São Cosme e São Damião

cosmedamiao1.jpgTive sorte em ser criado na Zona Norte do Rio. Nos subúrbios, há gente de verdade. É lá onde as tradições sobrevivem quando todo o resto já as esqueceu.

Em minha infância, dia 27 de setembro era, para mim, dia de correr atrás de doces de São Cosme e São Damião pelas ruas de Todos os Santos e bairros vizinhos. A vontade de juntar saquinhos de doces desconhecia os limites do bairro onde se morava. Não era por gula, mas pela festa, pelo prazer em correr e disputar com outras crianças, de saber, no dia seguinte, quem juntou mais saquinhos. E se o dia seguinte caísse em um final de semana, pode ter certeza de que a distribuição continuaria.

Era um tal de moleque com sacos plásticos correndo de um lado para o outro e depois para casa, para descarregar e logo ganhar as ruas outra vez. Confesso que não era dos mais afoitos. Eu me contentava com a distribuição feita nas casas mais próximas, nas tradicionais e nas das famílias amigas, que guardariam meu torrão mesmo que eu não estivesse presente na hora da entrega.

Meus filhos nasceram fora do Rio e em tempos bem diferentes. Nunca viram e provavelmente só verão um desses dias de euforia se eu os levar a uma aventura antropológica pelos subúrbios cariocas. A tradição resiste.

A seguir, publico outra vez texto de 27 de setembro de 2005, escrito em Brasília (outra saudade!), sobre minhas lembranças do dia de Cosme e Damião. Tenham um dia doce!

:: 2 Filhos da Arábia

 

Pé-de-moleque, cocada, maria-mole, paçoca e pirulito Zorro. Saquinho bom de Cosme e Damião tinha que ter esses doces. Balas Juquinha também eram muito bem-vindas. Soft era o terror das mães. A gente sempre engasgava com elas. E cocô de rato, tinha quem gostasse, mas o celofane transformado em saquinhos parecia mais interessante que o próprio doce que nem era lá tão doce.

De tudo, o que eu mais gostava era cocada. Gosto até hoje. Tradicional, de leite condensado, de coco queimado, de abóbora. Todas.

Correr atrás de doces pelas casas da vizinhança era uma farra nos anos 70 e até início dos anos 80 nos subúrbios do Rio. Nas primeiras vezes, eu pegava só nas casas da rua onde morava e ficava decepcionado com a contagem no final da tarde ou no dia seguinte. Enquanto alguns garotos pegavam 40 ou 50 saquinhos, eu não havia conseguido 20. Depois fui me aventurando pelas ruas mais próximas e descobrindo as casas que distribuíam mais e melhores saquinhos de doces.

Na maioria, as pessoas ficavam no muro ou entregavam os sacos pelas grades do portão. A criançada se espremendo. Alguns pegavam e imediatamente saíam em busca de outro ponto de distribuição. Outros pegavam e se faziam de doidos, tentando pegar mais um. “É pro meu irmão”, dizia. “Manda ele vir pegar”, rebatia quem estava distribuindo. Tristeza era chegar naquele amontoado de crianças e, quando sua mão estava chegando quase lá, ouvir a sentença fatal: “Acabou!” Aaaaaaaaaaaah! E todo mundo já corria para outra casa.

Algumas pessoas distribuíam doces só pelo gosto de ver a alegria da criançada. Outros porque haviam feito promessa aos gêmeos santificados. Uma casa no início da José Bonifácio, no bairro de Todos os Santos, era famosa. Os moradores admitiam cerca de 50 crianças em um determinado horário. Faziam uma oração, ofereciam lanche e depois os saquinhos, que eram dos mais ricos das redondezas.

Meus amigos de outros Estados, mesmo os da minha idade ou pouco mais velhos, não têm lembranças do Dia de Cosme e Damião. Acho mesmo que era uma tradição mais forte no Rio de Janeiro. Santos católicos, os gêmeos também são venerados pelas religiões afro-brasileiras. Protetores das crianças, quase sempre eram a primeira opção de ajuda divina buscada pelas mães em ocasião de acidentes ou doenças dos filhos. Em troca da graça, quase sempre a promessa era a de distribuir doces no dia dedicado a eles, 27 de setembro.

