Filmes, livros e cervejas

Na última terça, fiz o extremo esforço de arrastar-me ao inferno (comumente chamado de shopping) para fazer minha doação semestral ao Cinemark. A cada seis meses, dou um voto de confiança ao ser humano e me permito conferir como anda sua educação. E ele sempre se supera. Para pior.

Para eu ir a um cinema de shopping, preciso seguir alguns pontos prévios: NUNCA em fim de semana ou feriado, NUNCA em dia nem em semana de estreia, NUNCA para ver aquele filme que todo mundo quer ver, preferencialmente na primeira sessão do dia, preferencialmente na segunda-feira, etc. São regras para encontrar o mínimo possível de espécimes dos hominídeos que frequentam as salas de cinemas.

Lá vou eu conferir La belle personne, que aqui virou A bela Junie. Supero o fato de o cinema ser em um shopping e chego à bilheteria vazia a uma da tarde. A respiração começa a se alterar quando digo o nome do filme e a garota da bilheteria confirma com um June americanizado. Pode parecer bobagem, mas isso é um sinal, como muitos outros que podemos constatar durante o dia, de que o brasileiro não conhece seu idioma, mas se sente familiarizado com aquele falado no Império. Se não é para falar corretamente, em um terceiro idioma, por que não um June aportuguesado em vez de Djuni? Mais. Onde foram parar aquelas pessoas que trabalhavam em salas de cinema e aproveitavam qualquer 10 minutos para ver, da porta, um pedaço do filme? Aquelas pessoas que decoravam falas, que se encantavam com a possibilidade de verem várias vezes a mesma fita, que aprendiam montes de coisas a respeito de diferentes culturas e com isso compensavam a deficiência do estudo comum? Hoje são apenas tipos com um emprego e que nem conseguem reproduzir corretamente o nome daquilo que vendem. Lembro de uma historieta ocorrida no início dos anos 90, em Natal, quando virou piada ligar para um número que informava a programação de cinema para ouvir uma mulher dizendo: “No Rio Verde (o cinema),‘Dé Dóris’”. Jim Morrison devia se revirar no túmulo!

Enfim… a menos de dez minutos de começar a sessão, as lonas na entrada do cinema ainda estavam baixadas. Respiro fundo. Faltando cinco minutos, são finalmente abertas. Sou o primeiro a entrar. Vou para a última fila, bem ao centro. Na rádio, rolando Noel Rosa (pasmem!). Alegra-me a possibilidade de ser o único espectador, mas logo outras pessoas aparecem. Uma senhorinha de cabelos brancos. Claro! Um filme francês. Gente fina. Escolhe seu lugar e… coloca os pés apoiado na cadeira da frente! Ei, minha senhora, deixe isso para os adolescentes estúpidos! Tenha um pingo de educação. Ao menos finja que tem. Além de mim, 19 espectadores. Mais uns dois que acreditam estar em casa e usam as poltronas como espreguiçadeiras. Tudo bem. Foco no filme. Esqueçamos os bárbaros.

labelle.jpgLa belle personne, de Christophe Honoré, é uma livre adaptação de La Princesse de Clèves, famosa obra seiscentista, escrita por Madame de La Fayette, e que é tida como precursora do romance. Fala de um triângulo amoroso, da dúvida de uma jovem entre o homem que faria tudo por ela e aquele por quem ela realmente se apaixona. Sim, você conhece centenas de livros, filmes e novelas que contam essa história. São variações do mesmo tema, incansavelmente repetido há mais de trezentos anos.

Gostei, mas não entrou para a lista dos meus filmes franceses preferidos. Tem os traços comuns às histórias francesas – tragédia, melancolia, beleza, sensualidade classuda –, inclusive uma protagonista linda, no caso, Léa Seydoux, aos 22 anos e com cara de ninfeta, interpretando uma garota de dezesseis. Sua Junie chamou a atenção dos donos do cinema mundial. Ela aparece em Bastardos Inglórios, de Tarantino, e será a Princesa Isabella, em Robin Hood, de Ridley Scott, que deverá estrear no Brasil em maio de 2010.

Sem mais traumas, tive que sair da sala, mesmo tendo ingresso para a sessão seguinte, de outro filme, que começaria vinte minutos depois. Saudade de quando se comprava ingresso para o cinema e não para a sessão. Era tão bom entrar e assistir ao filme quantas vezes quisesse. Mas tudo bem. Vai longe esse tempo. Adequado, já estava com o ingresso para a sessão seguinte. Comprei-o com a convicção de que iria estragar minha tarde: Os Normais 2. Era só para fazer uma ponte até o fim da tarde, quando encontraria Cefas Carvalho, ali mesmo no xópin. Definitivamente, não é o tipo de filme que me leva ao cinema, mas era o único que se encaixava no horário. Fiz o sacrifício. Não sei o que foi mais constrangedor: Luís Fernando Guimarães em sua eterna caricatura de si mesmo, o besteirol grosseiro de Fernanda Young e companhia, os adolescentes fazendo fotos e espocando flashes antes da sessão ou o casal que resolveu se sentar ao meu lado e, não contente em tagarelar todo o tempo, resolveu se acasalar ali mesmo. Daquele jeito bem cinema poeira dos anos 80: sentar no colo, beijos e abraços. Para eles, trepar deve ser a maior das transgressões! Fala sério! Como esse mundo anda sem graça. Nessa hora e pouco, só Fernandinha Torres se salvou.

Terminada a tortura, encontrei Cefas. Conversamos sobre um projeto em conjunto e recebi exemplares de seus mais recentes rebentos: o livro Encontos e Desencontos e o ainda não lançado cordel O encontro de Michael Jackson com Lampião no Inferno.

“Meu nome é Virgulino
Ferreira, o Lampião
Fui bravo cangaceiro
Nas veredas do Sertão
Bem-vindo ao inferno
A terra santa do Cão”

Michael bambo das pernas
Disse que era um engano
“Eu devia estar no Céu
Este ao menos era o plano
Nunca fiz mal a ninguém
Não causei nenhum dano”

livros_cefas.jpgCefas não perdoa. O restante da história vocês leem quando o cordel for lançado ou quando ele liberar em seu blog. Ganhei também um exemplar de Esquina do Mundo – A Hora do Cão Lobo, de sua esposa, Cláudia Magalhães, que será lançado nesta quinta, 10 de setembro, na Siciliano do Midway Mal, em Natal. Adoro ler livros que ainda não foram lançados e tê-los autografados em data anterior a de lançamento. Cláudia teve que fazer a dedicatória ali mesmo, em meio a latas de cerveja, mas nem por isso deixarei de ir à noite de autógrafos.

Eu e Cefas fechamos o Midway. O povo foi educado (ou temeroso) e não chegamos a ser expulsos. Mas, à exceção de nossa mesa, todas as outras na imensa praça de alimentação já estavam com as cadeiras viradas. Infelizmente, a cena insólita não foi registrada.

Essa tentativa de interação presencial com humanos (Cefas não incluso) me fez pensar que estou saindo de uma longa ressaca. Aguardem novidades para breve.

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6 respostas a Filmes, livros e cervejas

  1. Wilson Natal disse:

    Beleza! O segredo é esse. Cair no mundão de Deus e ver que, independente da nossa vontade, gostando ou não, coisas estão acontecendo.

    E cinema será sempre cinema, com visões e condenações de cada época. E sexo no cinema, não é novidade. Apenas evoluiu: Antes era mão na mão; mão naquilo, aquilo na mão. Hoje é aquilo naquilo e sai debaixo, sai de lado, sai da frente para evitar “acidentes colaterais”.

    E sexo virou trivialidade. Não é cio, só tesão ordinário – Tesão sem “frisson”, “sens passion”

    E a sua ida ao “chópi”, caindo no mundo, resultou em novidades literárias que, para um “devoreur de livres” como você, só pode fazer um grande bem.

    Ganhou até um Cordel, com o velho e cantado Lampa, encontrado o Mako Jacko nos infernos do imaginário nordestino.

    E, com certeza o Mako Jacko está dançando e cantando:

    Is Lampa, Lampa,Lampa é Lampiao.
    His name is Virgulino,
    Nick-name is Lampiao.

    Obs:- É Lampiao mesmo! Gringo não consegue pronunciar “ão”.

    Vai em frente que atrás vem gente (querendo encoxar. 🙂 )

    Abração,

  2. Henderson disse:

    Já não vou mesmo ao shopping…quando penso na possibilidade de encontrar “seres humanos” neo-educados, desisto. E agoro ainda corro o risco de além dos neo-educados, encontrar no lugar sagrado do chopp nosso de cada dia, as figuras sobre humanas de Lobão e Cefas. Deus não quer mesmo que vá a shoppings!!

  3. Jalmir disse:

    Engraçado, eu também fui no cinemark sem maiores expectativas. Comprei o ingresso e vi um filme incrível. Gostei muito, além disso há Nick Drake na trilha. Nunca pensei que o folk triste do Drake comporia tão bem as cenas do filme.

  4. Pingback: De novo os ceresumanos « Umas & Outras

  5. Pingback: De novo os ceresumanos | Colunas Diginet

  6. chopp disse:

    “Gostei do blog!”

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