Diário de São Pedro (IV)

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Acordei às 4h30 da manhã com ganas de andar até a Praia do Sol para ver o dito nascer. Preparei um cappuccino como mui modestamente só eu sei fazer e… liguei o computador. A vontade foi passando, a cabeça começou a entrar em ritmo de trabalho, mas lá pelas 6 horas olhei pela janela e não resisti. O céu lindo me chamava pelo menos para uma caminhada rápida, só ali pelo calçadinho da Pitória.

É assim que chamo o trecho de aproximadamente 200 metros com calçamento e um pequeno passeio na Praia da Pitória, em São Pedro da Aldeia (RJ). Nesse pedaço, a faixa de areia também é estreita. Tem entre 2,5 e 4 metros. Enquanto esperava o sol nascer, andei por ali e comecei a me incomodar mais profundamente com algo que me incomoda sempre: lixo.

Fiz uma foto rápida, corri para casa, coloquei-a no ar, peguei umas luvas e saí de novo em direção ao mercadinho da esquina. Comprei sacos de lixos, toquei de novo para o começo do calçadinho e vim catando tudo que via pela areia. Linhas e varetas de pipa (papagaio, pandorga…), tampinhas plásticas e de metal, copos, embalagens de biscoito, pedaços de rede, todo tipo de plástico e muitas, muitas guimbas de cigarro que seriam suficientes para encher fácil um galão desses de 20 litros de água mineral.

A limpeza foi só na areia. Na rua e na calçada do outro lado, a sujeira era ainda maior. Nesses duzentos metros com obstáculos – muitos! –, enchi quase dois sacos de 100 litros. Levei duas horas fazendo isso. Acho que me agachei e levantei mais dos que nos últimos quinze anos. E olha que tenho três filhos com diferença média de 6 anos, o que garantiu muito abaixa, segura, suspende, carrega, abaixa de novo, faz tudo outra vez, durante essa década e meia.

As pessoas passavam e olhavam, achando algo estranho. Para quem não me conhece, tenho o que chamo de “physique du rôle de lutador aposentado”: largo, pernas e braços fortes e uma barriga de quem há muito tempo só pratica halterocopismo e tecladismo com mouse. A cara não combina muito: bruta, dentes separados de adolescente que ainda não usou aparelho e óculos que denunciam alguma atividade intelectual. Os aldeões deviam estar perguntando o porquê de este pequeno ogro míope estar catando lixo na praia àquela hora da manhã.

Vi um homem passando com o filho e disfarçando quando o flagrei olhando. Deve ter falado ao garoto: “Estuda, meu filho, para não ter que fazer isso quando crescer”. Mesmo enviesado, o raciocínio estava quase certo. Bastava ter completado: “(…) para não ter que fazer isso quando crescer: SUJAR”.

Mais adiante, já vencidos os cem primeiros metros, uma senhora me abordou com a seguinte frase: “Ah, se todo mundo fizesse isso!”. Eu, com minha língua grande, retruquei: “Ah, se não sujassem! Ninguém precisaria fazer isso”. Limpar dá trabalho. Muito trabalho. Minhas costas, pernas e braços que o digam. Sujar também dá algum trabalho porque para isso você precisa desenvolver alguma ação. Não sujar não dá trabalho algum! Basta fazer nada. Ficar quieto. Paradinho. Estátua! Não fazer nem o movimento de abrir as garras para soltar um papel no chão.

É uma questão de educação – escutem o papai e estudem, meus filhos, para não serem porcos! – que a maioria dos brasileiros não tem. As pessoas querem apenas se livrar do lixo. Colocam na porta e pronto. É como se a fada da companhia de lixo fosse passar imediatamente e deixar tudo brilhando. Também não basta só acondicionar tudo em sacos de lixo. É preciso embalar adequadamente e separar. “Ah, mas no caminhão de lixo mistura tudo”. Só que o problema do lixo não é do caminhão. É de todo mundo, de todos NÓS. Separe, guarde o que pode ser reciclado, leve até um posto de coleta seletiva ou entregue para pessoas que passam pedindo esse tipo de material. Lixo orgânico, principalmente, não deve ser colocado na calçada. Animais reviram e espalham tudo, atraindo outros animais. Cães rasgam os sacos, sujam tudo, comem coisas estragadas, adoecem, defecam e vomitam gerando maior probabilidade de VOCÊ pegar alguma doença. Também atrais ratos, baratas, moscas, mosquitos. Isso bem na porta da sua casa. Porque VOCÊ colocou o lixo de forma inadequada. Lixo na rua, só no dia em que o caminhão passa recolhendo. “E eu vou ficar com ele dentro de casa?” Sim, de forma que também não polua seu habitat. Respeitando seu espaço, mantendo-o limpo, você acabará aprendendo a fazer o mesmo pelo dos outros. A isto se chama civilidade.