A tradição de distribuir doces deve resistir em alguns lugares mais calmos, no Rio, onde as pessoas ainda não esqueceram os costumes de suas religiões.

Ano passado, em Brasília, entrei em uma farmácia e vi uma estatueta dos irmãos nascidos na Arábia, mas filhos de pais católicos. Fiz uma foto (esta que está ilustrando o texto) e fiquei me perguntando quem era aquele baixinho no meio dos dois e o que os três estavam fazendo ali. É que, além de protetores das crianças, eles são padroeiros das escolas de Medicina e das Farmácias. E o pequenininho no meio deles é Doum, uma entidade venerada por umbandistas e que tem uma história parecida com a dos santos católicos. Ele é representado em tamanho menor pois seria protetor das crianças em sua primeira infância, até os 7 anos. Dizem que é muito arteiro.

A violência nas ruas – que deixam as pessoas cada vez mais trancadas em suas casas –, o esquecimento das tradições, o surgimento de inumeráveis igrejas evangélicas – que não veneram santos… tudo isso e muitos outros motivos podem ter acabado com aquela festa que era correr pelas ruas atrás de doces. Mas as minhas lembranças dos dias de Cosme e Damião estão bem guardadas. Vai uma cocadinha aí?

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11 respostas a São Cosme e São Damião

  1. Morei no Rio e lembro bem da movimentação por la neste dia. As crianças ficam loucas a espera das guloseimas que vão ganhar no dia de hoje. Muito legal… queria ta la para fotografar a festa.

  2. Wilson Natal disse:

    Sandro:

    Tradições devem ser sempre cultivadas, senão morrem. E quendo morrem levam consigo parte da história de um povo, de uma nação.

    A tradição e comemoração do dia de Cosme e Damião sempre foi muito forte no Rio. Aqui em S. Paulo, reduziu-se à colônia napolitana e às festas da umbanda – muito bonitas, por sinal.

    Eu, comemorava à napolitana o dia de Cosme e Damiano ganhando “caramelle” (caramelos) e ia à rua abaixo de onde morava,até o Terreiro de Umbanda, onde as crianças eram recebidas e reverenciadas.

    Éramos os ERÊS (simbolização da perenidade e renovação da vida).

    E nós, os erês, recebíamos pipocas, cocadas e balas…

    Saudade!

    O Brasil perdeu essa tradição trazida pelos portuguêses. Cada vez mais reduz-se à poucas regiões.

    Aqui, ela também vai desaparecendo. E Cosme e Damião serve a denominar os policiais que, aos pares fazem o policiamento das ruas da cidade.

    Abração!

    E que os santinhos gêmeos façam a nossa vida mais doce!

  3. Do mesmo jeito que você falou, onde eu morava, em bonsucesso, tinha uma casa de uma amiga da minha mãe que fazia uma das maiores festas das redondezas, eram aproximadamente 100 crianças e entre jantar, cachorro-quente, bolos, doces e refrigerantes ainda davam bonecas para as meninas e bolas para os meninos.

    Todo o bairro comemorava. Lembro que até uma delegacia de polícia que tinha no início da minha rua dava doces para as crianças neste dia.

    Ô saudade do dessa época.

    Era uma festa divertida, mas com a violência aumentando a festa cada vez mais foi diminuindo, nos últimos anos que fui atrás de doces já era notório que uma menor quantidade de pessoas participavam e todos os pais estavam alí de olho em onde as crianças estavam.

  4. Eu já não vivi essa tradição. Em São Paulo onde cresci pelo menos no bairro de Santana não havia nada.Mas lembro da minha mãe que é carioca contar sobre a comemoração na sua infância.
    Como bem disse o Wilson, quando as tradições morrem levam consigo parte da história de um povo, isso é triste.
    Doce texto,adorei.

  5. Sandro,

    Texto emocionante. Nasci e cresci no Rio de Janeiro. Na infância, minha avó fazia a cocada e o doce de amendoim dos saquinhos. Cresci, curtindo o movimento do dia.

    Há alguns anos, surgiu um forte movimento de resistência das igrejas evangélicas contra a distribuição de doces. Os fiéis iam em massa para as ruas distribuir folhetos associando o costume à satanás. Certa vez, minha mãe passou e, desavisada, pegou um desses papéis. Não leu na hora. Chegou em casa e o conteúdo era tão bravo — chegava a dizer que quem comesse os doces poderia morrer — que ela voltou para tomar satisfação com as pessoas.

