu pensamento foi resumido nas tuitadas reproduzidas no parágrafo anterior e se traduzem da seguinte forma: Não é de seu interesse? Então mantenha sua energia negativa longe. Viva e deixe viver. Se não puder ajudar, pelo menos não atrapalhe. Você gostaria de alguém urubuzando seus planos? Na sequência de tuitadas, finalizei: Quem ama, entende o amor de qualquer um! Quem é feliz, torce pela felicidade de todos!

O que você acha que é? Uma estrela como a da logomarca de Chicago? Com o que se identifica? Com aquela mão espalmada de Madri, que me pareceu um alerta xenófobo? Como você leva a vida? Com um nó ou um lacinho de enfeite como o que aparece na logo de Tóquio? Qual é a sua vibração? A minha é a do coração batendo alegremente como aquele na marca do Rio 2016.

Mas o que eu ganho com isso?, perguntará o mais ranzinza. E por que você precisa ganhar algo?, pergunto eu. Vai ter roubalheira!, dirão alguns. E o que você vai fazer para evitar?, perguntarei. Isso não vai trazer benefício algum!, dirão outros e, se chegam a pensar assim, acredito ser um desperdício de tempo tentar mostrar tudo de bom que algo desse tipo pode trazer para a coletividade. Para a mim, o estímulo à autoestima de milhares ou milhões de pessoas já foi de grande importância.

O amor é paciente, o amor é benigno, não é invejoso; o amor não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade”. Todo mundo, de alguma forma, já ouviu esta sábia sentença da 1ª Carta aos Coríntios (13; 4-6). O interessante é que em traduções mais castiças, a palavra não é “amor”, mas sim “caridade”. Normalmente entendemos este termo como um ato de piedade e assistência a alguém mais necessitado, mas não é exatamente este seu significado original. Em um sentido mais amplo, pode ser traduzido por “bondade”, “bom coração”. Em sentido teológico, “caridade” é melhor que todos os “carismas”, uma graça divina concedida para o bem daqueles que se irmanam.

Outro adendo aos que não me conhecem: assim como não torço por nenhum time, também não torço por qualquer agremiação religiosa. Mas desejo que todas espalhem o Bem e mostrem caminhos para a Felicidade de cada pessoa.

Pergunto: Com o que você se irmana? Com o que você comunga? Em qual nota você vibra? Um coração cheio de Amor reconhece o Amor em qualquer pessoa, em qualquer manifestação. Se você acha que ama e pensa que isso é uma dádiva concedida somente a você, sinto informá-lo: isso não é Amor. Se você não se sente feliz ao ver a Felicidade de outro, saiba, você não é feliz. Agora, se você acha que um evento desse porte não trará benefícios a muita gente ou que, pelo, menos, trará mais benefícios que malefícios, aí você é cego mesmo.

Mas suponhamos que a pessoa com essa atitude esteja apenas percebendo que, diretamente, não ganhará nada com isso. Assim como eu. Não me interesso por esportes, não moro nem pretendo voltar a morar no Rio, não sou proprietário de nenhum estabelecimento que vá lucrar com o incremento turístico, não sou dono nem empregado em construtora, não tenho ligações políticas que me favoreçam legal ou ilegalmente… Ou seja, provavelmente se os Jogos Olímpicos deixassem de existir, isso não afetaria muito a minha vida. Mas, existindo, afeta, melhora e gera felicidade à vida de milhões de pessoas. E eu me regozijo com isso. Fico feliz porque outros estão felizes.

Todo esse papo não é pró-Rio 2016 (já foi! We créu!) nem para defender determinado ponto de vista sobre este tema exatamente. A intenção é convidar a refletir sobre nossas próprias atitudes a partir dele. Mesmo que você não tenha sido um desses que torceu contra a candidatura do Rio, se pergunte se já não fez isso em outra ocasião. Se foi, tente imaginar a situação inversa: o Rio quase todo, parte do Brasil e da América do Sul torcendo para um projeto seu dar errado. Por que? Porque querem que dê errado e pronto. Sua vida não tem importância alguma para eles, ora!

Encerro com um aforismo de Shantideva. É um dos meus preferidos e que tenho como verdade indiscutível: Infelicidade é o resultado de desejar nossa própria felicidade. Felicidade é o resultado de desejar a felicidade dos outros.