A limpeza que fiz numa pequena faixa de areia não vai salvar o planeta nem mesmo fazer os habitantes de São Pedro da Aldeia terem uma vida melhor e mais saudável. A esta hora, quando você estiver lendo isto, o mesmo lugar já deve estar tão sujo quanto o encontrei. Eu limpei por pura agonia, porque não sei andar e viver em um lugar sujo. Sinto-me um selvagem quando me vejo obrigado a isso. E eu não ME obrigo a isso.

Consciência não é algo que possa ser comprado. Tampouco diploma algum dá isso. É prática diária, é internalização de ideais que tragam mais equilíbrio e harmonia para a sua vida e a de todos. Se você é desses que acha que limpeza é problema de outros, “o governo que se vire”, “o governo que é responsável”, tente pelo menos não sujar. Ou suje apenas seu próprio chiqueiro em vez de transformar a vizinhança em um. Mas se você já teve um lampejo de consciência em relação a isso, mais do que não sujar e limpar a sujeira dos outros, procure esclarecer as pessoas ao seu redor da importância disso. Se você limpar e não ensinar a seus filhos que eles não devem sujar, nada vai mudar.

E pensar que vim a São Pedro da Aldeia para escrever um livro. Isso lá é vida de escritor?! É sim. Afinal, para ser escritor é preciso ser humano. E ser humano é diferenciar-se dos outros animais pela capacidade de raciocinar e fazer escolhas, de preferência, as mais corretas. Você é capaz disso?

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3 respostas a Diário de São Pedro (IV)

  1. Sei que o assunto é sério e quero fazer um comentário sério, mas a única coisa que me vem à cabeça é que quando você se auto-descreveu esqueceu AS TATUAGENS!

    Verdade! Esqueci esse detalhe que me dá um tom de presidiário. 😉

  2. joão disse:

    Sandro.
    A vida é foda. Não tem descanso. Nunca que este mundo vai estar pronto…Figuras como você, um misto de D.Quixote com Sansar Kafka são necessários. O diabo é que o mundo não está pronto e vai demorar muito, cê ainda vai ter muito trabalho. Falo você mas me incluo neste “você” também.
    grande abraço
    e tomara que os lixos deixem te escrever o livro.
    abraço
    joão

  3. Marcia disse:

    A filosofia budista menciona três tipos de preguiça: a preguiça por indolência (“Depois eu faço.”), a por excesso de ocupação (“Estou sem tempo.”) e a por inferioridade (“Não sou capaz de fazer isso.”). A preguiça está sempre atrelada à falta de iniciativa e de atitude. Muitas vezes é extremamente cômodo esperar que ações e iniciativas partam do outro, afinal corremos menos riscos, não assumimos responsabilidades.
    Penso que temos uma tendência a agir dessa forma em várias situações de nossa vida, sendo covardes ou omissos. Tais padrões às vezes estão enraizados de tal forma que não conseguimos enxergar que mudanças precisam de um único ponto de partida: a própria pessoa. Conscientizar-se disso é um exercício constante, um aprendizado. Em sala de aula, deparo-me com frases do tipo: “Pra que vou me preocupar se ninguém se preocupa?”; “Não fui eu quem jogou o papel no chão, por que eu tenho que pegar?”, “Pra que ser gentil se ninguém é comigo?”.
    Talvez as pessoas estejam voltadas para si de maneira errônea. O individualismo impera. Voltar-se para si realmente é um encontro difícil, pois é tomar rédeas, assumir condutas e muitas vezes mudar a forma de ver o que nos cerca.
    Parabenizo-o por sua iniciativa generosa e compassiva. O exemplo a ser seguido está muito além do de manter o ambiente limpo: está em mostrar que há outras formas de interagirmos com o mundo, sendo mais autênticos e respeitosos conosco e com o que nos cerca.

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