    Este ano criei coragem. Comprei os doces e montei os saquinhos ontem. Hoje fui distribuir.

    Muito bom! Estou feliz.

    A resistência de sua mãe e sua decisão de manter viva a tradição é que são emocionantes! Eu lamento não ter tido coragem de criar um pequeno núcleo desses em cada lugar que morei. Mas ainda há tempo.

  6. irene disse:

    não lembro de na minha infancia ter participado desse dia. Já adolescente quando era curiosa e gostava de frequentar os terreiros de umbanda aí sim comemorava os santos.
    Já meus filhos curtiram muito, em Brasília na quadra onde morávamos a distribuição era em todos os blocos, eu padecia no dia seguinte com tantos bombons, cocadas,maria moles…etc
    como dar conta ??

  7. Andréa (Miggie Pupuh) disse:

    Velhos tempos, belos dias…
    Cosme e Damião. 27 de setembro. Dia mítico da minha infância.
    Você em Todos os Santos, eu pelas ruas do Maracanã. Na verdade o grande barato realmente, como bem disse, era a farra, a competição. Dos doces, eu nem era muito fã. O legal era matar aula ou passar o fim de semana no meio do bando correndo de um lado para o outro.
    Desde que saí do Rio de Janeiro para morar no interior, nunca mais tinha visto nada parecido, pois o número de evangélicos é enorme em cidades pequenas e essa tradição fica perdida. Mas esse ano foi diferente, um vizinho que veio do subúrbio do Rio pra cá, mantém o ritual. Durante a semana foi para os depósitos de doces, convocou a família toda para encher os saquinhos e dsitribuiu na porta as abençoadas guloseimas. Me emocionei profundamente vendo aparecer do nada uma fila enorme de crianças com sacolas plásticas nas mãos. Mais ainda quando vi meu filho de 13 anos, que nunca tinha vivido essa experiência, garantir o dele e depois ajudar na distribuição.
    Quero guardar esta cena na minha memória.
    São coisas assim que nos deixam mais felizes!

  8. enedina disse:

    Ola amigos.
    Moro em Nova Venécia/ES(norte do Estado do Espirito Santo)
    Eu qdo criança, gostava de ir nas casas vizinhas receber saquinhos com balas no Dia de São Cosme e Damiao.Era mt bom.Que felicidade!!!
    Agora mesmo ja estou preparando os saquinhos com balas,cocadas,bombons,maria mole,chicletes,pipocas doce,pimentinha,pirulito,melzinho,geleia e etc para distribuir ás crianças no Dia 27 de Setembro(na segunda-feira).Tenho um grande prazer em ve-las a sorrir de felicidades.Estando elas felizes…eu tbm estarei.
    Felicidades a todos nós.

  9. Glaucia Garcia disse:

    Também distribuí doces aqui no Rio de Janeiro. Foi meu segundo ano e não pretendo parar tão cedo.

    Não sei quem fica mais feliz. Se as crianças que recebem ou a gente que dá. Os olhinhos brilhando, as mãozinhas estendidas e o som das gargalhadas de alegria são inesquecíveis e ficam por muito tempo.

    Salve Cosme e Damião!

  10. Girlane disse:

    Minha infância foi no rio, na ilha, era muito emocionantea essa dat, enchia a mochila pro resto do ano! E minha mãe ia comigo e com meus irmãos na aventura, as ruas ficavam cheias de crianças correndo e se comunicando pra saber qual era a casa que estava entregando presentes!

    As casas das famílias mais abastadas davam também brinquedos, carrinhos, bonecas, bambolê, bola, iô-iô…Eu me lembro que quem doava doces e brinquedos, sempre carregava um semblante contente no rosto, lembranças de tempos felizes.

  11. Denise disse:

    Moro em São Luís do Maranhão, cidade de muitas lendas e tradições, porém, a maioria delas sobrevive somente nas periferias. Após ler e me emocionar com o seu texto, pois amo as manifestações culturais, tive a deliciosa surpresa, de ver meus filhos pequenos, entrarem em casa felizes com saquinhos de doces dados por uma vizinha. Fiquei feliz de ver a alegria deles e mais ainda, de saber que as tradições resistem.

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