Logo abaixo em  COMMENTS
Esta entrada foi publicada em Atualidade, Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

6 respostas a Rio com o coração

  1. Eu estava torcendo por Madrid. E Contra o Rio. Não por inveja nem urucubaca, mas simplesmente porque não acredito no Estado Brasileiro. Se o povo na sua generalidade e generosidade, pela entrega e paixão pelas causas, será beneficiado, só acredito vendo! Há pelo menos três bons argumentos que sustentam a minha opinião. Mas , como vc mesmo disse… Viva e deixe viver! E já agora, o símbolo de Madrid, a mão colorida estendida, é sinónimo de integração… Não é à toa que é símbolo também da ACIDI – Alto Comissariado para Integração e Diálogo Intercultural, instituição de apoio à imigração, cujas cores representam mesmo a diversidade étnica do mundo.
    Beijo

  2. Contextualizando, pois eu sempre acreditei e defendo que uma imagem não vale nada sozinha.
    http://www.madrid2016.es/es/nuestracandidatura/imagenlema/Paginas/presentacion.aspx

    Bjo

  3. alderico disse:

    para vc notar bem. aqui tem gente que não tolera Lula. Chama-o de canastrao, aproveitador, vulgar e outras coisas. Eu admiro vc ter um outro pensamento como os 83 p.c. que manisfestam apoio a Lula. Na sexta-feira, quando saiu o resultado, eu subi as escadas da minha casa, chorando de alegria, como Lula tambem chorou. Ele pode ser um presidente “chorão” pq isso também eu sou. Ainda agora choro a ver tua materia. É isso, vamos as Olimpiadas, seu Deus quiser.

  4. Sandro,

    Eu fiquei contente com a decisão, com a “vitória brasileira”.
    Não estava na torcida, pois como muitos, estou cansada da festa, quero trabalho e mudança. O Brasil vive um caos, e muitos fingem estar tudo bem.
    Acho bacana,mas confesso que não me empolgo fácil.Tenho esperança,mas no meio do caminho há muitos percalços. Quero que as coisas mudem de verdade.
    Que os investimentos que virão com a Copa e as Olimpiadas perdurem, que sejam bons para o povo,par ao país. Que os olhos do mundo nos ajudem a sair da beira do abismo.
    Quanto ao Lula, não aprovo seu mandato, sou do contra. me envergonha alguém que nunca trabalhou( o dedinho tem história),nunca estudou chegar a presidência de um país, como assim?
    Acho que ele foi bem lapidado, tem seus méritos,mas lamento sua presidência.
    Me envergonham a miséria, a falta de educação, de justiça, de ética, me envergonha a falta de vergonha dos políticos, quero que tudo isso mude´, por mim e pelos outros.
    “Vencemos Chicago e Obama, mas não vencemos Sarney e Renan. ” adorei essa crônica do Sérgio Malbergier, diz muito do que penso
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/sergiomalbergier/ult10011u632904.shtml
    Se toda a euforia servir para uma boa mudança, estou “dentro”, não sou do contra, sou a favor da felicidade geral d anação.
    Gostei do post.

  5. joão disse:

    Sandro.
    Isto aí meu caro!
    Quem torceu contra o Rio na verdade torcia contra o Lula, achando que o LULA representa o Brasil. Ele é o presidente atual, um dos que batalhou porisso. As mesmas pessoas que não engoliram sua eleição não engolem a Olimpiada no Rio. Se fosse o Psdb ou outro partido mais alinhado com as elites estas pessoas estariam fazendo festa. Lula é humano! E como tal tem muitos defeitos, mas a maior qualidade ainda é se emocionar. E chorar também…
    abraço
    joão antonio

  6. Dinor Guinzani disse:

    Os 2 lados da moeda……… Por um lado, claro que queríamos as olímpiadas aqui, por uma questão de pensar no futuro, no sentido de ter esperança em ver uma cidade mais organizada para o envento e com possíveis futuros investidores em vários setores. No entanto, também pensando no futuro, bate um grande receio, pois basta lembrar do PAN, onde pouco retornou para a cidade, além de um gasto descumunal, que não terá retorno e poderia ser utilizado em setores como Saúde, Educação e Segurança….Isso sem contar com as irregularidades nas contas. Nao quero ser piegas, mas o RJ atravessa um momento de “maracutais” em gastos públicos, que parece superar muitas “lendas” nesse setor……e não ficaria difícil imaginar o quanto deixaria de ser investido em melhorias reais e mais duradouras…..
    Resumindo, tanto os que torceram a favor, como os que torceram contra, estavam preocupados com o mesmo ponto, o FUTURO. Seja na esperança de ver uma cidade mais organizada e estruturada, ou no medo de ver uma cidade depenada com o mau uso das verbas, o FUTURO leva ao “medo” e a “esperança”- Pessimismo x Otimismo/ “Quixotismo” x Realismo/ positivismo x negativismo – e somente o FUTURO,quando se tornar presente, poderá dizer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *