
Plínia quer enterrar sua mãe. O grito interrompe os desejos alheios e provoca risos nervosos: “Eu quero enterrar minha mãe!”. Da última fila, tento buscar um ajeitar-se na cadeira que talvez signifique “eu também”.
Eu nunca quis enterrar alguém. Acho mesmo um costume estranho. Enterramos para, três anos depois, desenterrarmos. Terra pouca, raso minifúndio, é preciso dar espaço ao próximo. Quer aproveitar e responder a pergunta outra vez? Quem você quer enterrar?
Ninguém. Nada. Estava ali para rever, cinco meses depois, Plínia e Banto, Paula e Henrique. Da primeira dupla, os medos e dúvidas existenciais. Da segunda, o reconhecimento no palco centenário do Alberto Maranhão. Casa lotada, público dispersivo fisgado pelo talento dos dois atores. Logo só há os personagens e seus “ses”.
É outro costume estranho. Imaginar como teria sido. Passado imaginário, redentor. Oração atrasada, pedido desesperado de remissão por erros e culpas, impossível de ser realizado.
Passado imperfeito enterrando presente e futuro. A covardia de não haver tentado corroendo convicções, desfazendo certezas que pareciam imbatíveis. Você corre a olhar no caixão e descobre que no lugar de quimeras sepultou sonhos. Resta aceitar o augusto conselho e acostumar-se à lama.
Vade in pace.
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